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17 de abril de 2015

O céu é azul, e a praia é vermelha

Domingo de sol ameno e brisa à sombra, o mar ali ao lado galgando as pedras ancestrais. Diante daqueles 450 anos de praia, pelas contas oficiais, Francisco saca do coldre de seus oito anos de vida curiosa a seguinte e pertinente questão: “Pai, mas por que se chama Praia Vermelha?”.

Notem que o “mas” pressupõe uma continuação de diálogo, como se estivéssemos falando disso uma eternidade. Nada. Aquela questão devia estar na mente fértil do moleque a manhã inteira, ruminando hipóteses desde que adentráramos a Pista Cláudio Coutinho para uma caminhada singela, sem maiores pretensões, e eu fizera o favor de garantir que, na volta, poderíamos comer biscoito Globo com mate na Praia Vermelha.

De fato, olhando ao redor, nada é vermelho. Afora um passarinho belíssimo e tão arisco que impediu qualquer tentativa de foto, nenhum ingrediente dessa natureza belíssima passa perto da cor vermelha. De uma sinuca de bico como essa, um pai calejado por tantas curiosidades de seus quatro filhos sai como? Pela estrada da sinceridade: “Não sei, Francisco, mas vou pesquisar”.

Talvez a sinceridade e a promessa de uma resposta vindoura, e sobretudo o mate e o biscoito Globo, tenham atenuado a dúvida do Francisco. Mas eis que ela passou a ruminar a mente do pai. Debaixo do guarda-sol alugado a dez reais, as possibilidades passaram em revista.

Não eram muitas, é verdade. A hipótese que passou mais perto foi o Levante Comunista de 1935, que teve na Praia Vermelha o seu mais simbólico episódio, com a insurreição dos militares comandados por Agildo Barata no 3º Regimento de Infantaria. Do prédio que tampava a vista da praia (vejam a foto histórica abaixo), só restam hoje duas guaritas nos cantos, onde ficam a bela escola Gabriela Mistral e o Círculo Militar. O levante ficou também conhecido como Revolta Vermelha. O negócio é que já naquela madrugada de 26 para 27 de novembro de 1935 a praia já se chamava… Vermelha.

Vista da Praia Vermelha em 1888, com a Escola Militar do Rio de Janeiro. Foto de Eduardo Bezerra

Vista da Praia Vermelha em 1888, com a Escola Militar do Rio de Janeiro. Foto de Eduardo Bezerra

Mas a resposta estava ali, ao alcance dos pés. A pesquisa indicou e eu confirmei. Em determinadas horas do dia, sobretudo quando o Sol se põe, a areia da praia adquire uma tonalidade avermelhada, iluminada pelos raios solares que incidem sobre os cristais da areia, conhecidos como cristais de Granada, com seus tons entre o rosa e o vermelho.

Pronto, Francisco. Aí está a explicação devida e paga. E depois me diz se não é um privilégio caminhar por este lugar lindo que seduziu portugueses e franceses, e que continua a seduzir gente do mundo inteiro, entre os morros da Urca e da Babilônia?

Praia Vermelha em 180 graus. Foto Alexandre Medeiros

Praia Vermelha em 180 graus. Foto Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 4:46 pm