Arquivos do mês: setembro 2014

29 de setembro de 2014

Cosme e Damião

Correr atrás dos sacos de doces no Dia de Cosme e Damião era um dos esportes favoritos da
minha infância. Não satisfeito em fazer a coleta no prédio onde eu morava – eram dois
blocos, com 13 andares cada, 12 apartamentos por andar -, ainda percorria com a galera as
vilas do Catete, onde a distribuição de doces era farta. Como tinha devotos a dupla de
gêmeos médicos! A gente agradecia tanta promessa em forma de pé de moleque, pirulito, balas
Juquinha, passoquinha. Não era raro voltar carregado de devoção para casa, deixar a remessa,
e voltar à rua para ajudar os devotos a agradecer aos santos. E de novo, e de novo. Amém.

O que eu não gostava mesmo era de maria-mole. Depois da gincana nas ruas, na hora de fazer o
troca-troca dos doces com os amigos, a intenção primeira era dar a maria-mole e pegar um pé
de moleque ou, supra-sumo, aquele doce de abóbora em forma de coração. Mas aí já era querer
demais, e acabava me contentando até com cocô de rato nas trocas. Tinha vez que eu aceitava
trocar por aqueles pedaços de bolo que alguns devotos insistiam em incluir no saco, desde
que ele não estivesse muito despedaçado. Mas maria-mole, não.

Bom, ao menos no Catete e arredores, foi-se o tempo de algazarra nas ruas no Dia de Cosme e
Damião. Não cruzei nas ruas com aquele bando de crianças em busca dos sacos de doces. Espero que no subúrbio ainda tenham mantido a tradição. Para não dizer que não vi um saco de doces, fotografei os únicos que passaram diante de meus olhos, no alto da Rua Cardoso Júnior, em Laranjeiras, na festa de aniversário de um amigo, o Janjão. Lá no Cardosão, onde o Rio se
parece um pouco com cidade do interior, Cosme e Damião ainda resistem. Fiquei tão aliviado
que até pensei em encarar uma maria-mole.

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 5:50 pm
23 de setembro de 2014

Reflexões sobre o levante da Guarda

O jornal O DIA publica hoje em sua edição impressa uma ampla matéria sobre a assembleia que a Guarda Municipal faz hoje à noite para discutir formas de pressionar a Prefeitura do Rio a autorizar os agentes a portar armas de fogo. A matéria também coloca em discussão os efeitos que essa permissão poderia causar ao dia a dia da população. E cita um relato que fiz aqui neste blog sobre um conflito entre guardas municipais e camelôs em plena Saara, num sábado de manhã, quando a região fica apinhada de gente. Na crônica, onde sou testemunha ocular, questiono o que poderia ter acontecido ali se um guarda portasse uma arma de fogo e a utilizasse no meio daquela multidão. Poderia, de fato, ter ocorrido uma tragédia.

Na sexta passada, dia 19, em novo conflito entre guardas municipais e camelôs, um dos agentes sacou seu revólver e atirou contra um ambulante, em plena Rua Uruguaiana, por volta de 17h, quando milhares de trabalhadores saindo do trabalho circulam por ali. A polícia deve estar investigando se o agente tinha ou não posse de arma, se poderia estar usando o revólver em serviço, já que é proibido por sua corporação de portar armas de fogo, e os motivos que o levaram a atirar no meio da galera. Os dois casos podem render boas discussões sobre se a Guarda Municipal deve ou não portar armas de fogo, se os agentes estão ou não preparados para isso. Eu, particularmente, acho que não. Mas essa, no meu entender, não é a principal questão.

O que os dois conflitos evidenciam é a brutal falta de planejamento da GM para reprimir os camelôs. Vejam bem. No primeiro conflito, os agentes agiram por volta de 11h da manhã de um sábado. No segundo, por volta de 17h de uma sexta-feira. Não é concebível que um comando mande reprimir camelôs, que frequentemente reagem à abordagem, quando as ruas estão cheias de crianças, velhos, alunos, trabalhadores. Não se poderia escolher horários menos adequados para entrar em conflito nas ruas. Por que não fazem esse tipo de operação antes das seis da manhã, quando as lojas estão fechadas, as pessoas ainda não estão em peso nas ruas e os camelôs ainda estão montando suas bancas? Porque não retirar os ambulantes das ruas antes que eles se instalem, se organizem, se agrupem? Por que colocar em risco as pessoas com as ruas cheias e as lojas abertas?

Fico imaginando se o dono da pastelaria chinesa fechasse as portas por medo do conflito naquele sábado na Saara. Seria um atitude perfeitamente plausível diante do confronto. Onde iriam se refugiar as pessoas? Iriam ficar no meio da linha de fogo? E se os agentes já pudessem portar armas e atirar? Se já o fazem hoje, quando não têm autorização para isso, o que poderiam fazer com o revólver no coldre e o salvo-conduto?

Ou a Guarda Municipal muda a postura e passa a agir com mais inteligência ou, ao invés de angariar a simpatia da população, como conseguiu até agora, só terá o medo e a desconfiança como cartão de visita.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 2:33 pm
16 de setembro de 2014

Uma aventura no meio do corre-corre

Outro dia escrevi aqui que ir à Saara é um dos meus programas favoritos. Na toada de que sempre precisamos comprar alguma coisa muito importante, vamos nos esgueirando por aquelas ruas estreitas até que o barulho das portas das lojas se fechando nos avise que é chegada a hora de partir. Fui lá sábado agora, com meus dois filhos mais novos e a incansável dona Jane, munida de seu carrinho de feira azul onde cabe o mundo inteiro. Cecília, que tinha Olimpíadas no colégio, voltou mais cedo com dona Jane, e eu fiquei por lá com o Francisco. E com o carrinho de feira azul.

Tudo transcorria na mais perfeita tradução da desordem habitual, inclusive com um início de corre-corre nas cercanias do metrô da Uruguaiana, com a chegada do rapa. Eu e Francisco tínhamos andado a Senhor dos Passos inteira e já enchido o carrinho com copos, talheres, um arco e flecha de plástico, um funil, uma peneira, um carregador de celular made in China e um saco de pão árabe (tudo isso, como se vê, muito importante). Na virada da Praça da República com a Rua da Alfândega, como diria Machado de Assis, deu-se o fato. Uma equipe da Guarda Municipal avançou sobre os camelôs de plantão. Outro corre-corre.

Só que o conflito parecia escapar ao controle dos dois lados. O povo, eu e Francisco inclusive, se aglomerou na pastelaria chinesa em frente ao muro da Igreja de São Jorge. Todo mundo ali espremido, aquele cheiro do óleo dos pastéis no ar. A entrada lateral da Biblioteca Parque também estava apinhada de reféns, acuados pela briga. Os camelôs encaravam os guardas com pedaços de pau, tirados das bancas em que vendem de tudo um pouco, a rua virou ringue. Num átimo, imaginei a Guarda Municipal voltando a atacar com bombas de gás ou de efeito moral, spray de pimenta e que tais. Ficar ali, encurralado, era uma temeridade.

Num refugo de lado a lado, tipo aquele clarão que se abre em briga de arquibancada, segurei o Francisco em uma mão, o carrinho de feira na outra e disparei pela Alfândega. Sem olhar para trás, driblando corpos que também corriam em desespero, só paramos na esquina com Regente Feijó, a dois quarteirões dali, quando o som da briga ficara lá atrás, e o movimento da rua pareceu voltar a ser o de sempre. Francisco, que ficara mudo naqueles minutos que lhe soaram como a eternidade, só então deu seu parecer: “Foi uma aventura terrível. Mas até que você correu bem”.

Fico imaginando se a Guarda Municipal fosse autorizada a andar com armas de fogo, como parte dos seus integrantes almeja. Ou se os agentes usassem gás lacrimogênio no meio daquela multidão. Não sei o que teria acontecido nesse sábado em que a Saara estava lotada de gente simples, que se apraz com bugigangas à toa. Se os guardas querem tirar os camelôs das ruas, que acordem cedo, como os camelôs, e nem deixem que montem as barracas. Iam evitar confusão, correria, pancadaria generalizada como a de sábado. Fazer investidas ao meio-dia, às dez ou onze da manhã, no meio do povo, é de uma irresponsabilidade criminosa. Mostra despreparo de quem deveria estar nas ruas para zelar pelos outros.

Mas não é por causa disso que vou deixar de ir à Saara. Sempre tem algo importante que precisamos comprar.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 3:51 pm
11 de setembro de 2014

Ecos do Aterro e uma ideia

Na postagem de estreia aqui do blog, falei da felicidade em ter reencontrado o Aterro do Flamengo de minha infância, com novas e gratas surpresas. Alguns leitores comentaram a crônica, alguns relembrando passagens de sua vida no parque, outros ressaltando que, apesar da beleza, o lugar carece de mais segurança. E carece mesmo, mas isso é tema para outra crônica. Um dos comentários, contudo, merece ser propagado. Na verdade, é uma proposta para que o Aterro se transforme em uma espécie de Jardim Botânico Tropical, um lugar de referência mundial em paisagismo. A proposta é do jornalista Rogério Marques. E em tempos em que a própria Prefeitura do Rio abre espaço para que a população faça uma grande DR, com seu site Ágora Rio, a proposta do Rogério é uma ideia super bem-vinda e que merece ser levada em consideração.

Fora a vista do Pão de Açúcar... Fotos: Alexandre Medeiros

Fora a vista do Pão de Açúcar… Fotos: Alexandre Medeiros

O projeto foi apresentado há 11 anos à Secretaria de Turismo do Rio, e o Rogério, que sempre nos brinda com comentários aqui no blog, tem a versão completa. Mas, em linhas gerais, a proposta parte de uma constatação básica: a de que o parque ostenta não só um soberbo projeto paisagístico, de Burle Marx, mas também atrações como a Marina da Glória e o Museu de Arte Moderna, tudo isso no mesmo espaço. E propõe algumas ações para que os frequentadores possam aproveitar essa maravilha a céu aberto com segurança. Sim, a proposta é de 2003, e já alertava para a falta de segurança no local. Ou seja, não avançamos muito desde então…

Em relação à segurança, Rogério sugere a construção de cabines da PM em madeira, como bangalôs, acima do nível do solo, para que os policiais tenham uma visão estratégica do parque, do alto, com a ajuda de binóculos. A melhoria da iluminação noturna também é fundamental. Rogério lembra que as antigas torres de luz foram projetadas de forma a simular pequenos luares e tornar a noite no parque mais romântica. Mas reforça que é preciso aumentar os pontos de iluminação. E sugere a instalação de algumas câmeras de vigilância.

Rogério lembra ainda que Burle Marx levou para o parque espécies de plantas do mundo inteiro, como a palmeira do amor, do Sri Lanka (que só floresce uma vez na vida, quando está para morrer), a árvore do papel, da Austrália, e a palmeira do leque, das Ilhas Fiji. E propõe a instalação de um Núcleo Botânico no Aterro, de cultivo e reprodução das espécies ali existentes. Para que belezas de recantos como a do “corredor de árvores” (o nome é invenção minha) sejam eternizadas. O projeto também pede a volta do trenzinho que percorria o Aterro de ponta a ponta. E o blog diz amém.

Corredor de árvores

Corredor de árvores

Postado por Alexandre Medeiros às 6:28 pm
8 de setembro de 2014

Pelos desvãos da Rua do Lavradio

Não faz tanto tempo assim. Ainda era possível vislumbrar sem esforço a calçada por trás das barraquinhas. Em algumas lojas de móveis antigos, dessas de se já entrar espirrando com a poeira acumulada, não era raro encontrar peças bacanas, a preços módicos. A sala lá de casa é testemunha. Lá repousam uma cristaleira e um gaveteiro de madeira, com porta de correr, joias garimpadas na Rua do Lavradio. E a mesa de jantar, coisa de fazenda, mais as seis cadeiras, cada uma de um jeito, e ainda um paneleiro onde brilham duas bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha. Ou seja, pensando bem, se não fosse a Rua do Lavradio, a sala lá de casa era, basicamente, um sofá.

Nas feiras dos primeiros sábados de cada mês, as barraquinhas ocupam os dois lados da rua.
Algumas lojas de móveis antigos fecharam. Abriram outras, com móveis de design e preços na
estratosfera. Com o que paguei pela minha velha cristaleira hoje não se compra um abajour.
Mas vida que segue, como dizia o João Saldanha.

Feira da Lavradio, 6 de setembro de 2014. Fotos: Alexandre Medeiros

Feira da Lavradio, 6 de setembro de 2014. Fotos: Alexandre Medeiros

Agora há outras surpresas. Demos de cara, sábado agora, com uma bancada onde reluzia uma
coleção de pinguins de geladeira, alguns até de cachecol. Vai dizer que isso se acha em
qualquer esquina?

Lavradio, pinguins

Um pouco mais adiante, encontramos a barraca do Martin, que já foi tema de crônica em Cenas
Cariocas nos tempos da coluna em papel. O Martin é a prova viva de que existe
argentino simpático e gente boa. É um artista de circo de mão cheia, que fabrica seus
próprios aparelhos, que ele vende na banca da Lavradio e na pequena loja que montou na Rua
Carlos de Carvalho, no Centro. É uma viagem de alegria.

E por falar em artista, e por falar em alegria, olha só quem encontramos no meio das
barracas, expondo na Rua do Lavradio sua magia de estátua viva: o Saci-Pererê.

Lavradio, saci

No fim das andanças, a caldereta dos justos. E, como sempre acontece comigo, passou o
vendedor da Loteria Federal. Já ia preparando o bolso, que eles sempre têm uma milhar da
borboleta para oferecer, é batata. Só que não. Fiquei até infeliz um tantinho, mas aí o
sujeito mostrou os bilhetes. “Jacaré, doutor, com final 60″. Isso mesmo, a milhar inteira do
ano em que nasci, 1960. Tinha como não comprar? Corre amanhã.

Lavradio, federal

 

Postado por Alexandre Medeiros às 5:24 pm
2 de setembro de 2014

Cadeg, ou para não dizer que não falei de flores

Foi-se o Cadeg de meus tempos de pescoção no Jornal do Brasil. Depois de fechar as edições
de sábado e de domingo nas madrugadas de sexta-feira, os jornalistas cansados de guerra
tinham duas opções inexoráveis: o Lamas e o Cadeg. O querido Vieira, que já se aposentou, e
o Mello, que está lá até hoje, podem contar melhor do que eu histórias das madrugadas no
Lamas, aquele salão mais tomado por fumaça de cigarro do que uma redação. Mas isso é papo
para outras postagens. O tema aqui é o Cadeg, de onde saíamos com o dia amanhecendo, entre
caixotes de verduras, legumes e frutas, o cheiro das flores embalando o sono dos justos. Era
comida boa, farta e barata, dividida com os trabalhadores que iam tomando o Centro de
Abastecimento do Estado da Guanabara desde a virada da meia-noite, aquele entra-e-sai de
caminhões, vozerios e cansaços. Cenas que parecem retratos na cortiça da memória.

O Cadeg, que manteve a sigla mas agora se denomina Mercado Municipal do Rio de Janeiro,
ainda conserva o movimento nas madrugadas, mas ganhou uma faceta diurna das mais louváveis.
Apareça lá num sábado de manhã e deixe-se perder por entre as bancadas de bacalhau, azeite,
batatas, cogumelos e especiarias. Não esqueça de levar flores para colocar no vaso da sala.
E algumas mudas e sementes para começar a fazer aquela horta tantas vezes adiada.

Fartura de bacalhau. Fotos: Alexandre Medeiros

Fartura de bacalhau. Fotos: Alexandre Medeiros

O Cadeg foi parar em Benfica (Rua Capitão Félix, 110) porque o antigo mercado municipal da
Praça XV foi desalojado, entre outros motivos, para que se construísse o Elevado da
Perimetral, na segunda metade dos anos 1950. Ironia do destino, a Perimetral é hoje feita de
escombros. Do antigo mercado só resta um pedaço de uma das torres, onde resiste o
restaurante Albamar. Os comerciantes, portugueses em sua maioria, escolheram o terreno da
antiga fábrica de cigarros Veado para erguer o novo mercado, com recursos próprios. Em 1957,
o projeto do Cadeg estava pronto. E o novo mercado abriu as portas em 1962.

Foto: Site do Cadeg

Foto: Site do Cadeg

As distribuidoras de bebidas, com destaque para as de vinhos e espumantes, as casas de
bacalhau e de doces resgatam o toque lusitano dos primórdios. Mas há surpresas a cada
esquina (o mercado é dividido em ruas, que se percorrem a pé). Há lojas especializadas em
cervejas artesanais, por exemplo. Outras, em flores artificiais ou produtos da culinária
japonesa.

Hoje tem bacalhau. Fotos: Alexandre Medeiros

Hoje tem bacalhau. Fotos: Alexandre Medeiros

Uma grata surpresa é o Ateliê das Caixas, que transforma os caixotes de madeira usados no
mercado em móveis e peças de decoração. A matéria-prima fica do lado de fora, em imensas
pilhas, ao olhar do freguês.

Futuros móveis.

Futuros móveis.

A dica é: não tenha pressa. Passeie pelas ruas, confira algumas pechinchas (semana passada,
os morangos reluziam a preço de xepa de feira) e não deixe de almoçar por lá. Aquele
bacalhau cortado nas bancadas vai para a mesa em porções generosas. Galetos, espetos, o
arroz de pato ou de polvo, costelas e cordeiros na brasa, o contra-filé acebolado com
fritas. O mundaréu de gente indo e vindo, as sacolas cheias. Respire fundo depois do último
gole. E, agora sim, alimentado e feliz, vá para casa, tome coragem e comece a plantar salsa
e cebolinha.

O gato não tem pressa. Siga o exemplo.

O gato não tem pressa. Siga o exemplo.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 4:18 pm