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23 de maio de 2016

Ai de nós, Copacabana

Princesinha do Mar, não sei se é chegada a véspera de teu dia, como escreveu o mestre Rubem Braga, de quem doravante roubarei palavras sábias sobre ti. Mas sei que esse fim de tarde no Posto Seis, o vento cobrindo as pedras das ruas com folhas amareladas de outono, parece um sintoma do apocalipse que está por vir. Se o mar virá tomar tudo de volta, como seria muito justo, tampouco sei, mas enquanto não vêm os meros que se entocarão em tuas galerias, e nem chega a chuva que se anuncia, vou descansar os cotovelos cansados no balcão engordurado de caldo de mocotó da Sorveteria Solar. Como tuas aparências enganam a Humanidade há décadas e décadas, e antes que me perguntem ou pensem mal de mim, convém avisar que é mais fácil achar um padre confessando os seus pecados na Galeria Alaska do que um mísero sorvete na Sorveteria Solar.

O bom paraibano Geraldo, com sua voz de tenor, vem abrir a cerveja e oferecer ao freguês que não via há mais de ano o jornal O Dia com suas páginas desfraldadas por tantas mãos desde o primeiro café da manhã. Leitor fiel do brioso matutino, Geraldo ajeita o jornal como se esse gesto educado pudesse acrescentar ainda mais elegância àquela que ele trouxe na bagagem quando resolveu deixar a seca para trás e tentar a vida no Rio de Janeiro, para mais de légua no tempo que se passou. “Tem chovido lá na terrinha, Geraldo? ”, pergunto, com medo da resposta. Mas ele desanuvia a tarde com uma de suas tiradas de malandro: “Mais que aqui”.

Geraldo, o jornal e o balcão.

Geraldo, o jornal e o balcão.

 

Ai de nós, Copacabana. Quem dera o alívio da água que se prenuncia e desaba sobre Pombal, no sertão da Paraíba, onde o Geraldo menino fez de poça um açude, redimisse por aqui as angústias que desabam sobre nós. Não sei se muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares, mas sei que no boteco do Geraldo e do Baixinho, ele que diz que mora em Japeri quando está na hora de fechar, mas que vive mesmo é logo aqui na subida do Pavão-Pavãozinho, o conhaque sempre foi honesto o suficiente. E nem ele estancaria a saudade ao se saber que cerrou as portas a Figueiredo Camisaria e Alfaiataria.

A casa tradicional ficava aqui ao lado da Sorveteria Solar, na mesma galeria da Rua Francisco Sá, entre a Raul Pompeia e a Nossa Senhora, e foi-se embora depois que o Carlinhos, filho do famoso Figueiredo, bateu as botas e deixou a loja ao Deus-dará. Foi-se a camisa por encomenda, de tirar medida e escolher o pano, e também a escultura do Pequeno Jornaleiro que ornava a vitrine forrada de feltro, história e poeira. A camisaria fina virou uma pastelaria chinesa, por sinal da mesma dona daquela que funciona na esquina de Nossa Senhora com Sá Ferreira. Os chineses ainda hão de dominar o mundo, a começar por Copacabana.

Geraldo volta da cozinha com torresmos passados na hora, de cortesia. E vem com cheiro de gordura passada a má notícia. “Tivemos três desfalques no nosso time nesse breve tempo de sua ausência. Além do Carlinhos, foram embora o Jorge Tiroteio e o Gilberto marceneiro”. Gilberto era Botafogo como eu, feliz com suas conquistas parcas, mas épicas, e passou mal do coração fazendo um serviço ali na esquina, nem chegou a ser socorrido. Deus o tenha.

O Jorge foi internado também dos males da morada das paixões. Saiu, voltou, tombou, teve a família ao seu redor na derradeira despedida. A Sorveteria Solar ficou triste sem o gesto de pistola que ele fazia com o indicador da mão direita em riste a fuzilar algo que lhe desagradasse. Cabra bom de Orobó, no sertão de Pernambuco, nunca mais ele pisou no Riacho da Inveja de sua terra natal desde que veio para o Rio. O parceiro Geraldo acusou o golpe, e emudeceu quando viu minha reação, repetindo o gesto da pistola com a mão. Jorge nem tinha coragem de matar mosca, com sua voz enrolada de contar histórias sem início, meio e fim, e aquela doçura emboçada em doses de cachaça e copos de cerveja morna e sem colarinho. O gesto caricato virou marca de quem se foi sem ter merecido. A gente fuzilou um vazio naquela tarde imensa.

Ai de nós, Copacabana. Não se vê mais por aqui o Pedro Melo, de espírito tão dócil quanto irascível, a depender da quantidade ingerida de batidas de maracujá. O perfume da fruta já se confundia com ele. Pegou pneumonia, passou a não dizer coisa com coisa, a não reconhecer seus pares de balcão, e a família o levou para um exílio em Juiz de Fora, nas Minas Gerais. Ficamos sem suas observações ora pertinentes, ora inoportunas, mas sempre defendidas como um grito às margens do Ipiranga. Ele tinha uma pinta de imperador, ninguém há de negar.

Assim como o bom Pedro Melo, foi-se também a Kriskon, loja de discos na Rainha Elizabeth da Bélgica, que muitos pensam erroneamente ser a do Palácio de Buckingham. O velho Raimundo Nonato, com sua cara de árabe e sua paciência chinesa, não resistiu às crises em sequência. Conhecia bem o repertório de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Aracy de Almeida, coisa que por aqui só mesmo o Geraldo rivaliza em arcabouço. Nonato chegou a ter seis funcionários, mas ultimamente atendia sozinho aos fregueses esporádicos em busca de raridades em vinil ou em CD. E nem a cem metros dali fechou também o Bar e Lanchonete Silva Cruz, onde Mário Lago tomava café em xícara escaldada. Tinha até foto dele na parede. É muita coisa indo embora em pouco mais de um ano. Fechou até a Le Boy, pioneira da noite gay carioca. Dizem no Posto Seis que vai virar uma igreja evangélica. Ao que o Geraldo, com sua sabedoria ímpar, profetiza: “Esse negócio de igreja é o ramo que mais prospera nesses nossos tempos”.

Ai de nós, Copacabana. Na Alaska já há mais pastores que os restos de pipas voadas nas amendoeiras do Aterro, de Maria da Graça ou da Ilha do Governador, o que nos leva a crer que a profecia do Geraldo tem base na realidade. E a gente vendo essa inversão insana de valores até suplica, Copacabana: pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas. E canta a tua última canção pecaminosa que eu te acompanho, eu canto junto a plenos pulmões, que assim eu te reconheço e fico mais confortado. Melhor do que viver nessa estranheza de saudades e incompreensões. Prefiro os rebanhos aos pastores.

Ai de nós, Copacabana. Que a tua fama de promíscua perde fácil para as falcatruas de Brasília. Que chega a ser imerecido o juízo de valor que fazem às tuas meretrizes, que ganham ares de moças pudicas e trabalhadoras diante de nossos políticos investigados. A praga do cronista é um sonho meu recorrente. Há, sim, de chegar o dia em que o mar tomará tudo de volta. E se foste iníqua perante o oceano, Copacabana, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas, também a multidão um dia reavirá um amanhecer depois dessa noite feroz.

Ai de nós, Copacabana. Por que de ti, por mais duro que seja dizer, já não cabe pena, nem rancor. Como disse o poeta, em verdade é tarde para a prece. E vem chuva por aí.

Postado por Alexandre Medeiros às 10:21 pm