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18 de julho de 2017

A crise, a desfaçatez e o caldo de mocotó

Raimundo é um piauiense porreta que vive há décadas no Rio de Janeiro, mas não se esquece da terrinha. Todos os dias ele levanta às quatro e meia da manhã para abrir seu boteco em Laranjeiras, e vai percorrer a cidade em busca das melhores ofertas para os produtos que usa no preparo do almoço que sacia a fome de porteiros, manicures, comerciários, pintores de parede, pedreiros e outros trabalhadores da região que não têm vale-refeição e pagam barato por comida honesta e farta: carne assada, costela, baião-de-dois, filé de peixe, calabresa, frango caipira.

Com sua moto guerreira, Raimundo vai a mercados e feiras em Benfica, Irajá, Centro, Maré, São Cristóvão. Roda a cidade e volta com uma caixa de papelão na garupa com os ingredientes que o cozinheiro Paulinho trata com carinho na minúscula cozinha do boteco. Alho é sempre sem pena, que tempero não tem preço. O baião-de-dois do Paulinho é famoso na área. Só não é mais famoso que o caldo de mocotó: a tigela grande a R$ 9 levanta até quem já foi. Na caixa de som, a briosa Rádio Imperial FM, da não menos briosa cidade de Pedro II, traz as notícias do Piauí. Às seis da tarde, sem erro, toca a Ave-Maria. Amém.

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Às vezes o Raimundo se distancia do mundo ouvindo as notícias de Pedro II, considerada a “Suíça piauiense”, cravada lá para os 600 metros no alto da Serra dos Matões, onde consta que a temperatura raramente passa dos 30 graus. Isso para o Piauí equivale a uma Bariloche. Há o noticiário dos que se foram, os finados, em hora de se fazer o sinal da cruz de Cristo e ficar contrito, os informes de velório em casa e sepultamento, com as condolências da emissora. Talvez nessa lonjura de Rio de Janeiro, onde 30 graus são uma bênção se comparados ao purgatório de Teresina, Raimundo fique ali atento a reconhecer algum nome familiar nas horas da despedida.

A saudade se perpetua nas alegrias e nas tristezas.

Na hora do almoço as cinco mesas do estabelecimento ficam cheias. Ou melhor, ficavam. A clientela do Raimundo tem rareado nos últimos tempos. Não que os fregueses tenham achado lugar mais barato para comer: a questão é que nem todos podem se dar ao luxo de ter uma refeição completa no almoço todos os dias, ali pela casa dos R$ 15,00. Um salgado e um refresco enganam a fome nas barraquinhas das esquinas, e vida que segue. A grana está curta. Não dá mais para almoçar, tomar a cervejinha e o quente no fim do dia, pagar a passagem e ainda sobrar algum para a feira. O sujeito tem que estabelecer prioridades, e como cantou o Chico Buarque numa canção de outrora, sem a cachaça ninguém segura esse rojão.

Raimundo vem contradizendo com seu dia a dia uma pérola que o “presidente” Michel Temer (as aspas são minhas) cunhou dia desses numa reunião com os grandões da economia lá na Alemanha: “Não existe crise econômica no Brasil”. Só não existe para ele, envolto em cifras milionárias e em tramas de garagens e subsolos. Para o Raimundo, que tem dificuldades para entender o que é desfaçatez porque cresceu aprendendo a ter vergonha na cara, que lida com a raia miúda e com o miserê nas carteiras surradas, existe sim. Não faz muito tempo, ele gastava 15 quilos de arroz por dia para preparar a boia da rapaziada. Agora, não gasta nem dez. Não é que nem expectativa de inflação pelos institutos oficiais. É a real.

Como não tem dinheiro para comprar fregueses como tem o Planalto para conquistar a simpatia dos ilustres deputados, o Raimundo vai levando a vida na corda bamba, com sua moto em ziguezague atrás de uma costela mais em conta que o Paulinho vai transformar em iguaria dos deuses.

Dos deuses, não. Dos homens. Que nos botecos da vida os deuses não se criam, e ainda teriam de pedir a bênção ao São Jorge que a todos guarda, um dragão por dia para matar, e entrar na fila do mictório com cheiro de Pinho Sol vencido – isso com sorte.

Mas enquanto houver o caldo de mocotó do Paulinho, a vida continua. Aqui e no Piauí.

Postado por Alexandre Medeiros às 12:00 am