Arquivos do mês: junho 2015

28 de junho de 2015

Mais perto do céu

Sim, estava um frio cão para um final de junho em São Sebastião do Rio de Janeiro, véspera do dia de São Pedro. Foi difícil sair debaixo da coberta, botar um short e encarar aquele ventinho frio de oito e pouco da manhã de sábado. Mas uma amiga atleta me convenceu a revisitar, depois de nem sei quantos anos, a pista exuberante das Paineiras.

Lá no alto, com o Cristo de costas para os cristãos, talvez a sinalizar para que eles se virem sem o amparo dos céus naquela escalada de ares puros e ventos revigorantes, iniciamos uma caminhada de contemplação. Não ela, a amiga atleta, que se despediu na primeira curva da estrada a trotar com a segurança dos justos. Digo eu, na minha escalada de aprendiz, dividido entre o rigor do exercício e a rendição à natureza da floresta.

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Desviando de ciclistas profissionais, aqueles caras com calças justas, capacetes e bicicletas de marchas, o caminhante tem mais é que se render. A pista das Paineiras, circundando a Floresta da Tijuca, descortina em suas curvas imagens absolutamente inebriantes da cidade. A câmera tosca do celular não conseguiria jamais registrar o que os olhos guardaram para todos sempre. A Pedra da Gávea lá distante, a Lagoa e seu coração de águas calmas a nos contemplar, o oceano infinito de Ipanema e Leblon, as montanhas que vigiam o mar.

Até onde os olhos alcançam, foto Alexandre Medeiros

Até onde os olhos alcançam, foto Alexandre Medeiros


Olha, vale mesmo no inverno. Até para os cariocas que se acostumaram ao refresco de ter aos seus pés a montanha e o mar. Subir a estrada das Paineiras nos lega um pouco de humildade. Serve até para DR, sério. Subam com os problemas, correndo, e voltem com as soluções, os acordos, as resignações, caminhando, sem pressa. Olhe lá de cima a cidade e toda a sua complexidade. A gente é por demais pequeno diante de tanta imensidão.  

Postado por Alexandre Medeiros às 7:42 pm
4 de junho de 2015

Feira de todos os santos, mazelas e prazeres

Depois que São Sebastião se despediu daquele esplendor de maio com uns dias cinzentos, achei que o santo estava de implicância. Mas nada. Bastou acordar nesse feriado de Corpus Christi e abrir a janela para ver que São Sebastião está em paz com seus coirmãos Antônio, João e Pedro, pois a manhã de junho que se escancarou foi de deixar qualquer cristão de alma lavada. E no embalo das festas juninas, o caminho era um só, por sinal abençoado por outro integrante da cúpula: São Cristóvão. O que pode haver de melhor num momento como esse do que alimentar o sangue nordestino que corre em suas veias?

E mesmo que não corra, que seu coração se aqueça ao som da zabumba, da sanfona e do triângulo, espécie de Santíssima Trintade que alforria a existência de tanto sofrer. O povo do Nordeste sabe disso como ninguém. Vai seca e vem seca, e lá está ele de pé a tentar plantar e colher, a tocar o gado magro em meio aos mandacarus. A cantar seus sofrimentos na voz de um Luiz Gonzaga, a descrever suas agruras nos versos de um Catulo, um Cego Aderaldo ou de um Patativa do Assaré. Ô gente bonita e que sabe arrancar prazeres da vida árida. Que festeja aonde outros, com a soberba, só veriam desgraça. Pernambuco, Ceará e Alagoas, terras de meus ancestrais, estão em mim feito marca de gado. Quem nem farinha e pimenta. Pinga e alfenim. Mistura com carioca nascido à beira-mar, de samba e maresia, tatuí e trem da Central.

O chapéu de boiadeiro emoldurado pelas bandeirolas e o céu de junho.

O chapéu de boiadeiro emoldurado pelas bandeirolas e pelo céu de junho.

Na Feira de São Cristóvão já estão alinhadas as cores das bandeirolas de São João. Parece um céu de chita a nos cobrir de saudades e lembranças. O sanfoneiro no palco principal acolhe os passos acanhados dos casais que se aventuram na pista, naquela bate-coxa que enleva e suscita paixões. Ainda estamos no início da tarde, mas a feira já anuncia o que está por vir, aquela multidão a se embrenhar pelos corredores impregnados pelo cheiro das churrasqueiras. Quem está longe da terrinha, que venha para cá. Tem sempre um cordel, uma tapioca, um conterrâneo disposto a conversar.

O mito Gonzagão e seus súditos alegres e fiéis

O mito Gonzagão e seus súditos alegres e fiéis

Depois de tomar a abrideira, de comer acarajé e bobó de camarão, de beber guaraná Jesus, o sabor do Maranhão, e de se fartar com carne de sol, baião de dois e manteiga de garrafa, até o Lampião na porta do restaurante parece galã de novela das seis. O sanfoneiro ataca de Gonzagão. E você pensa que mais tarde, quando essa onda acabar, tudo que a vida podia te dar por merecimento era uma rede. Na sombra.

Lampião tirando onda

Lampião tirando onda

Postado por Alexandre Medeiros às 8:27 pm