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1 de maio de 2017

Desculpe o transtorno: Você conhece o Miguel?

Eu não conhecia o Miguel. Li no jornal que ele foi assassinado a tiros a duas quadras aqui de casa, na movimentada esquina de Rua das Laranjeiras com Pinheiro Machado, a uns 200 metros do Palácio Guanabara, onde sempre fica estacionada uma patrulha da Polícia Militar do Rio de Janeiro, supostamente para zelar pela segurança do governador e negligenciar pela segurança dos demais. Miguel foi morto em uma tentativa de assalto na madrugada de sexta-feira, 14 de abril de 2017. Dois bandidos de moto o abordaram quando ele estava em sua moto com a namorada na garupa. Era a primeira volta que ele dava com a moto. Os bandidos nem levaram a moto. Só levaram a vida do Miguel.

Era filho e neto de comerciantes libaneses que se estabeleceram com loja de roupas no Catete pelos idos dos anos 1960, quando o Catete se intitulava “o melhor bairro do mundo”. E era mesmo, Miguel Ayoub Zakhour tinha 19 anos e amava motos desde criança. Devia ser gente boa, pena que não o conheci. Pelas conversas aqui pelas redondezas, a turma o descreve como bom filho, bom aluno, cheio de amigos, daqueles meninos que dá bom dia pra gente no elevador. Muitos desses amigos que ele fez ao longo de sua curta existência fizeram uma homenagem há alguns dias na Rua das Laranjeiras, num fim de tarde. Foram eles que pintaram um mural bacana para lembrar o amigo na esquina em ele foi atacado pelos bandidos. Há vasos de flores novos ali toda semana.

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Eu não conhecia o Miguel, mas conheço o Luca. Tem 19 anos também, é neto e filho de italianos, tem um sorriso fácil, estuda Relações Internacionais e sonha em ser diplomata. Quando tem jogo da seleção italiana, o Luca grita da janela do prédio onde mora quando a Azurra faz um gol, que nem eu faço em jogo do Botafogo, com a ressalva, no caso dele, de os vizinhos não acharem que se trata de um incêndio.

O Luca é um dos melhores amigos da Paloma, que também tem 19 anos. Ela estuda Psicologia na PUC e está fazendo estágio em uma casa de recuperação em Botafogo para pessoas com problemas que vão desde a depressão ao alcoolismo. A Paloma deve estar aprendendo à vera como tem gente com problemas nesse mundo. Ele tem um sorriso lindo de covinhas, adora crianças e, de uns tempos para cá, virou vegetariana. Outro dia pedi para fazerem um quibe de forno de legumes porque soube que ela ia jantar lá em casa. A Paloma parece uma menina que eu só conheço de vista, e que mora no prédio onde eu morei na Rua Pereira da Silva, e que todo dia passa de uniforme do Colégio Pedro II naquela mesma esquina onde o Miguel foi visto pela última vez. A Paloma e a menina do Pedro II andam como se pudessem voar.

A Paloma é namorada do Bernardo, que é meu filho mais velho. Ele vai fazer 20 anos daqui a alguns dias, está cursando Administração na UFRJ. Vai de ônibus para a faculdade onde eu sonhei estudar um dia, só porque fica na Praia Vermelha, que é um dos lugares mais bonitos do mundo. Eu só fico tranquilo quando ele ao menos me passa uma mensagem de celular para dizer onde está, se vai jantar em casa ou se quer que deixe a comida na boca do fogão, essas notícias que acalmam a gente que é pai numa cidade violenta como o Rio de Janeiro. Ou como Recife, Salvador, São Paulo ou Duque de Caxias. Quando eu posso abraçar o Bernardo, eu vejo como sou incapaz de imaginar a dor do pai do Miguel. Dá uma tristeza tão grande que eu fujo desse sentimento para não sucumbir.

No dia da passeata que os amigos fizeram para o Miguel em Laranjeiras, eles distribuíram um folheto com o título desta crônica. No texto, eles pediam desculpas por atrapalhar o trânsito na hora do rush e falavam sobre o amigo: “Miguel era simplesmente uma pessoa maravilhosa, não tinha um inimigo. Todos sentem sua falta. No Brasil, todo dia tem um Miguel diferente fazendo falta por aí. E nós te perguntamos: até quando? Nós queremos uma atitude dos governantes que realmente seja eficaz sobre quem comete crimes de tamanha crueldade. Nós precisamos de uma resposta”.

Eu não acredito nas respostas dos governantes. Um dia depois da morte do Miguel, uma patrulha da PM estacionou ali debaixo do viaduto onde o menino foi assassinado, como se isso pudesse redimir o passado e preservar o futuro. Nem uma coisa, nem outra. Eu acredito mesmo é nos amigos do Miguel, no Luca, na Paloma e no Bernardo.

Eu acredito no Miguel. Pensando bem, eu conhecia o Miguel. Ele foi um mais um menino que poderia mudar o mundo.

Desculpem o transtorno.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:53 pm