Arquivos do mês: novembro 2014

14 de novembro de 2014

Seu Manoel, um menino que voou

Eu tinha acabado de deixar meus filhos no colégio quando o vi caminhando lentamente do outro
lado da Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon. Mas será que era ele, tão longe assim de casa?
Já estava meio atrasado para o trabalho, mas atravessei a rua, emparelhei o passo com ele e,
com todo o cuidado para não assustá-lo, perguntei: “Seu Manoel?”.

A resposta veio com um sorrido tímido. “Eu mesmo, pois não”. O poeta que dialogava com as
pedras do rio foi paciente com o fã, aprendiz de poeta que dialogava com as imperfeições.
Disse a ele que bebia de sua fonte, trocamos rápidas impressões sobre Guimarães Rosa, uma
paixão comum, e ele ali parado, de braços cruzados, mais ouvindo que falando. Naquele final
da manhã no meio do burburinho do Leblon, entre garotas lindas a caminho do mar e
trabalhadores no rumo do serviço, o poeta exalava sua serenidade pantaneira, como se
estivesse trocando prosa na varanda de casa. Na despedida, o pedido supremo. Como um menino
diante do professor, pedi que ele desse seu endereço em Mato Grosso do Sul, para onde eu
mandaria meu livro de poemas: “Mesmo que o senhor não tenha tempo nem paciência de ler, só
de saber que ele pode estar na sua estante, já é uma glória”. Ele riu, apertou minha mão e
sumiu no Leblon com seu corpo franzino.

Não lembro o tempo que passou depois desse encontro. Mas um belo dia chegou lá em casa uma
carta pelo correio, vinda de Mato Grosso do Sul. Uma folha só, de nada, escrita de próprio
punho. Manoel de Barros, ao que tudo indicava, tinha lido o livro do aprendiz. Reproduziu
dois poemas de que mais gostara, brincando com os versos. E ainda me chamou de poeta.

Nunca mais tive a chance de esbarrar com Manoel de Barros numa esquina do Leblon ou numa
trilha do Pantanal. Esta semana, quando ele virou passarinho, lembrei do seu jeito de
menino, de sua generosidade, e fui buscar em seu ‘Livro sobre nada’ alguns versos que
definem bem como era, para mim, o Seu Manoel. Poderiam servir de epitáfio, mas, no caso
dele, são como o som do rio passando pelas pedras.

Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na pedra.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Postado por Alexandre Medeiros às 9:37 pm
6 de novembro de 2014

Glória de tantos recantos

Na crônica passada, este blog falou com alegria do atual momento de revitalização de um dos
bairros mais tradicionais da cidade, a Glória. Ao lado da restauração de alguns prédios
históricos, como o do Incra, na Rua Santo Amaro, o que se evidencia é a saudável agitação
cultural, artística e turística de suas ruas. A Casa da Glória e o Centro de Movimento
Deborah Colker são exemplos dessa retomada. Mas cabem outros destaques. Um deles é a vocação da Glória para abrigar hostels, e com isso se credenciar como um território livre de turistas do mundo inteiro. Um desses hostels é o Kariok, em um belo sobrado todo reformado no número 80 da Rua Benjamin Constant.

Hostel Kariok, na Rua Benjamin Constant. Foto: Alexandre Medeiros

Hostel Kariok, na Rua Benjamin Constant. Foto: Alexandre Medeiros

Um pouco abaixo, no antigo 74, o belo templo da Igreja Positivista do Brasil, fundada por
Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes em 1881, está sendo restaurado pela Empresa de Obras Públicas (Emop) do governo estadual. Tombado em 2010 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o imóvel atrai a curiosidade de turistas e cariocas, com suas colunas
de pedra e inscrições enigmáticas para os leigos no tema, como a que fica acima do pórtico
de ferro da entrada: “Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos
mortos”.

Igreja Positivista do Brasil. Foto: Alexandre Medeiros

Igreja Positivista do Brasil. Foto: Alexandre Medeiros

Cada um guarda no coração seus recantos preferidos de cada bairro. No caso da Glória, a
leitora Elizabeth Loureiro Gil já revelou o seu: o belo casarão que foi sede diplomática da
Alemanha e depois abrigou a familia do desembargador Julião Rangel de Macedo Soares, durante
muitas décadas. No meu caso, além da Igreja de Nossa Senhora do Outeiro e da Feira da Glória
(podem aguardar, serão temas de outras crônicas neste espaço), tem lugar cativo a Villa
Conceição, belíssimo palacete no alto da Rua Benjamin Constant, no número 142. Coisa de
cinema. E você, leitor, que recanto da Glória mora em seu coração? Cartas para este blog.

Villa Conceição, que bonito é. Foto: Alexandre Medeiros

Villa Conceição, que bonito é. Foto: Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 5:14 pm