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22 de março de 2016

Pra não dizer que não falei de flores no meio dessa crise

Não tenho quase nada em comum com o prefeito Eduardo Paes, muito antes pelo contrário. Afora o fato de sermos ambos cariocas e portelenses, meus gostos, ideias e convicções passam longe do alcaide, e vice-versa. Não tenho nada contra Maricá, por exemplo, nem contra Araruama ou Saquarema. São cidades simpáticas e acolhedoras. Vai ver tenho alma de pobre, que nem o Paes falou do Lula, porque passei boas férias com meus pais em Itacuruçá e em Iguaba Grande, e gostei muito. E nem pedalinho tinha. Em Itacuruçá, a onda naquela época era colocar as crianças para andar de burrico. Tenho até foto em cima de um burro triste, eu soberbo como se fora John Wayne galopando um corcel apache naqueles filmes do John Ford.

Também acampei muito em Conceição do Jacareí, que, assim como Itacuruçá, é distrito de Mangaratiba, naquela sucessão de refúgios ao longo da Rodovia Rio-Santos onde milhares de pessoas com alma de pobre gastam sua felicidade a preços mais em conta do que na vizinha de alma rica Angra dos Reis. Se o prefeito não tem todo esse apreço por Maricá, imagino em que patente deva estar Mangaratiba em sua hierarquia de preconceitos.

Não obstante minhas boas lembranças e minha alma de pobre, esta não é uma crônica de desagravo às cidades desancadas pelo Eduardo Paes, embora elas tenham toda a minha solidariedade. Tampouco é um arrazoado sobre as diferenças filosóficas, políticas e existenciais que me separam do prefeito – gosto mais da Tijuca que da Barra, e não defendo homem que bate em mulher, entre outros exemplos. Não, não é isso.

Imagine só, nesse grave momento da vida nacional, em que a crise econômica e política nos deixa com alma de hooligans prontos a encaçapar o primeiro que ousar divergir de nós, em que bloqueamos amigos no Facebook quando somos chamados de corruptos, ou de golpistas, ou ambos, não necessariamente nesta ordem, eu venho aqui para falar bem, elogiar, enaltecer uma obra do Eduardo Paes: a nova Praça Mauá.

Domingo na praça

Domingo na praça

Ou seja, nesses tempos de intolerância, esta é uma crônica repleta de altruísmo.

Vá lá num domingo qualquer, de preferência num domingo de outono, que é a estação em que o Rio mais resplandece, e veja como sua alma pode sair mais leve no meio desse vendaval. A praça imensa se abre para o mar, corre a brisa que vem da Baía de Guanabara. Famílias passeiam por ali, as crianças correm soltas. Domingo passado havia lá uma feira, a Carioquíssima, com gastronomia de qualidade, cervejas artesanais, artistas mostrando suas artes, boa música. No Museu de Arte do Rio vale muito a pena ver a exposição do Rio dos anos 1700 – e lembrar que, de tantos desmontes passados, chegamos aos desmontes do presente. O que se vê hoje na Praça Mauá é reconstrução, é um reencontro do carioca com parte do seu passado, com as ladeiras do Morro da Conceição a nos emoldurar.

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Até os trilhos estão de volta à Avenida Rio Branco. Não os do bonde de outrora, mas os do VLT. Passei por lá há alguns meses, quando tudo parecia uma escavação para mais uma estação do metrô, e domingo agora constatei que os trilhos já estão fincados, que as obras avançam. Não é possível que depois de caminhar pela praça, dar uma esticada na Ladeira do João Homem, e tomar uma cerveja no Bar Imaculada, você ainda tenha estado de espírito para praguejar contra o homem. Faço votos para que o esqueleto do prédio de A Noite um dia ressurja das cinzas e seja mais um ícone da nova – e boa e velha – Praça Mauá. De velhos e novos marinheiros.

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Postado por Alexandre Medeiros às 3:38 pm