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23 de março de 2015

Tia Eunice, a majestade serena

Caros, depois de longa ausência, volto com uma notícia triste. A doce tia Eunice, pastora da Velha Guarda da Portela, foi olhar por nós lá de cima. Partiu aos 95 anos – isso se contarmos a data real de seu nascimento (24 de junho de 1919), já que na certidão de cartório consta 16 de maio de 1920. Com medo de pagar multa pelo atraso no registro, o pai dela alterou a data, fato não raro à época. Essa foi uma das revelações sobre a vida de Eunice que tive a alegria de conhecer ao entrevista-la ao longo de meses, entre 2002 e 2003, para o livro ‘Batuque na cozinha’ e para o documentário de mesmo nome, este em conjunto com a cineasta Anna Azevedo.

Tia Eunice, de óculos, e seu sorriso doce

Tia Eunice, de óculos, e seu sorriso doce

Passados tantos anos, acho que eu não poderia ter sido mais feliz ao criar o título do capítulo dedicado a Eunice no livro: ‘Tia Eunice, a majestade serena’. Com sua elegância, seu jeito ameno de falar, seu porte altivo, ela era uma rainha em essência e merecimento. Filha de Iemanjá, Eunice se emocionava ao cantar ‘Conto de areia’, hino imortalizado na voz de Clara Nunes. No dizer de baluartes da Velha Guarda da Portela, como Monarco e Tia Surica, não havia no grupo voz feminina mais afinada e melodiosa que a de Eunice. No documentário, ela canta um trecho de ‘Conto de Areia’, a voz coberta pelas delicadas imagens da casinha simples de vila em Rocha Miranda, onde ela viveu até partir, captadas pela lente sensível de Batman Zavarese. Podem conferir aqui:

https://vimeo.com/74625801

 

Reverenciada como uma tia do samba na linhagem de Ciata, Madalena Rica e Vicentina, Eunice viveu tempos de glória em sua casa de Turiaçu, onde comandava rodas memoráveis. Com um olho na panela e outro no pandeiro, Eunice conseguia cantar, sambar o miudinho e dosar os temperos do mocotó, da sopa de entulho, do tutu à mineira ou da galinha ao molho pardo, este o prato preferido de Paulo da Portela. Tive a honra de apreciar a iguaria feita pela própria, numa tarde abafada em Rocha Miranda. Que privilégio, meu Deus, que privilégio. Eu costumava ligar para ela em data de aniversário (o verdadeiro), em Domingo de Páscoa e no Natal, para saber notícias e ouvir pelo telefone aquela voz macia, que acalmava a gente. Vou perder essa rotina, mas vou guardar de Eunice um ensinamento: a gente não deve guardar mágoa no coração. Palavra de rainha.

Postado por Alexandre Medeiros às 3:19 pm