Arquivos do mês: novembro 2015

27 de novembro de 2015

Notícias de um mundo esquecido

Tem a tragédia de Mariana. Tem a lama da Lava Jato. E tem a seca no sertão. Aquele pedaço esquecido de mundo continua a sofrer calado com o flagelo recorrente dos açudes rachados, sem água para plantar, o gado definhando, as vidas indo embora. Estive lá há alguns anos com o fotógrafo e parceiro Severino Silva para registrar o drama dos sertanejos. A série de matérias “A seca tem rosto, nome e sobrenome”, publicada pelo jornal O Dia, retratava também a angústia dos nordestinos que migraram para o Rio de Janeiro e que ainda tinham parentes sofrendo lá no sertão.
Esta semana, as imagens fortes da seca nordestina voltaram a habitar meus pensamentos. Recebi um relato desalentador do padre Djacy Brasileiro, de Pedra Branca (PB), um incansável batalhador. O relato veio recheado de impressões de sertanejos colhidas pelo padre em suas andanças pelo semiárido. “O cenário é macabro, desolador. O querido torrão parece brasa. Tudo é sombrio, como se fosse um vale de lágrimas”, diz Djacy.

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Os relatos dos sertanejos ao padre de Pedra Branca dão a dimensão do flagelo “invisível” da seca. Longe dos holofotes da Lava Jato, e sem a repercussão da onda criminosa de lama em Mariana, o sofrimentos dos sertanejos, por eles mesmos:
“Sei não, estou com 84 anos, nunca vi coisa igual. Antigamente havia seca, mas como agora, nunca vi.”
“Como fazer a janta, se não tem um pingo d’água? Hoje a janta vai ser refrigerante com pão.”
“Quando falta água do carro-pipa, o jeito é a gente tomar água salobra. Depois que a gente bebe, a gente come rapadura para tirar o gosto do sal.”
“Meu gado está morrendo de fome. Não tenho dinheiro para comprar ração. Não sei o que faço. Tenho vontade de chorar quando vejo meu gado com fome e sede.”
“O leite acabou. O gado com fome e sede não dá leite. Acabou mesmo.”
“Na minha rua, algumas pessoas trocaram murros por conta de água. Cada um quer pegar sua água, só que não tem para todos, e aí começa a confusão. Menino chora, mulheres discutem e alguns homens vão logo para a tapa.”
“Onde eu moro, três horas da madrugada já tem fila grande de gente para pegar água. É um Deus-nos-acuda.”
“Quem pode comprar uma carroça d’água ainda vai, e quem não pode? Um carro-pipa particular mais de cem reais.”

Postado por Alexandre Medeiros às 5:18 pm
3 de novembro de 2015

55, ou quase, a caminho de casa

Eu não nasci de véspera. Mas guardo em mim uma ansiedade ancestral. Talvez isso atraia, como um imã, as conotações do porvir. Hoje vim caminhando na volta do trabalho, na antessala das minhas 55 primaveras, e fui colecionando migalhas de alegria. Na esquina de Conde de Baependi, dei de cara com a Nádia, feliz da vida, porque tinha conseguido finalmente liberar o empréstimo no banco para comprar, a duras penas, aquele apartamento na serrinha com que tanto sonhou. Caminhando até o ponto de ônibus do Largo do Machado, falamos da Claudia Lima e de sua recente viagem de autoconhecimento ao Caminho de Compostela, e da Nara, que acabou de conseguir um trabalho nessa batalha, que não está fácil para ninguém. Amém.

Veio o 184 e Nádia embarcou. Pela Rua das Laranjeiras agitada pensei que, depois do almoço, conversara por telefone com a Beta, e sua voz de menina, sobre os assuntos de família que a todos ora nos afligem, ora nos alegram. E que ouvira de Annamaria, nas distâncias de São Paulo, que o programa do fim de semana fora levar o cachorro ao veterinário e caminhar com uma amiga de museu em museu para enfrentar em vão as filas das exposições.

Em vão? Nem bem andei dois quarteirões para rever o Nelson Perez, parceiro de tantas jornadas atrás da notícia, numa mesa de bar, a espantar os rancores do dia. E com ele tomar duas cervejas a recordar das agruras de perseguir candidato a presidente na serra gaúcha, com jornal dentro das meias para conter inutilmente o frio, e a escapar de jagunços no sul do Pará, no encalço de uma boa história para contar. Se a gente não morreu daquela vez, pode esperar mais um pouco?

Do Nelson minha mente voou para o velho JB, onde tantos me ensinaram tanto. E aí lembro do Celso, que fez um crepe para reunir os amigos um dia desses, e que diz não ter medo da morte, e que vai levando a vida sem medo de ninguém. Do Kiko, arqueiro federado, que já foi alvo e flecha. E que hoje é arco. E do parceiro Marceu, que achou agora de cantar como se tivessem aberto a porta da gaiola da andorinha molhada. E ele virou sabiá.

Chego em casa e me enrosco nos cachos de Helena, esse perfume que perdura desde o berço. E logo chega a Cecília e sua voz grave a me chamar de pai e mandar botar a janta. E hoje mesmo o Francisco criou um grupo de WhatsApp só comigo e com irmãos, chamado de os “Medeirinhos”, em que uns zoam os outros, entre tarefas de escola, desenhos de TV e coisas que não entendo de jeito nenhum, mas que me divertem.

O celular apita e é o Bernardo dizendo que vai chegar tarde para jantar, está na autoescola. Encontro em cima da cama dele uns cadernos com as matérias da faculdade que começou esta semana. Com etiqueta e tudo.

Eu disse migalhas, meu Deus? Então não preciso mais que isso.

Postado por Alexandre Medeiros às 11:18 pm