Arquivos do mês: janeiro 2015

19 de janeiro de 2015

Conselheiro, com todo o respeito, põe na quentinha

A Rua Conselheiro Saraiva não é muito conhecida. Pequena, ela se esconde ali pelos domínios do Mosteiro de São Bento, nas cercanias da Praça Mauá, e seus velhos sobrados usam o espelho de vidro do moderno prédio do INPI para mostrar sua beleza. Com as obras do VLT na Rio Branco, é difícil até chegar lá, depois de setas de desvio, tapumes, tratores, britadeiras e operários ganhando o pão debaixo desse sol de janeiro. Por uma dessas conjunções que só mesmo essa cidade de 450 anos é capaz de ungir, foi lá na ruazinha do seu Saraiva que fui a uma roda de samba das mais agradáveis, um momento de lavar a alma. O ensaio do bloco Põe na Quentinha.

A roda, um luxo

A roda, um luxo

Devemos saudar o fotógrafo Berg Silva pela iniciativa. Bamba das fotos de gastronomia, Berg produziu um evento que misturou roda de samba com quermesse, as barracas de comida à disposição com quitutes de qualidade. Arroz de rabada com pesto de agrião e lascas de alho tostado. Cubinhos de tapioca com queijo coalho e geleia de pimenta. Os indizíveis bolinhos de feijoada do Aconchego Carioca. Minha querida Tia Surica, o Ricardo Amaral e a Katia Barbosa, do Aconchego, apadrinharam o bloco este ano, sob o símbolo da feijoada que os três tão bem conhecem e propagam.

Portela soberana. A bênção, Tia Surica.

Portela soberana. A bênção, Tia Surica.

E a roda comendo solta. Makley Matos no comando. E com um luxo de sopros de encantar quarteirão. Aí entra em cena Tia Surica, cantando Lama, o hino. E vem samba da Portela, e ninguém parado fica. Eu vivia isolado no mundo. Galo cantou às quatro da manhã. E chegam as Mulheres de Zeca, a doce Dorina, salve Irajá! A brejeirice de Renata Jambeiro, benza Deus! E a tarde vai indo embora, morna diante do maçarico de duas da tarde, quando aportamos na rua do conselheiro que foi senador do Império e da República. Parece que alguém espreita pela fresta do velho sobrado de 1911, uma gráfica que resiste ao bota-abaixo dos tempos modernos.

A fresta aberta na gráfica de 1911. O samba chamou.

A fresta aberta no sobrado de 1911. O samba chamou.

Entre impressões e lembranças, passa um galeto do Sat,s e, seguindo o aroma da brasa, se descobre que ele vai pousar na mesa onde está Jairzinho, Furacão da Copa de 1970, ídolo eterno do meu Glorioso. E a gente se dá conta que está rodeado de gente querida, algumas almas boas que não se vê há anos, mas que parecem ter saído agora mesmo da sua frente. Tanto aconchego inibe as distâncias e os prazos. E a roda ainda ataca de chorinho. Covardia.

Uma tarde como essa vale uma prece. Amém.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 3:33 pm
6 de janeiro de 2015

Dia de Reis

Partiu Dona Dodô, três dias depois de completar 95 anos. Se a saúde tivesse deixado, iria completar neste fevereiro seu 80º desfile pela Portela. Certamente a escola fará a justa homenagem a ela na pista, onde sempre gostou de estar, distribuindo sua simpatia. Com ela, a simpatia, ajudou a Portela a conquistar o primeiro de seus 21 títulos, em 1935. Desde o último dia 22, às vésperas do Natal, Dodô trocara sua casinha no alto do Morro da Providência por um leito no hospital. Mas até poucos dias antes de ser internada, cumpriu a rotina que a movia na vida: frequentar a quadra da Portela, espalhar sua energia vital, seu sorriso. Mais que a primeira porta-bandeira da Azul-e-Branco, ela era uma referência não só da Portela, mas do samba carioca.

Dona Dodô partiu num Dia de Reis. E me trouxe à lembrança, pelo peso similar da tradição, uma certa Folia de Reis de outro berço do samba carioca: o Morro de Mangueira. Foi lá que conheci, numa manhã de novembro de 2000, a Folia de Reis Manjedoura da Mangueira, mais conhecida como Folia do Teixeira. Resistia no mesmo cantinho da Candelária onde José Elias Gomes Filho erguera o 32º barraco da localidade. José Elias, que virou Teixeira por conta de um parente com esse sobrenome que lhe arranjou um emprego numa chapelaria da Rua da Conceição, já trazia de Laranjal, cidadezinha mineira onde nasceu, a tradição dos reis cantantes. Fincou-a ali na Mangueira em 1946, quando o samba da Verde-e-Rosa já rivalizava com o da Portela pela hegemonia dos bambas. Naquele ano, Teixeira reuniu outros 13 foliões e percorreu com sua violinha de taquara as encostas do morro.

Não sei se seu Teixeira ainda resiste com sua folia lá na Candelária – torço muito que sim, e darei notícias assim que souber. Sem registros escritos ou sonoros, a Folia de Reis é mantida nas famílias na tradição oral. Na de seu Teixeira, contados os ensinamentos dos ancestrais de Laranjal, já somava 145 anos naquele distante 2000. Dona Dodô também partiu com muitas histórias de um pedaço considerável da cultura carioca. Referências, tradições que se vão. Hoje, lá em casa, na data dos Reis, foi dia de apagar as luzes coloridas e guardar os enfeites da árvore de Natal. E de pregar na parede da cozinha a folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Um 6 de janeiro de perdas e recordações, de sacudir a poeira e olhar para a frente. Como tantos dias de tantos anos dessa vida. Salve Dona Dodô, salve seu Teixeira!

dodô

Postado por Alexandre Medeiros às 5:49 pm