Arquivos do mês: dezembro 2015

30 de dezembro de 2015

Que sejamos generosos como o Seu Ferreira

Sou adepto das coisas simples, da alegria que brota da batalha cotidiana. Neste ano que se encerra sob vaias e pragas por ter sido, para muitos, abjeto e renegado, daqueles que se faz questão de esquecer, chego ao limiar de 2016 com boas lembranças e uma boa dose de esperança, que sem isso não vivo. E com a convicção de que essa alegria que construímos no dia a dia, como diria Oswald de Andrade, é a prova dos nove.

rosas

Em 2015 consegui bater perna no Cadeg, suar bicas nas estreitezas da Saara, ir ao Bip Bip ouvir bons sambas e papear com Alfredinho. Dei-me ao luxo de comprar uma vitrolinha azul portátil, e com ela resgatar LPs guardados há tempos, tipo a trilha do espetáculo Rosa de Ouro, com Aracy Cortes e Clementina de Jesus. Vi o Fogão ser campeão, fiz trilha na Floresta da Tijuca, tomei banho na Cachoeira das Almas e andei de caiaque na Praia Vermelha. Teve piquenique no Aterro, comi baião de dois na Feira de São Cristóvão, e jiló frito em Oswaldo Cruz. Meu filho mais velho passou para a faculdade, minha filha mais velha fez 15 anos, todos estão com saúde, amém.

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Sob o prisma da simplicidade, 2015 não foi tão mal assim. Perdi amigos queridos, é verdade. Mas reencontrei outros, e me reaproximei de alguns de quem me afastara. Perdas e ganhos, assim é a vida. Por isso acho 2015 um ano como qualquer outro, com coisas a lamentar e a saudar. Experimente, por exemplo, dar uma olhada no álbum de fotos do seu celular, ou encostar-se ao balcão do seu boteco preferido e lembrar com algum amigo de fé o que se passou neste ano que se despede. Vai achar coisa boa.

Tenho uma tendência a valorizar as boas lembranças. Não que as más sejam apagadas. Mas essa tática de levar a vida deixa meu coração mais leve, sem mágoas a acumular – como me ensinou Tia Eunice da Portela, Deus a tenha.

 

 

Guardo na memória uma cena que vivi no armazém do Seu Ferreira, ali pelos meus sete ou oito anos. O balcão onde o gato dormia era mais alto do que eu, e tinha de levantar a cabeça para admirar o baleiro imenso, com olhos ávidos. Entre engradados de madeira, cascos de cerveja, sacos de batata e de cebola, o baleiro girava que nem carrossel de parque de diversões. Sempre que podia, meu pai comprava uma bala. Mas nem sempre o dinheiro dava. E foi numa dessas vezes da penúria que Seu Ferreira, com aquela camiseta regata branca e seus tamancos de madeira, enxotou o gato, me colocou sentado no balcão, rodou o baleiro e deixou que eu escolhesse a bala Juquinha, abrindo aquela tampa de metal.

Saí dali flanando nas nuvens da Rua do Russel, na divisa de Glória com Flamengo. O gesto simples e generoso de Seu Ferreira inundou a Baía de Guanabara, o Rio inteiro, e não saiu mais da minha vida. Aquela alegria com sabor de bala Juquinha carrega com ela a generosidade, a camaradagem, a leveza d’alma. Desejo essa alegria a todos nós em 2016.

Postado por Alexandre Medeiros às 2:10 pm
24 de dezembro de 2015

Com ou sem crise, a simplicidade é o princípio do Natal

Este ano não teve festa de Natal lá na firma. Com a crise, não pegava bem gastar dinheiro com festa. Descobri com alguns amigos que várias empresas suspenderam as tradicionais festas de fim de ano, aquelas em que sempre algum colega paga mico, canta a mulher do chefe, cai bêbado no salão ou deixa o presente de amigo oculto com o garçom. Economizamos dinheiro, risadas e gozações com a crise. Mas ele nos deu um conselho de presente: é sempre bom lembrar que Natal não rima com ostentação, mas com simplicidade.

Certa vez, ao ser perguntado sobre opções de presente nessas famigeradas listas de amigo oculto, declinei com elegância. Sempre odiei essas listas. Além de cercearem a liberdade de escolha de quem vai dar o presente, elas tornam previsível o que, em essência, tem de ser surpresa. Ou seja, não prestam para nada.

Aqui em casa, há alguns anos, instado por meus filhos a apontar indícios mínimos de mimos de Natal, preparei uma lista. Como se trata de uma lista, digamos, permanente, ela atravessa períodos de bonança (raros), nos quais não me incomodaria em passar uma semana na Toscana, e de crise (fartos). Reproduzo-a aqui, a título de contribuição, e talvez ela reforce a ideia central deste e de todos os natais: a felicidade está nas coisas mais simples. Feliz Natal!

A lista:

  • Qualquer coisa que tenha a ver com o glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, de um chaveiro ou uma caneca a uma camisa oficial;
  • Um botão de jogar, de preferência os antigos de madrepérola, galalite, vidrilha de relógio ou casca de coco;
  • Lenços brancos;
  • Uma bermuda com bolsos do lado;
  • Um CD de samba, desde que seja de samba de raiz, algo como Candeia, Monarco ou Luiz Carlos da Vila;
  • Um fusca 1972, em bom estado;
  • Uma semana na Toscana com todas as despesas pagas;
  • Duas semanas em São Miguel dos Milagres (AL), idem;
  • Três semanas num chalé na Serra da Mantiqueira, idem;
  • Um tamborim, um atabaque ou um pandeiro;
  • Um chapéu panamá;
  • Um bom livro;
  • Fotos antigas do Rio de Janeiro;
  • Uma caixa de guardar coisas;
  • Uma frigideira grande;
  • Temperos do mundo inteiro, com predileção por pimentas;
  • Um barco a remo;
  • Uma foto de lambe-lambe;
  • Mudas de orquídeas;
  • Um bom vinho tinto;
  • Um tênis de corrida;
  • Um soldadinho de chumbo;
  • Uma cachaça mineira;
  • Enfeites de árvore de Natal, em especial os feitos a mão;
  • Um santo de madeira do seu Dito Santeiro, de Nazareno (MG);
  • Um puro malte escocês;
  • Um cata-vento;
  • Bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha;
  • Brinquedos de madeira do Círio de Nazaré;
  • Uma camiseta bacana;
  • Fotos de família emolduradas onde eu apareça com cara bem engraçada ou bem feliz.
  • Um atlas;
  • Qualquer coisa dos meus filhos, um desenho, uma carta, um poema, um beijo (se eu pudesse escolher um só item dessa lista, seria esse).

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Postado por Alexandre Medeiros às 11:37 am