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16 de agosto de 2016

Olimpíadas, frango com quiabo e food truck

Como diz meu amigo Celso de Castro Barbosa, de tédio é que eu não morro. Ainda mais vivendo no Rio de Janeiro, cidade que me surpreende a cada esquina. Na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos, andei ali pela Avenida Marechal Floriano, que já foi Rua Larga, e que parecia a Atlântica tal a quantidade de gringos por quarteirão. A memória foi lá no século passado e buscou a cena do moleque de 18 anos, no final dos anos 1970, entrando na Impecável Maré Mansa para comprar seu primeiro terno para trabalhar, em prestações a perder de vista. Se ainda sobrevivessem as pensões nos sobrados onde tantas vezes pendurei o paletó cinza no gancho para encarar o arroz e feijão, juro que almoçaria numa delas.

Mas os restaurantes a quilo engoliram as pensões, onde as panelas ficavam no centro das mesas imensas. Não há de ser nada, o Centro ainda resiste. Embiquei na Rua da Conceição e cheguei ao Botequim do Joia, que já foi Café e Bar Rio Paiva, fundado em 1909, com seu pé direito alto, seu cardápio em quadro de giz, suas paredes cobertas com homenagens ao glorioso Botafogo de Futebol e Regatas e a deusas seminuas dignas de oficina mecânica, e o tempero caseiro de Dona Alaíde. Fica na esquina com a Rua Júlia Lopes de Almeida, que já foi Travessa Oliveira, tão pequena na extensão quanto gigante na homenagem a uma jornalista e escritora pioneira na defesa do feminismo. O frango com quiabo veio na medida certa para saciar a fome e enlevar a alma. Uma pessoa que cozinha como Dona Alaíde que Deus guarde e conserve.

Fogão

Joia A

 

Dois dias depois, andei ali pela Praça 15. E confesso que fiquei mais boquiaberto que turista japonês com a beleza do Boulevard Olímpico. Entre as praças 15 e Mauá, o contraste entre as antigas construções e os prédios modernosos como o RB 1 e a Bolsa do Rio produz um efeito de encantamento. Impressiona ver a Candelária soberba de frente para o mar, sem que a gente precise pedir licença a um viaduto para fazer o sinal da cruz. Foi ali na Praça Pio X, a Candelária por testemunha, que gastei meu terno cinza da Impecável debaixo de sol e chuva, nas agruras do cartão de ponto e da máquina de calcular de manivela, aprendendo a jogar no bicho, milhar cercada pelos dez e duque de dezena combinado, e a comer de pé em quinze minutos no balcão, prato feito e dinheiro contado. A vida dá voltas e estaciona onde pousa o coração.

Boulevard

Bem ali debaixo da torre da Candelária está a Pira Olímpica e seu fogo que não se apaga. É como se esse pedaço do Rio tivesse reaparecido depois de escavações arqueológicas como as que garimpam a memória reavivada por tantas evocações. Se o Chafariz de Valentim agora reina na revigorada Praça 15, ele que tantas décadas padeceu como abrigo de mendigos e mostruário de insensatez histórica, o que dizer do Tribunal Marítimo, com sua simplicidade de beira-mar? Logo a seguir o povo passa diante do Distrito Naval, onde os marinheiros de plantão ainda se desacostumam com a passagem de tanta gente pelos decks de madeira, como se fossem a qualquer instante levar bronca do oficial-de-dia.

Chafar

E a gente passeia pelo passado e pelo presente. Logo adiante da entrada exclusiva dos almirantes está um caminhãozinho que parece saído de cinema, com balcão de vaso de flor e tabuleta de cardápio com hambúrgueres e cervejas artesanais.  A gente aprende a chamar de food truck, mas é tipo a barraca do angu do Gomes que tantas vezes me salvou nas madrugadas sombrias da Praça 15, a barca da Cantareira despejando de volta no cais o moleque universitário de terno cinza na hora-extra da vida. E aí vem aquele sanduíche de carne de costela com molho de cerveja preta, e aquela gelada de trigo de fazer você sentar e ver a vida passar diante dos seus olhos, em várias línguas, molejos e alquimias. E onde senão nesse Rio de Janeiro reconciliado com sua história de maresias, brisas e pedras com limo? Onde mais?

A caminhada termina – termina? – no Morro da Conceição. Por trás do esqueleto abandonado do prédio d’A Noite, outra escaramuça que o tempo há de regenerar, as ladeiras de sonho parecem dar no céu. E dão mesmo, naquela imensidão de azul de inverno carioca, de bermuda e camiseta. Pena que é sábado e o Botequim do Joia está fechado. Se estivesse aberto, era até covardia um dia assim.

MC

Postado por Alexandre Medeiros às 10:51 am