24 de fevereiro de 2017

Com que roupa?

O mais legal do Carnaval é a fantasia, aí entendida em seu sentido mais amplo. É a celebração subversiva do status quo nos quatro dias de liberdade que só terminam na ressaca da Quarta-Feira de Cinzas. A realidade sucumbe ao sonho, a ordem vira anarquia. Eu já saí no Carnaval de médico, jaleco branco impoluto, estetoscópio de Saara no pescoço, seringa cheia de água. Nas costas, uma placa: “SUS, Seu Último Suspiro”. Um respeitável médico perdido no meio do bloco. Um senhorzinho me parou para tirar foto: “Lembra de mim, doutor? Foi o senhor que me tratou. Eu fiquei esse traste aqui”. Rimos muito. Isso é Carnaval.

Fantasia pode ser um adereço no cabelo, e pode ser um manto de faraó. Mas é, antes de tudo, uma conduta, uma postura (ou uma descompostura). O que importa é que seja uma motivação para a alegria. É um sufoco, reconheçamos, sambar no Bola Preta dentro de uma fantasia de gorila. Mas o sujeito lá dentro está feliz? É o que vale. Teve um ano em que me acabei no Boitatá vestido de sheik árabe. Tal era o calor que, talvez influenciado pelo traje, vislumbrei no Chafariz de Mestre Valentim um oásis no deserto do Saara. Descobri também que fantasia de sheik não é apropriada para banheiro químico. É muita roupa e muito adereço para pouco compartimento. Mas quando a banda tocou Allah-La Ô, teve até súdito fazendo reverência ao sheik na saída do banheiro. Isso é Carnaval.

Saara, sempre

Saara, sempre

A dúvida eternizada por Noel Rosa se abate sobre os foliões às vésperas de mais uma folia: com que roupa que eu vou? Como o calor anda mesmo de deserto do Saara, uma boa opção é sair de arrumadeira. Roupa leve, o espanador pode servir de leque, aquele frasco de detergente pode ser um bom borrifador de água no meio do sufoco. Fica a sugestão.

Outra boa: índio aculturado. Nesses tempos terríveis de patrulha ideológica, de bloco vetando marchinha pra ser politicamente correto (e Carnaval pode ser tudo, menos politicamente correto), uma boa postura de resistência (e ainda serve para ocultar as gordurinhas a mais) é vestir uma camiseta e uma bermuda, colocar um cocar, um colar e sair por aí com um apito: sim, senhores, índio quer apito e se não der pau vai comer. Para os que estão em boa forma física, a camiseta e a bermuda são prescindíveis. Mas aí não é mais índio aculturado.

Tem uma fantasia que nunca esteve mais em voga. A de presidiário. Blusa e calça de cetim, pano leve e listrado, aquele código de 171 no peito. Acho que vou nessa, em homenagem a homens da envergadura de um Sérgio Cabral Filho, de um Eike Batista. Eles merecem. É isso, lacrou. Este ano vou incorporar o personagem daquele samba do genial Assis Valente. Vestir uma camisa listrada e sair por aí. Bom Carnaval!

A fantasia invade a realidade. Sempre

A fantasia invade a realidade. Sempre

Postado por Alexandre Medeiros às 1:14 pm