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4 de fevereiro de 2016

No meio do caminho tinha um chapéu Panamá

Como escreveu o poeta de Itabira, nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Sei que andam “esquecendo” livros em praças, aviões, bancos de trem e metrô, movimento propagado pelas redes sociais. Gesto, aliás, salutar, para que os livros lidos troquem de mãos e encantem outras mentes. Mas o que dizer de um chapéu Panamá novinho em folha esquecido no banco do jardim, e no período de Carnaval? Pois o fato deu-se comigo há alguns dias.

Voltava do almoço, com aquela pressa insensata de chegar ao serviço, e ele estava lá, sozinho no banco, a me encarar. Olhei para um lado, para o outro, nada. Diminuí o passo, me afastei, passei pelo banco devagar, fiz que ia e voltei, que nem atacante a driblar o zagueiro. Sentei ao lado dele, como quem fosse puxar conversa, achando que o dono, lógico, ia aparecer em instantes. Com esse sol de rachar na cabeça, como é que alguém se esquece de um chapéu, e logo um Panamá, branquinho, novo em folha?

Sou cismado com essas dádivas fortuitas. Podia ser oferenda, simpatia, promessa, que eu tinha que me meter? A brisa quente de verão soprando mansa, aquela modorra de início de tarde. E o chapéu ali, balançando devagar.

A selfie do chapéu Panamá

A selfie do chapéu Panamá

Longos séculos se passaram, nesse tempo imensurável das agonias, e o chapéu passou a ser meu, à revelia. Um grupo cruzou a alameda e ficou me olhando, olha lá o malandro, de calça de tergal e tudo, com aquele chapéu de sambista, deve ser compositor, a camisa social azul, vai ver é da Portela. O boato foi se criando, na encruzilhada das horas. Eu já não sabia se deixava o Panamá ali, abandonado, ou se incorporava o personagem já então de fama alastrada no jardim – o de malandro tirando a sesta do almoço, rumo a uma roda de samba, Madureira, Oswaldo Cruz, quem sabe o Estácio, metrô aqui pertinho.

Mas como eu mesmo atentara momentos antes, o chapéu já era meu, à revelia. Dúvidas não mais cabiam. Tivesse antes outro dono o Panamá, que merecimento o sujeito teria se o deixara ali, largado à própria sorte? Se fosse promessa ou simpatia, já teria cumprido seu destino. Se fosse oferenda, devia ser para o Zé Pelintra, e o mandingueiro é do riscado, ia aprovar o Panamá no figurino de um amante do samba, da Lapa, do Rio de Janeiro. E onde mais nesse mundo de Deus alguém dá de cara com um chapéu Panamá assim, na Casa de Momo e às vésperas da festa pagã?

É com esse que eu vou. Bom Carnaval!

Postado por Alexandre Medeiros às 4:56 pm