Arquivos do mês: agosto 2014

26 de agosto de 2014

Águas claras

Já tinham me dito, e eu custei a acreditar. Mas vi com meus próprios olhos, fotografei e agora posso contar: as águas da Baía de Guanabara, ali no trecho da Glória e do Flamengo, estão verdes e límpidas. Não quer dizer que estejam limpas, recomendáveis ao banho. Mas que estão convidativas, isso estão.

Final do Flamengo, foto Alexandre Medeiros

Final do Flamengo, foto Alexandre Medeiros

Lá se vão mais de 50 anos de praia aqui nas costas. Criado naquelas bandas, foi ali na Praia do Flamengo que aprendi a nadar, a pegar jacaré em ressacas memoráveis, a tomar caixote de ficar com areia no cabelo até o dia seguinte. Naqueles tempos, era impensável deixar de mergulhar por conta da coloração da água. Até porque a água era limpa mesmo. Dessas de caçar tatuí na beira-mar. E quem é do metiê sabe: tatuí só dá em praia limpa.

Final do Flamengo, foto Alexandre Medeiros

Final do Flamengo, foto Alexandre Medeiros

Ao contrário da Praia de Botafogo, a do Flamengo ainda deixa vislumbrar pedaços de mar aberto, lá onde a boca da Baía se abre generosa para os navegantes de fora. Para a turma do Exército que serviu no Forte Laje, o mar aberto estava a um mergulho. O Forte Laje é aquela baleia de pedra que se avista da Praia do Flamengo. Sua história eu conto outro dia, prometo.

A praianha da Glória e o final do Flamengo são os locais onde é mais visível a água límpida. O fato é comprovado ainda pelo relato dos pescadores e dos mergulhadores que arrancam mariscos das pedras. Quanto tempo vai durar a maré mansa, não se sabe. Mas é muito bom ver a praia onde aprendi a admirar as ondas em dias de Arpoador.

Postado por Alexandre Medeiros às 1:07 pm
21 de agosto de 2014

Pelos caminhos tortuosos e virtuosos do Saara

Já escrevi algumas vezes que sou um sujeito que se apraz com pequenas alegrias. Uma boa roda de samba, um jogo de botão, um pão feito em casa. Um beijo ou um sorriso dos filhos – se bem que essas nem poderiam ser chamadas de “pequenas” alegrias, tão grandiosas são em sua ternura. E no rol das pequenas alegrias, essas que alimentam nossa alma, estão as incursões ao Saara – no caso, concordando com o deserto, em homenagem aos comerciantes árabes tão presentes por lá – ou à Saara, se optarmos pelo rigor da sigla: Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega.

São incursões esporádicas. Na ponta do lápis, uma vez a cada dois meses, por aí. Um belo sábado a gente acorda e flerta com alguma necessidade de ocasião para justificar o programa. É aquele funil que falta na cozinha, uma saboneteira nova que cairia bem no banheiro, algumas camisetas coloridas para renovar o estoque, fantasias e adereços para o próximo Carnaval. São, em verdade, desculpas para mergulhar naquelas ruas estreitas do Centro e trazer de lá coisas até desnecessárias, mas que nos seduziram pelo olhar. Os pregoeiros, a rádio Saara nas caixas de som, as plaquetas de promoções, os balcões espalhados nas frentes das lojas. No fundo, o Saara é um oásis de sedução.

Foto Alexandre Medeiros

Foto Alexandre Medeiros

Sábado passado estive lá. A desculpa da vez: panos para fazer uma cortina nova para o quarto. O trajeto habitual de subir a Senhor dos Passos e descer pela Alfândega deu lugar a outro roteiro, subindo a Buenos Aires e entrando na Avenida Passos. Paramos na loja Franklin de tecidos e fomos atendidos pelo César, um vendedor à moda antiga, que brinca com as crianças enquanto corta dois metros e meio de tafetá azul, que minha cortina terá a cor da Portela querida. De quebra, César ainda deu dicas de bainha e ajudou a escolher dois cortes de pano para novas toalhas de mesa, coisa fina de ornar ceia de Natal, a R$ 8,90 o metro. A gente sai de um lugar desse flutuando.

Dois cadarços, duas esfihas e quatro camisetas coloridas depois, paramos na esquina de Senhor dos Passos com Regente Feijó, diante de uma intransponível bancada de elásticos de cabelo. Minhas filhas Helena e Cecília têm cabelos imensos, e se perderam naquele turbilhão de cores. Chamam o útil acessório de xuxinha, fru-fru e que tais. Seja qual for o nome, é uma festa para os olhos. Cada uma pegou dois. Mas a menina do balcão deu a dica: se levassem ao menos seis, o preço seria o de atacado, coisa de quarenta centavos a unidade. Fartaram-se e a conta saiu por R$ 4,80. Deu quase vergonha de estender a nota de R$ 5 para pagar aquela profusão de xuxinhas, mas era aquilo mesmo.

Foto Alexandre Medeiros

Foto Alexandre Medeiros

Parafraseando um samba clássico da minha Portela, se eu for falar de Saara, hoje eu não vou terminar. Então fico por aqui, na estação de metrô da Uruguaiana, voltando para casa feliz da vida com as crianças, sacolas e mais sacolas, o pão árabe quentinho suando no plástico. Voltarei por essas bandas outras vezes. Me aguardem.

Postado por Alexandre Medeiros às 5:36 pm
15 de agosto de 2014

Jardim renovado

Quintal da minha infância, o Aterro do Flamengo voltou a ser cenário dos meus dias há pouco mais de oito meses, quando me mudei de Copacabana para Laranjeiras. Desde então, em uma espécie de viagem sentimental, tenho revisitado recantos velhos conhecidos desse imenso parque carioca, e descoberto outros novos. Em longas caminhadas e breves corridas, desde as cercanias do Monumento dos Pracinhas e da Marina da Glória aos domínios da Pirâmide, já na “fronteira” com a Enseada de Botafogo, tenho constatado que os jardins de Burle Marx ainda exalam a exuberância de outros tempos, e se renovam em gratas surpresas.

Uma dessas surpresas passou diante dos meus olhos na manhã de domingo passado, Dia dos Pais. Antes do almoço em que os filhos me cobriram de carinho – um alimento da alma –, fui caminhar até a Glória. No gramado ao redor do pátio de aeromodelismo, sob as bênçãos do Redentor e de Nossa Senhora da Glória do Outeiro – que se unem no enquadramento do olhar bem ali –, um grupo de meninas aprendia os primeiros passos no skate. Uma aula ao ar livre.

Foto Alexandre Medeiros

Foto Alexandre Medeiros

Lembrei na hora dos meus tombos adolescentes na descida da pista do bondinho – sim, havia um bondinho, mas isso é história para outra postagem. Meu skate era de madeira, que mandei cortar em serraria, formato de prancha de surf, desenho de raio. As rodas eram de rolimã, e deixavam marcas no asfalto da pista. Descer a ladeira em direção ao MAM em cima do skate trazia uma sensação de liberdade indescritível, aquele vento batendo no rosto suado, a adrenalina a mil. Os joelhos e cotovelos ralados eram como cicatrizes de uma batalha vencida, tratadas com mertiolate (como ardia).

Os skates das meninas da aula ao ar livre são modernos, e elas usam equipamentos para proteger seus belos joelhos em caso de queda. Mas, com outras roupagens, a adrenalina é a mesma. E fiquei feliz em ver que o Aterro continua sendo palco de novas descobertas.

Recantos do Aterro

São tantos os lugares aprazíveis no Aterro que seria impensável reuni-los numa só postagem. Como será um tema recorrente no blog, o Aterro merece uma seção fixa em que seus recantos sejam destacados. O recanto de estreia pode ser chamado de “jardim das esculturas da natureza”, que fica logo depois do tanque desativado de modelismo naval, numa curva da pista, na altura da Praça do Russel. As árvores contorcidas produzem efeitos visuais belíssimos, dependendo da luz do sol que incide sobre o jardim. Fiquei sabendo ao ler um texto recentemente que a espécie é chamada vulgarmente de Jurema, Tataré ou Jacaré, tem nome científico de Chloroleucon tortum e era uma das preferidas de Burle Marx.

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

 

Se você tem sugestões de recantos do Aterro, pode mandar sua contribuição ao blog.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 4:58 pm