Arquivos do mês: outubro 2014

28 de outubro de 2014

A Glória, ladeira abaixo, ladeira acima

Como se fora um tratado moral sobre os embates entre o apogeu e o declínio, o bairro da Glória desenha em suas ladeiras as linhas que unem o passado ao presente. Por trás de muros centenários, muitos untados com água benta, esse canto privilegiado da cidade vai aos poucos superando décadas de decadência, e se recolocando em seu devido lugar, mesclando tradição e modernidade. Um exemplo vigoroso dessa ladainha dos novos tempos está no alto da Ladeira da Glória, aos pés da torre da Igreja de Nossa Senhora do Outeiro. No número 98, a julgar pelo ar monástico, o portão de ferro do sobrado construído por volta de 1770 bem poderia se abrir para uma sacristia. Mas o que se viu lá dentro, nesses dias ensolarados de outubro, foi a liturgia da experimentação. O Festival de Poéticas Digitais (PODfest) ocupou as salas arejadas da Casa da Glória com dança, artes visuais e tecnologia, incluindo oficinas com alunos da rede municipal de ensino. Criadores do Brasil e de países como a França e o Canadá trocaram experiências sobre matrizes artísticas inovadoras, passando pela poesia eletrônica, a web art e a videodança. Transpor o portão era como entrar em uma máquina do tempo. Das pedras da ladeira ao universo digital. E de volta a elas.

Foto: Uanderson Fernandes

Foto: Uanderson Fernandes

A Casa da Glória é apenas um exemplo da retomada. Seus amplos espaços debruçados sobre a encosta estão abertos à cultura e à arte. Mas basta um passeio por algumas ruas do bairro para encontrar outros alentos. Esta semana refiz um caminho tantas vezes trilhado na adolescência, subindo a Rua Santo Amaro, cruzando a Rua do Fialho e voltando à Rua da Glória pela Benjamin Constant. Logo na entrada da Santo Amaro, uma boa notícia: o belo prédio da Superintendência Regional do Incra, que estava em ruínas, vem sendo reformado.

Reforma no prédio do Incra. Foto: Alexandre Medeiros

Reforma no prédio do Incra. Foto: Alexandre Medeiros

Bem perto dali, a imponente Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência é um marco. Ainda de pé, a primeira enfermaria do hospital, inaugurada em 17 de maio de 1840,
necessita de reformas. Em frente dela, os sobrados de números 71, 73 e 75 também anseiam por uma, e formam um conjunto interessante, com as grades das sacadas em ferro fundido.
Voltando pela Rua Benjamin Constant há outro belo exemplo de revitalização do bairro. Na casa em que morou o pintor Victor Meirelles, no sobrado de número 30, está o Centro de Movimento Deborah Colker.

Centro de Movimento Deborah Colker. Foto: Alexandre Medeiros

Centro de Movimento Deborah Colker. Foto: Alexandre Medeiros

A fachada foi reformada e preservada, e o interior está adaptado ao ensino de técnicas de dança e movimento, num entra-e-sai de alunos o dia inteiro, dando ao lugar uma ebulição refrescante. O contraste com a vetusta Cúria Metropolitana, do outro lado da rua, é mais um desses encontros urbanos que só mesmo o Rio de Janeiro é capaz de produzir. E que seja assim, com esse viés renovador latente, que a Glória de tantas histórias reencontre seus dias mais luminosos.

Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência. Foto: Alexandre Medeiros

Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência. Foto: Alexandre Medeiros

 

Postado por Alexandre Medeiros às 11:46 am
13 de outubro de 2014

O DIA ao lado dos moradores da Pavuna

Depois que este blog denunciou a situação de insegurança na saída da estação Pavuna do metrô, a repórter Marjorie Avelar fez uma ótima reportagem no local, publicada domingo pelo DIA, mostrando como o medo impera entre os moradores do bairro. A falta de patrulhamento da PM, sobretudo à noite, quando os bandidos atuam com mais desenvoltura, é apontada como uma das causas da roleta-russa em que se transformou a saída do metrô.

Postado por Alexandre Medeiros às 7:46 pm
7 de outubro de 2014

Na Pavuna, ao deus-dará

Saída do metrô da Pavuna, dez e meia da noite. Cansado do trabalho, o homem desce a rampa do
viaduto em direção ao ponto de ônibus, doido para sentar, esticar as pernas e só acordar no
ponto final. De repente, percebe atrás dele dois sujeitos que apertam o passo, e vê que um
terceiro vem subindo a rampa. O coração vem na boca, a agonia de perder a mixaria na
carteira. Perdeu, otário.

Só que não. O sujeito que vem de baixo faz um sinal com a cabeça e aponta um moleque de
mochila, boné e fones de ouvido que vem descendo a rampa. É ele a bola da vez. O homem com a
mixaria na carteira apressa o passo, entre aliviado e atônito, salvo do ataque porque não
tinha nada a chamar a atenção além da roupa do corpo e do relógio-camelô. Muita gente desce
a rampa, no meio da correria para pegar o ônibus, trabalhadores, estudantes. O moleque de
boné vinha da faculdade.

No pé da rampa, o homem que salvara o relógio-camelô olha para cima e vê o moleque entre os
dois sujeitos, um deles com o revólver enfiado na barriga do garoto, que não salvou nada:
foi-se a mochila com os livros e cadernos da faculdade, foi-se o boné (de camelô), o celular
e os fones de ouvido. Nosso homem entra no ônibus, mas não consegue esticar as pernas. Está
tenso ainda. Só relaxa um pouco quando o motorista dá a partida e ele deixa para trás a
agonia. Pela janela, ainda vê o moleque que perdeu tudo, andar amuado, pedindo ao
despachante da linha para deixar que viaje de graça, que os caras levaram até o da passagem.

Pergunta se tinha PM por perto para dar ao menos uma moral àquele mundo de gente chegando do trabalho e da faculdade, cansado e rendido diante de três malandros, escolhidos que nem
arroz na peneira? Amanhã será outro moleque amuado, outro homem cansado de guerra a ficar
com o coração na boca. Quem será a bola da vez?

Postado por Alexandre Medeiros às 5:21 pm
5 de outubro de 2014

Canteiro da democracia

Dia de votação é um vendaval de lembranças para mim. Enquanto vinha caminhando pela Rua Dona Mariana, em Botafogo, a caminho da 86ª seção eleitoral, meu pensamento voltou a 1989, quando votei pela primeira vez para presidente, aos 28 anos. Quase 30 anos na cara e debutante no voto, por obra e graça do Golpe de 64. Passei a juventude fazendo passeata, correndo da cavalaria, as bolas de gude no bolso, pintando faixa de protesto, lendo jornal clandestino, conversando nas barcas Rio-Niterói como se estivesse conspirando contra o governo. De certa forma, estava. Mas não era crime pensar diferente, lutar por ideais. Abaixo a ditadura. Diretas Já.

Já, não. Tem que esperar. Esperamos, a longa noite. Clareou o dia, veio enfim de novo o
direito de eleger o presidente. Juro que me emocionei sozinho na cabine de votação em 1989.
E não foi porque o Botafogo tinha sido campeão. Era um filme passando em segundos na minha
cabeça, tanto sufoco para estar ali. Muita gente não curtiu esse momento, ficou pelo
caminho, torturada, morta. Saí da seção mais leve, olhando aquele monte de gente a caminho
da urna, as camisas dos partidos, as bandeiras, aqueles botons de metal, hoje peças de museu
particular.

Faz tempo que me mudei de Botafogo. Morava ali mesmo na Rua Dona Mariana, a menos de cem
metros da Escola Joaquim Nabuco, onde fica a 86ª seção. Foi meu primeiro endereço depois que
saí da casa dos pais e consegui uma grana para bancar aluguel, com vinte e poucos anos.
Mesmo assim dividindo o apê com meu amigo Oscar. Ter um lugar para namorar na sala, a
alforria. Um quarto de três por três para chamar de seu.

Fora uns prédios novos, desses horrorosos, a rua guarda muito do aspecto dos anos 1980.
Ainda tem fila na padaria da esquina para comprar o frango com farofa de lei dos domingos.
Imperdível. O boteco de cerveja de garrafa ainda resiste, os cachaceiros de plantão. Mas tem
uma novidade: o canteiro na esquina da Voluntários da Pátria salpicado de pétalas de rosa,
chamariz do florista. Parece uma tela na terra. Gérberas, orquídeas, flores do campo.
Naquela esquina poluída, em pleno caos urbano, o canteiro florido era a ressurreição do
concreto. Um sopro de ar no meio da fuligem. Lembrei que meu filho de 17 anos, afilhado do
Oscar, estava votando pela primeira vez, escolhendo seus caminhos. Amadurecendo na
liberdade, e não na escuridão. Flores em vida.

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 4:23 pm