Arquivos do mês: dezembro 2014

31 de dezembro de 2014

Por mais e melhores cenas cariocas

Hoje, por volta de meio-dia, um sujeito vestido de Chapolin Colorado se requebrava ao som da voz de Clara Nunes em plena calçada da Rua do Catete, divertindo com sua alegria fortuita a quem passava na correria no dia 31. Entre mercados lotados, táxis apressados, alguns bebuns já de plantão com o sol a pino, e pernis saindo dos fornos das padarias para as ceias da virada, o sujeito emprestava sua graça ao som de um samba para ser o contraponto da mesmice. Foi de se rir, mas também de se pensar. Que às vezes a gente corre tanto, sofre tanto, se prega em cruzes com as próprias mãos e não vê numa bobagem de rua uma salvaguarda da vida. Foi como se o Chapolin Colorado nos mostrasse que faz bem de vez em quando andar na contramão dos fatos e das datas. Se o sujeito faz um Carnaval sozinho na Rua do Catete, e nem é fevereiro, essa é uma cena para guardarmos. Que 2015 traga mais cenas cariocas assim, brasileiras assim, e que elas se espalhem pelo mundo. Que sejamos menos sisudos e mais fortuitos. Menos sofridos e mais alegres. As mazelas não hão de cessar, nem as perdas. Mas se pudermos enfrentar as barras da vida de peito mais aberto, de coração mais leve, elas talvez passem mais rápido, e abram espaço para outras cenas – felizes, sinceras. A gente não é super-herói. Mas podemos ser Chapolins Colorados. A vida não contava com nossa astúcia… Feliz Ano Novo!

El_Chapolin_Colorado

Postado por Alexandre Medeiros às 4:27 pm
11 de dezembro de 2014

Uma tarde no museu

É um programa para as crianças se esbaldarem. Uma exposição com mais de 5 mil peças do lendário Playmobil! E a gente se esbalda mesmo – todos voltamos a ser crianças. A arena dos gladiadores, o picadeiro do circo, a nave espacial, o exército medieval, uma cidade inteira, com direito a praia e ciclovia. Francisco, nos seus oito anos de pura excitação, só queria saber a direção da loja do museu, onde certamente seu pai, no caso eu, compraria caixas e mais caixas de Playmobil. Mas muita calma nessa hora. Antes da loja, vamos ver as outras exposições do Museu Histórico Nacional?

A arena dos gladiadores. Foto: Nara Boechat

A arena dos gladiadores. Foto: Nara Boechat

A certo contragosto, as crianças toparam. Ainda bem. Embarcamos na viagem da mostra “Leopoldina, imperatriz do Brasil”. Com curadoria da querida Solange Godoy, a exposição parte das centenas de cartas, algumas tristíssimas, da nossa monarca mais esquecida – aliás, imerecidamente. Uma moça que sai de Viena, viaja 86 dias, sendo 84 de caravela, para chegar a uma terra desconhecida, encomendada para casar com um sujeito que nunca vira mais gordo, que logo arruma uma amante, humilha a mulher em público, e ela tem a elegância de não fazer escândalo, e ainda por cima se afeiçoa pela gente aqui da terra, a ponto de ser mais admirada que o marido imperador? Três dias antes de morrer, Leopoldina escreveu uma bela carta à irmã Maria Luísa, que ditou por não mais conseguir escrever de próprio punho, em que relatava a sua agonia, a doença, a preocupação com os filhos. É um pedaço pouco conhecido de nossa história. E vale a pena conhecer.

 

Leopoldina preside a sessão do Conselho de Estado em que foi assinado o decreto de Independência do Brasil. Tela de Georgina de Albuquerque, 1992. Acervo do MHN

Leopoldina preside a sessão do Conselho de Estado em que foi assinado o decreto de Independência do Brasil. Tela de Georgina de Albuquerque, 1922. Acervo do MHN

 

A aura do Museu Histórico Nacional é de paz e história. No domingo, com entrada gratuita e sem o movimento dos dias úteis ao redor, é um passeio dos mais agradáveis. Do lado de fora, com a derrubada da Perimetral, já dá para imaginar um grande passeio público, sem carros por perto, que se estenderá da Praça Marechal Âncora até a Praça Mauá, cruzando toda a área da Praça 15. Isso quando tirarem os escombros que estão por toda parte. Com um pouco de sorte, é possível cooptar as crianças para uma visita guiada, mostrando os prédios antigos da Marinha, o Albamar, o Paço Imperial, o Arco do Teles, o Chafariz do Mestre Valentim…

Mas olha, fora isso tudo, a exposição do Playmobil vale muito a pena.

 

Foto: Alexandre Medeiros

Foto: Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 5:56 pm