30 de dezembro de 2016

De tristezas e alegrias

Chega fim de ano e lá vem vidente fazer previsão, comentarista chutar prognóstico, jornal publicar retrospectiva e cronista arriscar palpite para o ano que vai chegar. No balanço dos 365 dias que se encerram, todos desejam que janeiro traga novas esperanças, que de angústia o mundo está cheio. Esse 2016 que vai embora, com fama de traiçoeiro, credo em cruz, além dos dramas pessoais e das contas a pagar, trouxe catarses coletivas, como Lava Jato, impeachment de presidente eleita, ascensão de vice sem voto, milhões de desempregados, estados falidos, peixe graúdo na cadeia. Trouxe a tragédia do voo da Chapecoense, e a inesquecível homenagem do Atlético Nacional e dos colombianos no Estádio Atanásio Girardot.

Perdi parentes e amigos queridos em 2016 – um deles, o Paulo Júlio Clement, estava no voo da Chapecoense. Foi embora tanta gente boa. O Cauby, o Naná, a Elke, o comandante Fidel, o Cruyff, o Capita. O Jorge Tiroteio, lá do Posto Seis. Tia Edith, da Portela, agorinha no fim de dezembro, e quem não lembra aquele macarrão com carne assada na Feira das Yabás? Muita gente na Rua da Amargura, fazendo biscate para sobreviver, as dívidas lá nas alturas. E bota a fé no avestruz, na borboleta, a milhar cercada pelos dez, a mega da virada.

Eu prefiro sempre lembrar as alegrias, por mais que as tristezas pareçam soterrar os sorrisos. Das pequenas alegrias embutidas num gesto, num carinho, numa palavra. No abraço de um amigo, no olhar. Desse 2016 que geral quer escorraçar, eu levo algumas dessas alegrias para acreditar que elas se renovarão em 2017. São esses momentos que nos movem para frente quando tudo parece ruir.

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Olha esse. O embrulho miúdo prenunciava, mas ele fez questão de dizer ao dar o presente: “É só uma lembrancinha”. Um chaveiro com a inscrição “pai só tem um, e como o meu, nenhum”, um abraço apertado e um beijo. Fico tão feliz nesses momentos do Natal que me atordoo, e nem percebi que dentro do embrulho tinha um papel dobrado. Preparei o lenço, pois imaginei que se tratava de um bilhete de Natal desses de fazer pai chorar na frente da família inteira. Mas não. Era o boletim do Francisco. A menor nota era 8. O olhar dele e o riso sem graça quando mostrei o boletim a todo mundo eu vou guardar para sempre.

 

A Cecília sem graça quando eu assobiei bem alto na sua formatura do colégio. O churrasco dos primos lá em São João de Meriti. As caras de pedinte da Helena implorando pra ir às festas. O Bernardo de camisa social indo pra Pavuna, tipo vice-presidente da empresa júnior da faculdade. As gargalhadas da Nara quando faço palhaçada, a nossa feijoada repleta de amigos e a parentada toda. As manhãs de caminhada no Aterro, dar de cara com o Pão de Açúcar sendo despertado pelos primeiros raios de sol sobre a Baía da Guanabara. O Celso falando mal do Temer no Facebook. Por falar nisso, fora Temer. Escrever um capítulo do livro que um dia vai sair. Almoçar com o compadre na Saara. Andar com a Cecília pela Saara e comprar mais uma vez um carregador de celular na loja do chinês, pão árabe e uma toalhinha da Portela para enxugar o suor nos blocos de carnaval.

Pensando bem, as pequenas alegrias é que soterram as tristezas. Feliz 2017 para todos nós.

Como diz a letra de Juízo Final, o sol há de brilhar mais uma vez

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Postado por Alexandre Medeiros às 12:16 pm