Arquivos do mês: maio 2015

28 de maio de 2015

Nas alturas do bairro imperial

Tenho que agradecer ao entusiasmo de Helena, que quer ser astrofísica e suscitou com seu anseio a visita, por ter voltado à colina onde repousa o Observatório Nacional. Tinha estado lá só uma vez, há tempos idos, por ocasião de uma matéria que escrevi para o Jornal do Brasil. Fui a pé da sede do JB, na Avenida Brasil 500, cruzando o Campo de São Cristóvão, atravessando uma paisagem árida e poluída. E parecia mesmo o paraíso se descortinando quando abri a porta do elevador de acesso ao Observatório, dando de cara com aquele imenso jardim na colina.

 

O prédio principal do Observatório Nacional e uma estrela à sua frente

E pensar que há exatos 90 anos, em maio de 1925, Albert Einstein caminhou sob a sombra dessas árvores. Ele que tem uma frase antológica: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Passeando pela colina algumas novas ideias vêm à mente. O Observatório Nacional é um bom lugar para navegar pelos pensamentos.

O imponente prédio principal da instituição abriga uma exposição permanente do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Com direito a conhecer alguns dos fantásticos instrumentos usados desde o Império pelos cientistas que passaram por ali.

Lá fora, numa volta pelos jardins, os olhos de Helena e Cecília brilhavam com as explicações dos guias (físicos em sua maioria) sobre os aparelhos de observação, a posição do Sol e das estrelas. Fiquei imaginando os astrônomos do passado a ficar dias e dias nas pequenas cúpulas com seus aparelhos mapeando o Sol e os planetas. Com essa santa paciência e tanto talento eles nos legaram o conhecimento. E agradeço a eles por terem fomentado essa semente na Helena.

Vale muito a pena subir a colina do bairro imperial de São Cristóvão. Nem que seja para olhar as estrelas mais de perto.

 

Postado por Alexandre Medeiros às 8:06 pm
18 de maio de 2015

Os encantos de Dona Mena

A profusão de cores, sabores e texturas do Cadeg já foi tema de uma crônica neste humilde blog. E o será de outras, sem favor algum. Pois entre sacas de laranjas e batatas, caixas de caquis e morangos, postas de bacalhau, vinhos, flores e gatos sonolentos, o bom e velho Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara se renova e mostra gratas surpresas a cada incursão. No sábado passado fui apresentado a mais uma delas: o restaurante Dona Mena, recém-inaugurado sob a batuta do chef Marcelo Barcellos, do Barsa. Aliás, os dois ficam no mesmo corredor (as ruas 4 e 5), separados apenas pelo turbilhão de almas felizes que vagueia pela alameda central do piso superior.

É reconfortante perceber que o mercado se mantém como um celeiro da resistência carioca. Ali se cultuam as tradições dos mercadores de outrora, em seu pregão incessante para atrair os clientes. Em algum momento do dia é como se os corredores laterais fossem sacadas de onde você vê o movimento intenso na alameda principal. Do Barsa vê-se o Dona Mena, e vice-versa. Marcelo fica de um lado para o outro, explicando os pratos, distribuindo histórias e gentilezas. Atravessa várias vezes a alameda central, driblando a turba. Cliente chama daqui, cliente chama de lá. E, no contraste da correria dele, na mesa do Dona Mena reina a calmaria.

Aliás, como norma no Cadeg, esqueça a pressa. Curta cada sabor, cada aroma, cada pechincha. Uma boa dica para o Dona Mena é provar as iguarias em pequenas porções. Eis que chegam à mesa as inebriantes linguiças mineiras, diretamente de Juiz de Fora. E aí você já as imagina curando acima do fogão a lenha, a fumaça a lhes emprestar caráter e origem. Mal restabelecido do golpe, você dá de cara com o caldo de raízes, uma sinfonia de sabores que se vai desvendando aos poucos – o curry, o leite de coco, a mandioca, o inhame, a batata baroa – coroada por um espetinho de camarões.

Caldo de raízes. Ao fundo, a massa folhada de bacalhau.

Caldo de raízes. Ao fundo, a massa folhada de bacalhau.

Marcelo volta à mesa, depois de mais uma expedição ao outro lado da alameda, e recomenda uma novidade: uma espécie de massa folhada de bacalhau. Divina. E com pimenta biquinho, só para humilhar. Dona Mena, mãe do Marcelo, cunhou sua cozinha baseada nas raízes e convivências. Estão ali as influências africanas, a culinária mineira, os temperos baianos, os sabores de Portugal, França e Itália. Mistura que Marcelo fez questão de apimentar, com as suas próprias vivências. O resultado é como o efeito do caldo de raízes nas primeiras colheradas: a descoberta, a satisfação, a leveza de alma. Sensações que se aprofundam quando chega à mesa o vatapá preparado com bacalhau desfiado, camarões salgados na casa, um delicado açacá por testemunha – oferenda a todos os orixás.

Vatapá de Dona Mena, com direito a açacá.

Vatapá de Dona Mena, com direito a açacá.

Aos sábados e domingos, o restaurante abre para almoço até o fim da tarde, e é curioso ver como o mercado vai fechando suas portas, as almas felizes partindo para outras estações, enquanto os últimos fregueses de Dona Mena vão sentindo a tristeza de partir. Mas é chegada a hora. Olhando ao redor, vê-se a noite chegando, o outono trazendo outros tons sobre Benfica. Vamos embora, Dona Mena, até qualquer dia. E só ficam os gatos, mais sonolentos do que nunca.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:22 pm
5 de maio de 2015

De tempos em tempos

Entro na pequena livraria do Palácio do Catete, de cujas janelas se vislumbram os jardins, atrás de um livro que me fora recomendado por um amigo, em nova e caprichada edição.

- Boa tarde. Por acaso você tem aí o livro Tempos Difíceis, de Charles Dickens?

O atendente faz a busca no computador e, com ar de alívio, diz:

- Você deu sorte. Temos aqui Tempos de Paz, Tempos de Fúria, Tempos Extremos e Tempos Muito Estranhos. Mas Tempos Difíceis, felizmente, você não vai ter.

Rimos os dois. Deve ter sido a primeira vez na vida que saí de uma loja de mãos abanando e feliz.

É uma dádiva esbarrar com esse nosso bom humor carioca assim, de graça. E ainda por cima com uma vista dessas. Ô, sorte…

Jardins do Palácio do Catete. Foto: Alexandre Medeiros

Jardins do Palácio do Catete. Foto: Alexandre Medeiros

Postado por Alexandre Medeiros às 4:40 pm