Arquivos do mês: julho 2015

31 de julho de 2015

Arte agoniza, mas não morre

A Estrada do Pontal, lá nos confins do Recreio dos Bandeirantes, tem um quê de interior. Ou melhor, tinha. Hoje, ela guarda em suas curvas de areal alguns poucos resquícios do recanto praiano de minha adolescência, quando para lá me despencava de ônibus com meu saudoso primo Sérgio para encarar as famosas “esquerdas” de prancha ou de peito. O ponto final era perto do restaurante Âncora, que marcava o fim do Recreio. Sérgio e eu encrencados para tirar a prancha do ônibus, enquanto a galera que tinha carro passava batida em direção aos paraísos da Prainha e de Grumari.

Ainda estão lá o areal, o cheiro de maresia e um punhado de surfistas. O restaurante Âncora não existe mais. E resiste o Museu Casa do Pontal, que reúne em seu silencioso e bucólico espaço a mais significativa coleção de arte popular brasileira. São mais de 8 mil peças, de mais de 200 artistas. Estão lá os bonecos de Mestre Vitalino e de Zé Caboclo, e as incríveis imagens de Noemisa Batista dos Santos.

Vida, ofício, barro.

Vida, ofício, barro.

O casório na roça pelo talento de Noemisa

O casório na roça pelo talento de Noemisa

O museu é um santuário. É impossível não se emocionar, tantas quantas forem as visitas, com a expressão artística de gente simples que retrata o dia a dia do país em barro, madeira e fé. A galeria de Vitalino Pereira dos Santos, o mestre de Caruaru, é de uma beleza ancestral. Como se o barro de milênios do Alto do Moura, por ele moldado em forma de gente e bicho, tivesse algo de divino.

O talento e a simplicidade: Mestre Vitalino

O talento e a simplicidade: Mestre Vitalino

As galerias da bela Casa do Pontal guardam as peças colecionadas ao longo de quatro décadas pelo francês Jacques Van de Beuque, um visionário. Como as árvores retorcidas de Dadinho e as peças mecanizadas de Adalton Fernandes Lopes. Tive o privilégio de conhecer alguns dos artistas em suas oficinas de trabalho, como as bonequeiras do Vale do Jequitinhonha. Da casa de Dadinho, na Baixada Fluminense, trouxe uma escultura em madeira que mal cabia na mala do velho Fiat – e muito menos na sala lá de casa. Do ateliê de Adalton, em Niterói, trouxe duas peças movidas a manivela, que retratam cenas do ofício de cozinheira e de ferreiro. No museu está a incrível peça que Adalton fez para reproduzir um desfile de escola de samba. Vejo uma águia da Portela na pomba que encabeça a avenida.

A águia da Portela e o povo a seguir.

A águia da Portela e o povo a seguir.

O museu ainda resiste, mas parece que é por pouco tempo. Corram para ver, o futuro é incerto. Estão perpetrando um crime bem ao lado da casa, um conjunto imenso de prédios, coisa de dez andares cada um, parede de concreto a cobrir o verde, a paz e a arte. Dizem que o museu vai se mudar para a Barra, longe desse espaço generoso e já histórico construído pelo francês e mantido por sua família. Antes de ser uma pena, é um absurdo. Vão embora a arte, a paz, a natureza. Ficam o concreto, a imbecilidade, o barulho, o dinheiro.

Os geniais Osgemeos acabaram de inaugurar no jardim do museu uma instalação chamada Bunker. Ela é premonitória. Talvez a arte popular brasileira, simbolizada pela agonia da Casa do Pontal, precise mesmo de um.

Gênios OsGemeos. E o absurdo campeia ao redor.

Gênios OsGemeos. E o absurdo campeia ao redor.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:00 pm
20 de julho de 2015

Da praça inteira para Teresa

Este blogueiro tão bissexto quanto aprendiz é fã de carteirinha da roda de choro da Praça São Salvador. Já aqui a exaltou em outra crônica e certamente a exaltará em outras tantas. É um desses universos mágicos que ajudam a compor a mítica alma carioca. Ali estão o improviso, o ajuntamento, a amizade, o talento, a música, a poesia, a informalidade, a malandragem, a cerveja, a conversa, a brisa, o calor, um chafariz e a imensidão. Como aquela alegria escorre que nem fosse água do Rio Carioca a caminho do mar, a praça transborda de gente feliz.

Vou ali e já volto. Foto Alexandre Medeiros

Vou ali e já volto. Foto Alexandre Medeiros

Olhe o rosto daquela moça com aparência de holandesa de Amsterdam do lado de lá da roda, os olhos fechados, e o corpo bailando devagar aos acordes da flauta, dos violões de sete e de seis, dos cavaquinhos, do trombone de vara. E ela canta, e sorri, e olha para cima. Enquanto isso, vai para o meio da roda a mulher que cata latinhas na praça, e faz daquele momento de sufrágio íntimo o seu amparo no meio da batalha. E ao meu lado, outra dançarina se requebra para as laterais, num gingado próprio, só dela, como se dançasse sozinha na praça, em seu tempo particular.

As canções trazem as lembranças que cada um carrega, e encantam quem as ouve pela primeira vez. Uma senhora ao pé da árvore frondosa se emociona com Cinco companheiros e pergunta se sei quem é o autor. Sei sim senhora, foi um gênio sereno conhecido como Pixinguinha. E nosso maestro, lá de cima, há de sorrir por embalar mais um sonho.

Fosse um programa padrão, um cotidiano repetitivo, e mesmo assim o choro na praça já teria meu testemunho sem favor algum. Mas ele ainda reserva surpresas. No último encontro, a flautista Ana Claudia Caetano, que comanda a roda, contou que Santa Morena, clássico de Jacob do Bandolim, foi feito em ode a uma bela morena de cabelos longos, chamada Teresa, por quem Jacob nutria velada afeição. Consta que a bela deu de ombros à canção – essa parte da história não é crível, mas a repasso como a ouvi. Improvável que Teresa fosse tão insensível.

Pois fiquem os senhores e senhoras sabendo que devemos a uma dona Teresa de cabelos longos uma das peças mais lindas do choro brasileiro, que Jacob gravou em 13 de abril de 1954. Na roda da praça, Santa Morena é um número arrebatador, acompanhado de palmas e, por vezes, de castanholas, como as tocadas pelo Xico Teixeira. E tem um final inusitado, há anos ensaiado nas rugas de seu improviso, e há quem se sinta em Sevilha se fechar os olhos. Mas, logo se vê, só se podia estar no Rio de Janeiro. O Rio que é meu e é seu, e é de Pixinguinha e de Jacob do Bandolim. E de todos os amores – para todas as Teresas.

Postado por Alexandre Medeiros às 4:53 pm