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18 de novembro de 2016

Se a praça tem dono, o dono é o povo

A praça é, em sua essência, um espaço de convivência. E poucas praças no Rio de Janeiro expressam tão bem esse espírito como a Praça São Salvador, em Laranjeiras, sobretudo aos domingos de manhã, quando se torna palco de uma roda de choro que está prestes a completar dez anos. Foi ali, num coreto abandonado até então, que músicos capitaneados pela flautista Ana Caetano começaram a se reunir em 2007 para ensaiar. Nota a nota, a turma foi encantando uma legião de amantes da boa música e da convivência respeitosa. Jacob do Bandolim, liberdade, quermesse, amizade, Pixinguinha, Botafogo, Vasco, Fluminense e Flamengo, esquerda e direita, democracia, tudo cabe na praça se vier em paz. São domingos de enlevar a alma.

Não diria que sou suspeito para falar bem da roda. Sou culpado mesmo. Adoro choro, tenho um primo e alguns amigos que tocam sob a batuta da Ana, sou freguês da barraca do Luizinho e do barzinho da Marlene, acho um momento épico carioca o bater de pratos que encerra o hino Santa Morena. Foi na roda de choro da Praça São Salvador, no Dia das Mães de 2014, que ouvi a mais bela interpretação do Carinhoso – me desculpe, Cauby –, com um coro de dezenas de vozes em dissonante harmonia. E usei este mesmo espaço de Cenas Cariocas para contar como foi na crônica A Felicidade cabe em uma praça.

Ana e sua turma não ganham nada com o show. Tocam por prazer, de graça, com alegria e camaradagem. Nem chapéu para o troco da cerveja eu vejo passar. Só um livro levado como relíquia por um dos fãs da roda, que eu já devo ter assinado mais de dez vezes. Do sucesso da roda se revitalizou a praça, o coreto ficou até ajeitado, veio a feira de artesanato na esteira. Conheci uma penca de artesãos de mão cheia por ali. Fora os chefs de primeira linha, como o Pedro Motta. A gente pode ouvir um choro do Jacob e comer um prato de arroz de pato. Quer mais o quê?

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Ocorre que, de uns tempos para cá, essa harmonia anda ameaçada. Rolaram até propostas de cercar a praça e transferir a roda de choro para o Aterro do Flamengo. Nada disso vingou, por enquanto. Mas, em meados de abril, indignada com as propostas, a Ana postou um comentário em tom de desabafo na página do Arruma o Coreto – este o nome da roda – no Facebook. Um senhor que se diz “organizador” da feira de artesanato se sentiu ofendido pela postagem e está processando criminalmente a flautista, pedindo indenização.

Não conheço o xerife, nem faço questão de conhecer, mas não me parece razoável que um espaço público possa ser delegado a um ente privado, que negocia os espaços dos expositores e “vende” segurança – essa uma prerrogativa, até provem em contrário, da PM e da Guarda Municipal. Mostra, por outro lado, uma ausência do poder público municipal.

Ninguém quer briga na praça. A roda, os artesãos, os frequentadores merecem ter seu domingo sagrado em paz.

Postado por Alexandre Medeiros às 7:42 pm