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29 de setembro de 2015

De coisas esquisitas – ou não

Vamos combinar: há coisas bem esquisitas na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Algumas, de tão antigas aos nossos olhos, caem no costume. Mas não é por isso que deixam de ser esquisitas. Lembro-me de um vizinho lá na Praia do Flamengo que costumava sair para caminhar no Aterro de sapato e meia social. Vi o sujeito fazendo isso anos e anos, já não me surpreendia, e ele devia achar um conforto só aquela composição, com short apertado e camiseta regata. Mas achei esquisito até a última vez que meus olhos cruzaram com aquela esquisitice.

Em tempos de crise como este em que vivemos, uma loja de colchões é algo bem esquisito. Fico até com dó de ver aqueles vendedores com jalecos brancos, como se fossem médicos ou professores, a distribuir os panfletos de promoção a quem passa na correria. Se o sujeito mal tem para a compra da semana no mercado, como vai se decidir, assim, num átimo: “Ah, sim, tenho que trocar o colchão lá de casa!”.

É duro, mas é a realidade: trocar o colchão, infelizmente, será um sonho adiado nessa tormenta. Vai ver é por isso que as lojas de colchão usam de uma tática bem mais esquisita que o fato de estarem com as portas abertas. Colocam músicas em alto e bom som com caixas possantes viradas para a rua. Chego a imaginar que andam a pensar em vender CDs, vinis ou coisas do gênero. Mas é só uma forma de chamar a atenção de quem passa, tipo festa de vizinho na vila.

O pior é que essa esquisitice se propaga. Arguto observador do cotidiano, o querido professor Nelson Moreira, morador de Vila Isabel e conhecedor dos meandros da cidade, registra que a tática de colocar música alta é também usada por supermercados, farmácias e lojas de departamentos – comércios que, perto de uma loja de colchões, são como bancos no meio da crise. Quer dizer, quase como bancos. Só que não. Já viu banco reclamar dessa crise? Entra num banco e vê se eles botam funk na caixa?

Se a gente reparar bem, tem coisa esquisita que passa diante de nossos olhos todos os dias. E cada esquisitice encontra eco no âmago de cada cidadão. Tem gente que não acha, mas eu acho esquisito ver tanta loja chinesa na Saara. Eu que aprendi a negociar preço ali com os sírios e os libaneses, fico meio deslocado com aqueles chineses que mal olham na sua cara. Pensei nisso esses dias, com tanta notícia sobre os refugiados sírios na Europa. Os que vieram para cá em outros tempos, e se estabeleceram na região que depois viria a ser conhecida como Saara, criaram ali um modo de vida que se mesclou ao nosso, em harmonia, criaram suas famílias e fincaram outras raízes. Com a “invasão” chinesa, é até difícil achar um “primo” por ali.

Tem coisa que parece esquisita de longe, mas de perto não é. Vinha eu esses dias calmamente pela Rua do Catete quando avistei ao longe um grupo de mulheres carregando latas d’água na cabeça. Sim, isso mesmo, que nem naquele samba memorável na voz da Marlene. Seria outro reflexo da crise? Era só o que faltava. Chegando mais perto, vi que se tratava de uma instalação para promover uma mostra de fotos antigas sobre favelas do Rio no Palácio do Catete. Uma bela sacada. Mas, pode apostar, deve ter gente que achou esquisito. Porque o que não falta nessa cidade, além de coisa, é gente esquisita.

Lata d'água na cabeça

Lata d’água na cabeça

Postado por Alexandre Medeiros às 10:16 pm