12 de janeiro de 2017

Vale o impresso!

Aprendi a jogar no bicho com meu primeiro chefe, o Charles Boyer, o francês mais carioca que conheci. Ele usava óculos de fundo de garrafa, a camisa social sempre dobrada nas mangas, o andar rápido em meio ao mundaréu de gente no Centro da cidade. Ele tinha uma malandragem intrínseca, devia ser de Marselha, nem lembro se perguntei isso a ele. Era um personagem de Jean Genet. Pois foi ali nas cercanias da Praça Pio X, a Candelária como testemunha, que o Boyer me ensinou a cercar a milhar pelos dez, a fazer um duque de dezena combinado, a apostar na milhar do talão por desencargo. Certa feita fiz um jogo sozinho, ganhei uma merreca, e mostrei ao Boyer, crente que estava abafando. Ele olhou e sentenciou: “Burro, só jogou no grupo? Podia ter ficado rico”.

Fico imaginando como o Boyer reagiria ao ver que a era digital chegou ao jogo do bicho. Eu mesmo me senti um tanto desconfortável ao ver que o apontador, no lugar do bloco e da caneta, empunhava um celular. “Pois não?”. Nada daquela letra caprichada desenhando os números da milhar dos sonhos, nada daquele carbono azul para fazer a cópia, nada de apostar no talão. Não tem mais talão! Não vale mais o escrito! Feita fezinha, o apontador (melhor agora ser chamado de digitador) transmite a aposta de celular para uma maquininha impressora e te entrega um comprovante que nem esses de cartão de crédito depois de compra em loja. Simples assim.

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Pergunto ao apontador, velho de guerra, se ele gosta mais do método atual ou do antigo. “A gente não teve escolha. Era isso ou isso”. Com essa crise, nem apontador tem mais emprego garantido, e o jeito foi aprender a usar o programa de apostas pelo celular. Tem até surpresinha, que nem loteria da Caixa. Coisa fina.

Ah, sim. Também não precisa mais o “deu no poste”. Isso é coisa do passado. Agora o resultado sai pela internet. Não arrumei nada com meu duque de dezena de leão com jacaré. Deu macaco na cabeça. Por dentro, deu camelo, coelho, touro e carneiro. Já sei, Boyer, já sei. Se você estivesse lá comigo, eu podia estar rico.

Postado por Alexandre Medeiros às 3:06 pm