Arquivos do mês: outubro 2015

6 de outubro de 2015

O Rio que ainda se quer negar

Em tempos de arrastões, justiceiros urbanos e execuções sumárias de jovens negros e pobres pela polícia (sob a égide dos famigerados autos de resistência) é recomendável uma visita aos jardins do Palácio do Catete. No ambiente bucólico, entre azaleias floridas de primavera, estão imensas fotos em P&B feitas pelo antropólogo norte-americano Anthony Leeds nas favelas cariocas durante a década de 1960. A exposição foi montada a partir do acervo doado pela viúva de Leeds, a cientista política Elizabeth Leeds, à Casa de Oswaldo Cruz. O ambiente hostil e as rudes condições de sobrevivência em que parte significativa da população da cidade fincou raízes podem ajudar a entender a dicotomia e o extremismo dos tempos atuais.

mul

As mulheres com latas d’água na cabeça atravessando a Rua Humaitá, a caminho da já extinta Favela Macedo Sobrinho, eram tão comuns na paisagem urbana como os jovens que hoje lotam os ônibus nos domingos de sol a caminho de Copacabana ou Ipanema. Já naquela época, os moradores das favelas em geral não tinham dinheiro no bolso, nem educação de qualidade, nem planos de saúde. Cidadania que seus herdeiros de mazelas de hoje em dia também não conhecem.

Nos idos dos anos 1960 havia um código em que irremediavelmente os habitantes das favelas caíam quando a polícia cismava: a vadiagem. Se não trabalhava, estava no ócio. Cana. Hoje a polícia cisma de outro jeito e considera crime não ter dinheiro no bolso quando se vai à praia – desde que você seja negro e ande de ônibus. É uma reedição da vadiagem, com requintes de crueldade. Como nos tempos em que Leeds fez seu mergulho antropológico nesse universo das favelas cariocas, este é um Rio que ainda hoje se quer negar.

Mae

“O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo de Anthony Leeds” fica em exposição nos jardins do Palácio até 17 de janeiro de 2016.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:22 pm