10 de abril de 2017

A Maria Eduarda que eu conheci

Quando eu era professor de uma oficina de Reportagem no Morro de Mangueira, lá pelos idos de 2001/2002, Maria Eduarda chegava sempre atrasada na aula, trazendo no colo a Joyciane, sua filha de seis meses, vestida como uma boneca da Estrela. Ela dizia que boneca foi brinquedo que não ganhou quando era menina, então a filha ela vestia como a boneca que nunca teve. A bebê era um doce, dormia solenemente mesmo com a algazarra da sala, as outras alunas brigavam para ver quem segurava a menina no colo. Maria Eduarda se chamava Joyce, tinha 13 anos, vivia com a mãe e a bebê num barraco na parte do morro chamada Três Tombos, e nunca mais soube do pai da criança, que teve de sumir da área. Não tive mais notícias da Joyce, mas não esqueço seu olhar de menina olhando sua boneca da Estrela de carne e osso.

Quem sempre chegava primeiro na aula, já estava lá quando eu dobrava a curva da Rua Visconde de Niterói, era a Maria Eduarda. Ela morava no sobrado ao lado da oficina com uma tia, tinha o caderno com a letra mais caprichada da turma, e uma vontade de aprender que chegava a emocionar o professor. Ficava depois da aula tirando dúvida, buscando exemplos, mostrando as tarefas. Teve uma vez que desenhou um mapa do morro tão perfeito que incluí o desenho no livro que os alunos escreveram no fim do ano sobre a comunidade. Telégrafo, Olaria, Candelária, Largo do Careca, Três Tombos, Barreira da Poló, Joaquina, Chalé, Buraco Quente, Santo Antônio, Grotão, Faria, Saloba, Elvis. Quantas andanças. Maria Eduarda se chamava Pâmela, tinha 12 anos, e na noite do lançamento do livro levou a tia, que era como se fosse uma mãe para ela. Nunca mais tive notícias da Pâmela, mas seu sorriso de orgulho no dia do lançamento eu não vou esquecer.

Maria Eduarda não levava desaforo pra casa. Algumas vezes tive de intervir no meio da aula para que ela parasse de bater boca com algum desafeto. Tinha aparência de invocada, mas bastava conversar com ela alguns minutos depois da aula para entender que a sisudez era uma defesa, que na verdade ela queria era sorrir. Maria Eduarda era uma das líderes da equipe de Educação da oficina, e gostava de circular pelo morro procurando pessoas que nunca tinham estudado, sobretudo as mais velhas, porque ficava intrigada com quem havia chegado tão longe sem saber letra. Nessas incursões, ela descobriu que tinha muita coisa a aprender com quem não sabia letra, mas que aprendeu muitas lições na sala de aula da vida. Maria Eduarda se chamava Maybe Andreza, tinha 13 anos, porte de jogadora de basquete e sonhava em ser professora.

Todos os irmãos de Maria Eduarda morreram nas trincheiras do tráfico de drogas. Nenhum deles passou dos 18 anos. Maria Eduarda era uma sobrevivente tímida, opaca. Começou a frequentar as aulas obrigada pela avó, que não queria vê-la à toa pelo morro antes e depois das aulas no Ciep Nação Mangueirense. Maria Eduarda ficava no fundo da sala, não falava com ninguém e nem quis fazer parte de equipe nenhuma. Mas aos poucos foi gostando das crônicas que eu levava para mostrar na sala, dos recortes de jornal, até me pediu um volume de contos que pudesse ler em casa. No livro que a turma escreveu no fim do ano, ela se comprometeu a escrever crônicas livres, e falou sobre tráfico de drogas, discriminação racial, sobre as pessoas que não têm plano de saúde. Maria Eduarda se chamava Marcos Paulo, tinha 16 anos, e gostava muito de sua avó.

Maria Eduarda tinha 13 anos e foi assassinada com quatro tiros de fuzil, ao que tudo indica disparados por policiais militares, quando fazia uma aula de Educação Física no pátio da Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, em Acari, na Zona Norte do Rio, no último dia 30 de março. Podia ser uma mãe adolescente, como a Joyce, e vestir sua filha como uma boneca. Podia ser uma aluna que perguntava tudo, como a Pâmela, ou ter aparência de invocada, como a Maybe Andreza. Podia ser uma sobrevivente, como o Marcos Paulo. Não teve tempo. E de todas as Marias Eduardas dessa história, ela é a única que eu não conheci, e a única que eu sei onde está. Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, está enterrada no Cemitério Jardim da Saudade, em Edson Passos, Mesquita, na Baixada Fluminense. Mas ela devia estar aqui.

Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, assassinada.

Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, assassinada.

Postado por Alexandre Medeiros às 9:56 pm