8 de setembro de 2017

Com Aldir na Rua do Ouvidor

Alguma coisa acontece no meu coração quando cruzo a esquina de Primeiro de Março com Ouvidor. Não é um estranhamento como o de Caetano quando cruzou a Ipiranga com a Avenida São João. Não é um sobressalto. É uma sensação de alegria, um encantamento com aroma das pedras do cais. Tudo por ali é familiar, mesmo que não seja. Como se as minhas vidas acumuladas em tantas encarnações desaguassem todas ali naquele estuário de cicatrizes.

Sábado agora fui levado pela maré até a Rua do Ouvidor por conta do lançamento da coleção Aldir 70, da Mórula Editorial, convite irrecusável da querida editora Marianna Araujo, ainda por cima com uma roda de samba com a simpática turma do Bip Bip, o melhor botequim do mundo. Você imagine uma roda de samba só com música do Aldir e de seus parceiros. Pois foi isso, e vire-se com um barulho desses. A multidão – pois tinha muita gente – cantando O Bêbado e o Equilibrista foi de arrepiar o quarteirão.

OUVIroda

Para completar a tarde, uma passagem obrigatória pela Folha Seca, livraria que parece saída de um conto de Machado de Assis na Rua do Ouvidor de outros carnavais, onde as mocinhas passavam apressadas com suas modas francesas. “Da Primeiro de Março falta um passo pra Ouvidor”, lembro o verso do samba do Salgueiro de 1991. Mais um passo e a rua se abre para o mar, no largo onde desponta o prédio horroroso em que funcionou a Bolsa de Valores. Bem ali, no número 12, ficava o saudoso restaurante A Cabaça Grande. O sobrado ainda resiste.

A multidão já se apropriou de todos os espaços em volta da roda de samba comandada pelo grande Gabriel Cavalcante, que conheci como Gabrielzinho da Muda, sem jamais entender o diminutivo diante da altura e do vozeirão do rapaz. O Samba da Ouvidor, que ele comanda, é hoje uma das maiores manifestações de rua da cidade, a galera ocupa o espaço público com atitude, harmonia e alegria. Quase como uma tentativa de homicídio a um sujeito com o coração combalido por tantas fortes emoções, o Gabriel puxa em sequência quatro sambas com a assinatura da Portela. E se eu for falar da Portela, hoje eu não vou terminar…

Abraço um sujeito que nunca vi mais gordo, que canta com o mesmo entusiasmo que eu os versos de Candeia, Monarco, Manacéia e outros bambas, como se ele fosse meu melhor amigo. E, naquele momento eterno, é mesmo. Há momentos em que o samba enleva de tal forma que a gente olha pra cima pra agradecer, enquanto um verso vai levando nossa voz para além dos sinos da catedral. Uma nesga de céu de inverno se abre acima dos sobrados com suas sacadas de tempos imemoriais. O peso do tempo se esvai na noite que abraça a Rua do Ouvidor.

Torre

Postado por Alexandre Medeiros às 2:41 pm