12 de janeiro de 2017

Vale o impresso!

Aprendi a jogar no bicho com meu primeiro chefe, o Charles Boyer, o francês mais carioca que conheci. Ele usava óculos de fundo de garrafa, a camisa social sempre dobrada nas mangas, o andar rápido em meio ao mundaréu de gente no Centro da cidade. Ele tinha uma malandragem intrínseca, devia ser de Marselha, nem lembro se perguntei isso a ele. Era um personagem de Jean Genet. Pois foi ali nas cercanias da Praça Pio X, a Candelária como testemunha, que o Boyer me ensinou a cercar a milhar pelos dez, a fazer um duque de dezena combinado, a apostar na milhar do talão por desencargo. Certa feita fiz um jogo sozinho, ganhei uma merreca, e mostrei ao Boyer, crente que estava abafando. Ele olhou e sentenciou: “Burro, só jogou no grupo? Podia ter ficado rico”.

Fico imaginando como o Boyer reagiria ao ver que a era digital chegou ao jogo do bicho. Eu mesmo me senti um tanto desconfortável ao ver que o apontador, no lugar do bloco e da caneta, empunhava um celular. “Pois não?”. Nada daquela letra caprichada desenhando os números da milhar dos sonhos, nada daquele carbono azul para fazer a cópia, nada de apostar no talão. Não tem mais talão! Não vale mais o escrito! Feita fezinha, o apontador (melhor agora ser chamado de digitador) transmite a aposta de celular para uma maquininha impressora e te entrega um comprovante que nem esses de cartão de crédito depois de compra em loja. Simples assim.

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Pergunto ao apontador, velho de guerra, se ele gosta mais do método atual ou do antigo. “A gente não teve escolha. Era isso ou isso”. Com essa crise, nem apontador tem mais emprego garantido, e o jeito foi aprender a usar o programa de apostas pelo celular. Tem até surpresinha, que nem loteria da Caixa. Coisa fina.

Ah, sim. Também não precisa mais o “deu no poste”. Isso é coisa do passado. Agora o resultado sai pela internet. Não arrumei nada com meu duque de dezena de leão com jacaré. Deu macaco na cabeça. Por dentro, deu camelo, coelho, touro e carneiro. Já sei, Boyer, já sei. Se você estivesse lá comigo, eu podia estar rico.

Postado por Alexandre Medeiros às 3:06 pm
30 de dezembro de 2016

De tristezas e alegrias

Chega fim de ano e lá vem vidente fazer previsão, comentarista chutar prognóstico, jornal publicar retrospectiva e cronista arriscar palpite para o ano que vai chegar. No balanço dos 365 dias que se encerram, todos desejam que janeiro traga novas esperanças, que de angústia o mundo está cheio. Esse 2016 que vai embora, com fama de traiçoeiro, credo em cruz, além dos dramas pessoais e das contas a pagar, trouxe catarses coletivas, como Lava Jato, impeachment de presidente eleita, ascensão de vice sem voto, milhões de desempregados, estados falidos, peixe graúdo na cadeia. Trouxe a tragédia do voo da Chapecoense, e a inesquecível homenagem do Atlético Nacional e dos colombianos no Estádio Atanásio Girardot.

Perdi parentes e amigos queridos em 2016 – um deles, o Paulo Júlio Clement, estava no voo da Chapecoense. Foi embora tanta gente boa. O Cauby, o Naná, a Elke, o comandante Fidel, o Cruyff, o Capita. O Jorge Tiroteio, lá do Posto Seis. Tia Edith, da Portela, agorinha no fim de dezembro, e quem não lembra aquele macarrão com carne assada na Feira das Yabás? Muita gente na Rua da Amargura, fazendo biscate para sobreviver, as dívidas lá nas alturas. E bota a fé no avestruz, na borboleta, a milhar cercada pelos dez, a mega da virada.

Eu prefiro sempre lembrar as alegrias, por mais que as tristezas pareçam soterrar os sorrisos. Das pequenas alegrias embutidas num gesto, num carinho, numa palavra. No abraço de um amigo, no olhar. Desse 2016 que geral quer escorraçar, eu levo algumas dessas alegrias para acreditar que elas se renovarão em 2017. São esses momentos que nos movem para frente quando tudo parece ruir.

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Olha esse. O embrulho miúdo prenunciava, mas ele fez questão de dizer ao dar o presente: “É só uma lembrancinha”. Um chaveiro com a inscrição “pai só tem um, e como o meu, nenhum”, um abraço apertado e um beijo. Fico tão feliz nesses momentos do Natal que me atordoo, e nem percebi que dentro do embrulho tinha um papel dobrado. Preparei o lenço, pois imaginei que se tratava de um bilhete de Natal desses de fazer pai chorar na frente da família inteira. Mas não. Era o boletim do Francisco. A menor nota era 8. O olhar dele e o riso sem graça quando mostrei o boletim a todo mundo eu vou guardar para sempre.

 

A Cecília sem graça quando eu assobiei bem alto na sua formatura do colégio. O churrasco dos primos lá em São João de Meriti. As caras de pedinte da Helena implorando pra ir às festas. O Bernardo de camisa social indo pra Pavuna, tipo vice-presidente da empresa júnior da faculdade. As gargalhadas da Nara quando faço palhaçada, a nossa feijoada repleta de amigos e a parentada toda. As manhãs de caminhada no Aterro, dar de cara com o Pão de Açúcar sendo despertado pelos primeiros raios de sol sobre a Baía da Guanabara. O Celso falando mal do Temer no Facebook. Por falar nisso, fora Temer. Escrever um capítulo do livro que um dia vai sair. Almoçar com o compadre na Saara. Andar com a Cecília pela Saara e comprar mais uma vez um carregador de celular na loja do chinês, pão árabe e uma toalhinha da Portela para enxugar o suor nos blocos de carnaval.

Pensando bem, as pequenas alegrias é que soterram as tristezas. Feliz 2017 para todos nós.

Como diz a letra de Juízo Final, o sol há de brilhar mais uma vez

Como diz a letra de Juízo Final, o sol há de brilhar mais uma vez

Postado por Alexandre Medeiros às 12:16 pm
18 de novembro de 2016

Se a praça tem dono, o dono é o povo

A praça é, em sua essência, um espaço de convivência. E poucas praças no Rio de Janeiro expressam tão bem esse espírito como a Praça São Salvador, em Laranjeiras, sobretudo aos domingos de manhã, quando se torna palco de uma roda de choro que está prestes a completar dez anos. Foi ali, num coreto abandonado até então, que músicos capitaneados pela flautista Ana Caetano começaram a se reunir em 2007 para ensaiar. Nota a nota, a turma foi encantando uma legião de amantes da boa música e da convivência respeitosa. Jacob do Bandolim, liberdade, quermesse, amizade, Pixinguinha, Botafogo, Vasco, Fluminense e Flamengo, esquerda e direita, democracia, tudo cabe na praça se vier em paz. São domingos de enlevar a alma.

Não diria que sou suspeito para falar bem da roda. Sou culpado mesmo. Adoro choro, tenho um primo e alguns amigos que tocam sob a batuta da Ana, sou freguês da barraca do Luizinho e do barzinho da Marlene, acho um momento épico carioca o bater de pratos que encerra o hino Santa Morena. Foi na roda de choro da Praça São Salvador, no Dia das Mães de 2014, que ouvi a mais bela interpretação do Carinhoso – me desculpe, Cauby –, com um coro de dezenas de vozes em dissonante harmonia. E usei este mesmo espaço de Cenas Cariocas para contar como foi na crônica A Felicidade cabe em uma praça.

Ana e sua turma não ganham nada com o show. Tocam por prazer, de graça, com alegria e camaradagem. Nem chapéu para o troco da cerveja eu vejo passar. Só um livro levado como relíquia por um dos fãs da roda, que eu já devo ter assinado mais de dez vezes. Do sucesso da roda se revitalizou a praça, o coreto ficou até ajeitado, veio a feira de artesanato na esteira. Conheci uma penca de artesãos de mão cheia por ali. Fora os chefs de primeira linha, como o Pedro Motta. A gente pode ouvir um choro do Jacob e comer um prato de arroz de pato. Quer mais o quê?

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Ocorre que, de uns tempos para cá, essa harmonia anda ameaçada. Rolaram até propostas de cercar a praça e transferir a roda de choro para o Aterro do Flamengo. Nada disso vingou, por enquanto. Mas, em meados de abril, indignada com as propostas, a Ana postou um comentário em tom de desabafo na página do Arruma o Coreto – este o nome da roda – no Facebook. Um senhor que se diz “organizador” da feira de artesanato se sentiu ofendido pela postagem e está processando criminalmente a flautista, pedindo indenização.

Não conheço o xerife, nem faço questão de conhecer, mas não me parece razoável que um espaço público possa ser delegado a um ente privado, que negocia os espaços dos expositores e “vende” segurança – essa uma prerrogativa, até provem em contrário, da PM e da Guarda Municipal. Mostra, por outro lado, uma ausência do poder público municipal.

Ninguém quer briga na praça. A roda, os artesãos, os frequentadores merecem ter seu domingo sagrado em paz.

Postado por Alexandre Medeiros às 7:42 pm
16 de agosto de 2016

Olimpíadas, frango com quiabo e food truck

Como diz meu amigo Celso de Castro Barbosa, de tédio é que eu não morro. Ainda mais vivendo no Rio de Janeiro, cidade que me surpreende a cada esquina. Na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos, andei ali pela Avenida Marechal Floriano, que já foi Rua Larga, e que parecia a Atlântica tal a quantidade de gringos por quarteirão. A memória foi lá no século passado e buscou a cena do moleque de 18 anos, no final dos anos 1970, entrando na Impecável Maré Mansa para comprar seu primeiro terno para trabalhar, em prestações a perder de vista. Se ainda sobrevivessem as pensões nos sobrados onde tantas vezes pendurei o paletó cinza no gancho para encarar o arroz e feijão, juro que almoçaria numa delas.

Mas os restaurantes a quilo engoliram as pensões, onde as panelas ficavam no centro das mesas imensas. Não há de ser nada, o Centro ainda resiste. Embiquei na Rua da Conceição e cheguei ao Botequim do Joia, que já foi Café e Bar Rio Paiva, fundado em 1909, com seu pé direito alto, seu cardápio em quadro de giz, suas paredes cobertas com homenagens ao glorioso Botafogo de Futebol e Regatas e a deusas seminuas dignas de oficina mecânica, e o tempero caseiro de Dona Alaíde. Fica na esquina com a Rua Júlia Lopes de Almeida, que já foi Travessa Oliveira, tão pequena na extensão quanto gigante na homenagem a uma jornalista e escritora pioneira na defesa do feminismo. O frango com quiabo veio na medida certa para saciar a fome e enlevar a alma. Uma pessoa que cozinha como Dona Alaíde que Deus guarde e conserve.

Fogão

Joia A

 

Dois dias depois, andei ali pela Praça 15. E confesso que fiquei mais boquiaberto que turista japonês com a beleza do Boulevard Olímpico. Entre as praças 15 e Mauá, o contraste entre as antigas construções e os prédios modernosos como o RB 1 e a Bolsa do Rio produz um efeito de encantamento. Impressiona ver a Candelária soberba de frente para o mar, sem que a gente precise pedir licença a um viaduto para fazer o sinal da cruz. Foi ali na Praça Pio X, a Candelária por testemunha, que gastei meu terno cinza da Impecável debaixo de sol e chuva, nas agruras do cartão de ponto e da máquina de calcular de manivela, aprendendo a jogar no bicho, milhar cercada pelos dez e duque de dezena combinado, e a comer de pé em quinze minutos no balcão, prato feito e dinheiro contado. A vida dá voltas e estaciona onde pousa o coração.

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Bem ali debaixo da torre da Candelária está a Pira Olímpica e seu fogo que não se apaga. É como se esse pedaço do Rio tivesse reaparecido depois de escavações arqueológicas como as que garimpam a memória reavivada por tantas evocações. Se o Chafariz de Valentim agora reina na revigorada Praça 15, ele que tantas décadas padeceu como abrigo de mendigos e mostruário de insensatez histórica, o que dizer do Tribunal Marítimo, com sua simplicidade de beira-mar? Logo a seguir o povo passa diante do Distrito Naval, onde os marinheiros de plantão ainda se desacostumam com a passagem de tanta gente pelos decks de madeira, como se fossem a qualquer instante levar bronca do oficial-de-dia.

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E a gente passeia pelo passado e pelo presente. Logo adiante da entrada exclusiva dos almirantes está um caminhãozinho que parece saído de cinema, com balcão de vaso de flor e tabuleta de cardápio com hambúrgueres e cervejas artesanais.  A gente aprende a chamar de food truck, mas é tipo a barraca do angu do Gomes que tantas vezes me salvou nas madrugadas sombrias da Praça 15, a barca da Cantareira despejando de volta no cais o moleque universitário de terno cinza na hora-extra da vida. E aí vem aquele sanduíche de carne de costela com molho de cerveja preta, e aquela gelada de trigo de fazer você sentar e ver a vida passar diante dos seus olhos, em várias línguas, molejos e alquimias. E onde senão nesse Rio de Janeiro reconciliado com sua história de maresias, brisas e pedras com limo? Onde mais?

A caminhada termina – termina? – no Morro da Conceição. Por trás do esqueleto abandonado do prédio d’A Noite, outra escaramuça que o tempo há de regenerar, as ladeiras de sonho parecem dar no céu. E dão mesmo, naquela imensidão de azul de inverno carioca, de bermuda e camiseta. Pena que é sábado e o Botequim do Joia está fechado. Se estivesse aberto, era até covardia um dia assim.

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Postado por Alexandre Medeiros às 10:51 am
23 de maio de 2016

Ai de nós, Copacabana

Princesinha do Mar, não sei se é chegada a véspera de teu dia, como escreveu o mestre Rubem Braga, de quem doravante roubarei palavras sábias sobre ti. Mas sei que esse fim de tarde no Posto Seis, o vento cobrindo as pedras das ruas com folhas amareladas de outono, parece um sintoma do apocalipse que está por vir. Se o mar virá tomar tudo de volta, como seria muito justo, tampouco sei, mas enquanto não vêm os meros que se entocarão em tuas galerias, e nem chega a chuva que se anuncia, vou descansar os cotovelos cansados no balcão engordurado de caldo de mocotó da Sorveteria Solar. Como tuas aparências enganam a Humanidade há décadas e décadas, e antes que me perguntem ou pensem mal de mim, convém avisar que é mais fácil achar um padre confessando os seus pecados na Galeria Alaska do que um mísero sorvete na Sorveteria Solar.

O bom paraibano Geraldo, com sua voz de tenor, vem abrir a cerveja e oferecer ao freguês que não via há mais de ano o jornal O Dia com suas páginas desfraldadas por tantas mãos desde o primeiro café da manhã. Leitor fiel do brioso matutino, Geraldo ajeita o jornal como se esse gesto educado pudesse acrescentar ainda mais elegância àquela que ele trouxe na bagagem quando resolveu deixar a seca para trás e tentar a vida no Rio de Janeiro, para mais de légua no tempo que se passou. “Tem chovido lá na terrinha, Geraldo? ”, pergunto, com medo da resposta. Mas ele desanuvia a tarde com uma de suas tiradas de malandro: “Mais que aqui”.

Geraldo, o jornal e o balcão.

Geraldo, o jornal e o balcão.

 

Ai de nós, Copacabana. Quem dera o alívio da água que se prenuncia e desaba sobre Pombal, no sertão da Paraíba, onde o Geraldo menino fez de poça um açude, redimisse por aqui as angústias que desabam sobre nós. Não sei se muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares, mas sei que no boteco do Geraldo e do Baixinho, ele que diz que mora em Japeri quando está na hora de fechar, mas que vive mesmo é logo aqui na subida do Pavão-Pavãozinho, o conhaque sempre foi honesto o suficiente. E nem ele estancaria a saudade ao se saber que cerrou as portas a Figueiredo Camisaria e Alfaiataria.

A casa tradicional ficava aqui ao lado da Sorveteria Solar, na mesma galeria da Rua Francisco Sá, entre a Raul Pompeia e a Nossa Senhora, e foi-se embora depois que o Carlinhos, filho do famoso Figueiredo, bateu as botas e deixou a loja ao Deus-dará. Foi-se a camisa por encomenda, de tirar medida e escolher o pano, e também a escultura do Pequeno Jornaleiro que ornava a vitrine forrada de feltro, história e poeira. A camisaria fina virou uma pastelaria chinesa, por sinal da mesma dona daquela que funciona na esquina de Nossa Senhora com Sá Ferreira. Os chineses ainda hão de dominar o mundo, a começar por Copacabana.

Geraldo volta da cozinha com torresmos passados na hora, de cortesia. E vem com cheiro de gordura passada a má notícia. “Tivemos três desfalques no nosso time nesse breve tempo de sua ausência. Além do Carlinhos, foram embora o Jorge Tiroteio e o Gilberto marceneiro”. Gilberto era Botafogo como eu, feliz com suas conquistas parcas, mas épicas, e passou mal do coração fazendo um serviço ali na esquina, nem chegou a ser socorrido. Deus o tenha.

O Jorge foi internado também dos males da morada das paixões. Saiu, voltou, tombou, teve a família ao seu redor na derradeira despedida. A Sorveteria Solar ficou triste sem o gesto de pistola que ele fazia com o indicador da mão direita em riste a fuzilar algo que lhe desagradasse. Cabra bom de Orobó, no sertão de Pernambuco, nunca mais ele pisou no Riacho da Inveja de sua terra natal desde que veio para o Rio. O parceiro Geraldo acusou o golpe, e emudeceu quando viu minha reação, repetindo o gesto da pistola com a mão. Jorge nem tinha coragem de matar mosca, com sua voz enrolada de contar histórias sem início, meio e fim, e aquela doçura emboçada em doses de cachaça e copos de cerveja morna e sem colarinho. O gesto caricato virou marca de quem se foi sem ter merecido. A gente fuzilou um vazio naquela tarde imensa.

Ai de nós, Copacabana. Não se vê mais por aqui o Pedro Melo, de espírito tão dócil quanto irascível, a depender da quantidade ingerida de batidas de maracujá. O perfume da fruta já se confundia com ele. Pegou pneumonia, passou a não dizer coisa com coisa, a não reconhecer seus pares de balcão, e a família o levou para um exílio em Juiz de Fora, nas Minas Gerais. Ficamos sem suas observações ora pertinentes, ora inoportunas, mas sempre defendidas como um grito às margens do Ipiranga. Ele tinha uma pinta de imperador, ninguém há de negar.

Assim como o bom Pedro Melo, foi-se também a Kriskon, loja de discos na Rainha Elizabeth da Bélgica, que muitos pensam erroneamente ser a do Palácio de Buckingham. O velho Raimundo Nonato, com sua cara de árabe e sua paciência chinesa, não resistiu às crises em sequência. Conhecia bem o repertório de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Aracy de Almeida, coisa que por aqui só mesmo o Geraldo rivaliza em arcabouço. Nonato chegou a ter seis funcionários, mas ultimamente atendia sozinho aos fregueses esporádicos em busca de raridades em vinil ou em CD. E nem a cem metros dali fechou também o Bar e Lanchonete Silva Cruz, onde Mário Lago tomava café em xícara escaldada. Tinha até foto dele na parede. É muita coisa indo embora em pouco mais de um ano. Fechou até a Le Boy, pioneira da noite gay carioca. Dizem no Posto Seis que vai virar uma igreja evangélica. Ao que o Geraldo, com sua sabedoria ímpar, profetiza: “Esse negócio de igreja é o ramo que mais prospera nesses nossos tempos”.

Ai de nós, Copacabana. Na Alaska já há mais pastores que os restos de pipas voadas nas amendoeiras do Aterro, de Maria da Graça ou da Ilha do Governador, o que nos leva a crer que a profecia do Geraldo tem base na realidade. E a gente vendo essa inversão insana de valores até suplica, Copacabana: pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas. E canta a tua última canção pecaminosa que eu te acompanho, eu canto junto a plenos pulmões, que assim eu te reconheço e fico mais confortado. Melhor do que viver nessa estranheza de saudades e incompreensões. Prefiro os rebanhos aos pastores.

Ai de nós, Copacabana. Que a tua fama de promíscua perde fácil para as falcatruas de Brasília. Que chega a ser imerecido o juízo de valor que fazem às tuas meretrizes, que ganham ares de moças pudicas e trabalhadoras diante de nossos políticos investigados. A praga do cronista é um sonho meu recorrente. Há, sim, de chegar o dia em que o mar tomará tudo de volta. E se foste iníqua perante o oceano, Copacabana, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas, também a multidão um dia reavirá um amanhecer depois dessa noite feroz.

Ai de nós, Copacabana. Por que de ti, por mais duro que seja dizer, já não cabe pena, nem rancor. Como disse o poeta, em verdade é tarde para a prece. E vem chuva por aí.

Postado por Alexandre Medeiros às 10:21 pm
22 de março de 2016

Pra não dizer que não falei de flores no meio dessa crise

Não tenho quase nada em comum com o prefeito Eduardo Paes, muito antes pelo contrário. Afora o fato de sermos ambos cariocas e portelenses, meus gostos, ideias e convicções passam longe do alcaide, e vice-versa. Não tenho nada contra Maricá, por exemplo, nem contra Araruama ou Saquarema. São cidades simpáticas e acolhedoras. Vai ver tenho alma de pobre, que nem o Paes falou do Lula, porque passei boas férias com meus pais em Itacuruçá e em Iguaba Grande, e gostei muito. E nem pedalinho tinha. Em Itacuruçá, a onda naquela época era colocar as crianças para andar de burrico. Tenho até foto em cima de um burro triste, eu soberbo como se fora John Wayne galopando um corcel apache naqueles filmes do John Ford.

Também acampei muito em Conceição do Jacareí, que, assim como Itacuruçá, é distrito de Mangaratiba, naquela sucessão de refúgios ao longo da Rodovia Rio-Santos onde milhares de pessoas com alma de pobre gastam sua felicidade a preços mais em conta do que na vizinha de alma rica Angra dos Reis. Se o prefeito não tem todo esse apreço por Maricá, imagino em que patente deva estar Mangaratiba em sua hierarquia de preconceitos.

Não obstante minhas boas lembranças e minha alma de pobre, esta não é uma crônica de desagravo às cidades desancadas pelo Eduardo Paes, embora elas tenham toda a minha solidariedade. Tampouco é um arrazoado sobre as diferenças filosóficas, políticas e existenciais que me separam do prefeito – gosto mais da Tijuca que da Barra, e não defendo homem que bate em mulher, entre outros exemplos. Não, não é isso.

Imagine só, nesse grave momento da vida nacional, em que a crise econômica e política nos deixa com alma de hooligans prontos a encaçapar o primeiro que ousar divergir de nós, em que bloqueamos amigos no Facebook quando somos chamados de corruptos, ou de golpistas, ou ambos, não necessariamente nesta ordem, eu venho aqui para falar bem, elogiar, enaltecer uma obra do Eduardo Paes: a nova Praça Mauá.

Domingo na praça

Domingo na praça

Ou seja, nesses tempos de intolerância, esta é uma crônica repleta de altruísmo.

Vá lá num domingo qualquer, de preferência num domingo de outono, que é a estação em que o Rio mais resplandece, e veja como sua alma pode sair mais leve no meio desse vendaval. A praça imensa se abre para o mar, corre a brisa que vem da Baía de Guanabara. Famílias passeiam por ali, as crianças correm soltas. Domingo passado havia lá uma feira, a Carioquíssima, com gastronomia de qualidade, cervejas artesanais, artistas mostrando suas artes, boa música. No Museu de Arte do Rio vale muito a pena ver a exposição do Rio dos anos 1700 – e lembrar que, de tantos desmontes passados, chegamos aos desmontes do presente. O que se vê hoje na Praça Mauá é reconstrução, é um reencontro do carioca com parte do seu passado, com as ladeiras do Morro da Conceição a nos emoldurar.

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Até os trilhos estão de volta à Avenida Rio Branco. Não os do bonde de outrora, mas os do VLT. Passei por lá há alguns meses, quando tudo parecia uma escavação para mais uma estação do metrô, e domingo agora constatei que os trilhos já estão fincados, que as obras avançam. Não é possível que depois de caminhar pela praça, dar uma esticada na Ladeira do João Homem, e tomar uma cerveja no Bar Imaculada, você ainda tenha estado de espírito para praguejar contra o homem. Faço votos para que o esqueleto do prédio de A Noite um dia ressurja das cinzas e seja mais um ícone da nova – e boa e velha – Praça Mauá. De velhos e novos marinheiros.

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Postado por Alexandre Medeiros às 3:38 pm
4 de fevereiro de 2016

No meio do caminho tinha um chapéu Panamá

Como escreveu o poeta de Itabira, nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Sei que andam “esquecendo” livros em praças, aviões, bancos de trem e metrô, movimento propagado pelas redes sociais. Gesto, aliás, salutar, para que os livros lidos troquem de mãos e encantem outras mentes. Mas o que dizer de um chapéu Panamá novinho em folha esquecido no banco do jardim, e no período de Carnaval? Pois o fato deu-se comigo há alguns dias.

Voltava do almoço, com aquela pressa insensata de chegar ao serviço, e ele estava lá, sozinho no banco, a me encarar. Olhei para um lado, para o outro, nada. Diminuí o passo, me afastei, passei pelo banco devagar, fiz que ia e voltei, que nem atacante a driblar o zagueiro. Sentei ao lado dele, como quem fosse puxar conversa, achando que o dono, lógico, ia aparecer em instantes. Com esse sol de rachar na cabeça, como é que alguém se esquece de um chapéu, e logo um Panamá, branquinho, novo em folha?

Sou cismado com essas dádivas fortuitas. Podia ser oferenda, simpatia, promessa, que eu tinha que me meter? A brisa quente de verão soprando mansa, aquela modorra de início de tarde. E o chapéu ali, balançando devagar.

A selfie do chapéu Panamá

A selfie do chapéu Panamá

Longos séculos se passaram, nesse tempo imensurável das agonias, e o chapéu passou a ser meu, à revelia. Um grupo cruzou a alameda e ficou me olhando, olha lá o malandro, de calça de tergal e tudo, com aquele chapéu de sambista, deve ser compositor, a camisa social azul, vai ver é da Portela. O boato foi se criando, na encruzilhada das horas. Eu já não sabia se deixava o Panamá ali, abandonado, ou se incorporava o personagem já então de fama alastrada no jardim – o de malandro tirando a sesta do almoço, rumo a uma roda de samba, Madureira, Oswaldo Cruz, quem sabe o Estácio, metrô aqui pertinho.

Mas como eu mesmo atentara momentos antes, o chapéu já era meu, à revelia. Dúvidas não mais cabiam. Tivesse antes outro dono o Panamá, que merecimento o sujeito teria se o deixara ali, largado à própria sorte? Se fosse promessa ou simpatia, já teria cumprido seu destino. Se fosse oferenda, devia ser para o Zé Pelintra, e o mandingueiro é do riscado, ia aprovar o Panamá no figurino de um amante do samba, da Lapa, do Rio de Janeiro. E onde mais nesse mundo de Deus alguém dá de cara com um chapéu Panamá assim, na Casa de Momo e às vésperas da festa pagã?

É com esse que eu vou. Bom Carnaval!

Postado por Alexandre Medeiros às 4:56 pm
30 de dezembro de 2015

Que sejamos generosos como o Seu Ferreira

Sou adepto das coisas simples, da alegria que brota da batalha cotidiana. Neste ano que se encerra sob vaias e pragas por ter sido, para muitos, abjeto e renegado, daqueles que se faz questão de esquecer, chego ao limiar de 2016 com boas lembranças e uma boa dose de esperança, que sem isso não vivo. E com a convicção de que essa alegria que construímos no dia a dia, como diria Oswald de Andrade, é a prova dos nove.

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Em 2015 consegui bater perna no Cadeg, suar bicas nas estreitezas da Saara, ir ao Bip Bip ouvir bons sambas e papear com Alfredinho. Dei-me ao luxo de comprar uma vitrolinha azul portátil, e com ela resgatar LPs guardados há tempos, tipo a trilha do espetáculo Rosa de Ouro, com Aracy Cortes e Clementina de Jesus. Vi o Fogão ser campeão, fiz trilha na Floresta da Tijuca, tomei banho na Cachoeira das Almas e andei de caiaque na Praia Vermelha. Teve piquenique no Aterro, comi baião de dois na Feira de São Cristóvão, e jiló frito em Oswaldo Cruz. Meu filho mais velho passou para a faculdade, minha filha mais velha fez 15 anos, todos estão com saúde, amém.

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Sob o prisma da simplicidade, 2015 não foi tão mal assim. Perdi amigos queridos, é verdade. Mas reencontrei outros, e me reaproximei de alguns de quem me afastara. Perdas e ganhos, assim é a vida. Por isso acho 2015 um ano como qualquer outro, com coisas a lamentar e a saudar. Experimente, por exemplo, dar uma olhada no álbum de fotos do seu celular, ou encostar-se ao balcão do seu boteco preferido e lembrar com algum amigo de fé o que se passou neste ano que se despede. Vai achar coisa boa.

Tenho uma tendência a valorizar as boas lembranças. Não que as más sejam apagadas. Mas essa tática de levar a vida deixa meu coração mais leve, sem mágoas a acumular – como me ensinou Tia Eunice da Portela, Deus a tenha.

 

 

Guardo na memória uma cena que vivi no armazém do Seu Ferreira, ali pelos meus sete ou oito anos. O balcão onde o gato dormia era mais alto do que eu, e tinha de levantar a cabeça para admirar o baleiro imenso, com olhos ávidos. Entre engradados de madeira, cascos de cerveja, sacos de batata e de cebola, o baleiro girava que nem carrossel de parque de diversões. Sempre que podia, meu pai comprava uma bala. Mas nem sempre o dinheiro dava. E foi numa dessas vezes da penúria que Seu Ferreira, com aquela camiseta regata branca e seus tamancos de madeira, enxotou o gato, me colocou sentado no balcão, rodou o baleiro e deixou que eu escolhesse a bala Juquinha, abrindo aquela tampa de metal.

Saí dali flanando nas nuvens da Rua do Russel, na divisa de Glória com Flamengo. O gesto simples e generoso de Seu Ferreira inundou a Baía de Guanabara, o Rio inteiro, e não saiu mais da minha vida. Aquela alegria com sabor de bala Juquinha carrega com ela a generosidade, a camaradagem, a leveza d’alma. Desejo essa alegria a todos nós em 2016.

Postado por Alexandre Medeiros às 2:10 pm
24 de dezembro de 2015

Com ou sem crise, a simplicidade é o princípio do Natal

Este ano não teve festa de Natal lá na firma. Com a crise, não pegava bem gastar dinheiro com festa. Descobri com alguns amigos que várias empresas suspenderam as tradicionais festas de fim de ano, aquelas em que sempre algum colega paga mico, canta a mulher do chefe, cai bêbado no salão ou deixa o presente de amigo oculto com o garçom. Economizamos dinheiro, risadas e gozações com a crise. Mas ele nos deu um conselho de presente: é sempre bom lembrar que Natal não rima com ostentação, mas com simplicidade.

Certa vez, ao ser perguntado sobre opções de presente nessas famigeradas listas de amigo oculto, declinei com elegância. Sempre odiei essas listas. Além de cercearem a liberdade de escolha de quem vai dar o presente, elas tornam previsível o que, em essência, tem de ser surpresa. Ou seja, não prestam para nada.

Aqui em casa, há alguns anos, instado por meus filhos a apontar indícios mínimos de mimos de Natal, preparei uma lista. Como se trata de uma lista, digamos, permanente, ela atravessa períodos de bonança (raros), nos quais não me incomodaria em passar uma semana na Toscana, e de crise (fartos). Reproduzo-a aqui, a título de contribuição, e talvez ela reforce a ideia central deste e de todos os natais: a felicidade está nas coisas mais simples. Feliz Natal!

A lista:

  • Qualquer coisa que tenha a ver com o glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, de um chaveiro ou uma caneca a uma camisa oficial;
  • Um botão de jogar, de preferência os antigos de madrepérola, galalite, vidrilha de relógio ou casca de coco;
  • Lenços brancos;
  • Uma bermuda com bolsos do lado;
  • Um CD de samba, desde que seja de samba de raiz, algo como Candeia, Monarco ou Luiz Carlos da Vila;
  • Um fusca 1972, em bom estado;
  • Uma semana na Toscana com todas as despesas pagas;
  • Duas semanas em São Miguel dos Milagres (AL), idem;
  • Três semanas num chalé na Serra da Mantiqueira, idem;
  • Um tamborim, um atabaque ou um pandeiro;
  • Um chapéu panamá;
  • Um bom livro;
  • Fotos antigas do Rio de Janeiro;
  • Uma caixa de guardar coisas;
  • Uma frigideira grande;
  • Temperos do mundo inteiro, com predileção por pimentas;
  • Um barco a remo;
  • Uma foto de lambe-lambe;
  • Mudas de orquídeas;
  • Um bom vinho tinto;
  • Um tênis de corrida;
  • Um soldadinho de chumbo;
  • Uma cachaça mineira;
  • Enfeites de árvore de Natal, em especial os feitos a mão;
  • Um santo de madeira do seu Dito Santeiro, de Nazareno (MG);
  • Um puro malte escocês;
  • Um cata-vento;
  • Bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha;
  • Brinquedos de madeira do Círio de Nazaré;
  • Uma camiseta bacana;
  • Fotos de família emolduradas onde eu apareça com cara bem engraçada ou bem feliz.
  • Um atlas;
  • Qualquer coisa dos meus filhos, um desenho, uma carta, um poema, um beijo (se eu pudesse escolher um só item dessa lista, seria esse).

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Postado por Alexandre Medeiros às 11:37 am
27 de novembro de 2015

Notícias de um mundo esquecido

Tem a tragédia de Mariana. Tem a lama da Lava Jato. E tem a seca no sertão. Aquele pedaço esquecido de mundo continua a sofrer calado com o flagelo recorrente dos açudes rachados, sem água para plantar, o gado definhando, as vidas indo embora. Estive lá há alguns anos com o fotógrafo e parceiro Severino Silva para registrar o drama dos sertanejos. A série de matérias “A seca tem rosto, nome e sobrenome”, publicada pelo jornal O Dia, retratava também a angústia dos nordestinos que migraram para o Rio de Janeiro e que ainda tinham parentes sofrendo lá no sertão.
Esta semana, as imagens fortes da seca nordestina voltaram a habitar meus pensamentos. Recebi um relato desalentador do padre Djacy Brasileiro, de Pedra Branca (PB), um incansável batalhador. O relato veio recheado de impressões de sertanejos colhidas pelo padre em suas andanças pelo semiárido. “O cenário é macabro, desolador. O querido torrão parece brasa. Tudo é sombrio, como se fosse um vale de lágrimas”, diz Djacy.

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Os relatos dos sertanejos ao padre de Pedra Branca dão a dimensão do flagelo “invisível” da seca. Longe dos holofotes da Lava Jato, e sem a repercussão da onda criminosa de lama em Mariana, o sofrimentos dos sertanejos, por eles mesmos:
“Sei não, estou com 84 anos, nunca vi coisa igual. Antigamente havia seca, mas como agora, nunca vi.”
“Como fazer a janta, se não tem um pingo d’água? Hoje a janta vai ser refrigerante com pão.”
“Quando falta água do carro-pipa, o jeito é a gente tomar água salobra. Depois que a gente bebe, a gente come rapadura para tirar o gosto do sal.”
“Meu gado está morrendo de fome. Não tenho dinheiro para comprar ração. Não sei o que faço. Tenho vontade de chorar quando vejo meu gado com fome e sede.”
“O leite acabou. O gado com fome e sede não dá leite. Acabou mesmo.”
“Na minha rua, algumas pessoas trocaram murros por conta de água. Cada um quer pegar sua água, só que não tem para todos, e aí começa a confusão. Menino chora, mulheres discutem e alguns homens vão logo para a tapa.”
“Onde eu moro, três horas da madrugada já tem fila grande de gente para pegar água. É um Deus-nos-acuda.”
“Quem pode comprar uma carroça d’água ainda vai, e quem não pode? Um carro-pipa particular mais de cem reais.”

Postado por Alexandre Medeiros às 5:18 pm