7 de novembro de 2017

A morte do Lavolho, o fim da Estudantina e outras descontinuidades

- Desculpe, senhor, mas esse produto foi descontinuado.

Foi assim, sem choro nem vela, que eu soube da morte do Lavolho. Para quem não lembra ou não conheceu, o Lavolho era um inofensivo colírio, desses que ressuscitam olhos de ressaca, noites mal dormidas, tristezas de se chorar muito. Diante de minha estupefação, a moça da farmácia quase me deu pêsames, olhou para mim com ares de assistente social e, depois de oferecer outros produtos “similares”, desistiu:

- Eu sinto muito.

Foi-se o Lavolho, e nem lembraram de me avisar, foi como se faltasse ao velório de um amigo de anos. Só falta agora acabarem com o colírio Moura Brasil.

Com a Casa Cruz, também descontinuada por esses dias, tive um prenúncio do fim. Em minhas habituais incursões à Saara, num sábado vadio, fui até o sobrado histórico do Largo de São Francisco em busca de uma inofensiva fita para máquina de escrever. As muitas prateleiras banguelas de produtos no imenso salão lotado de outrora, já ali com alguns gatos pingados pescando promoções, não permitiam outra visão: a boa e velha Casa Cruz, de portas abertas desde 1893, estava perto do fim.

- As fitas para máquina acabaram, a gente até pediu encomenda, mas não sei se vão entregar.

O tom de despedida da moça do balcão foi ainda mais dramático que o da menina da farmácia. Ali não era a fita da máquina que, por certo, nunca haveria de chegar. Era toda uma história de sentimentos tão límpidos quanto cheirar as folhas de papel almaço, abrir as embalagens dos lápis de cor, escolher as canetas para o próximo ano letivo, os papéis de encapar os cadernos de seis divisões: Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, Inglês. E aquelas etiquetas para escrever o nome caprichado, a série, a turma, o número na chamada. Número 4. Abel, Agostinho, Alberto, Alexandre. Dei uma olhada ao redor do salão, numa despedida. A moça entendeu:

- Eu sinto muito.

E quando a gente achava que já era muita descontinuidade para uma primavera só, foi-se a Estudantina. Se a Casa Cruz levou com ela um pouco da infância de muita gente, a gafieira da Praça Tiradentes, com seu salão de grandes janelas liberado aos passos dos mestres da dança desde 1942 (antes funcionava em outro local, desde 1928), levou com ela a juventude e a malandragem. Quantos olhares perdidos e achados ali debaixo da luz da lua entrando no sobrado, os bailes do sindicato, os passos errados, os pisões nos pés das moças. A orquestra, o conhaque barato, o fiscal do salão dando dura com um amasso mais forte. Lugar de respeito.

O salão da Estudantina

O salão da Estudantina

A crise econômica, o aluguel que aumentou, a violência da cidade, a falta de fregueses, a concorrência chinesa, as muitas explicações. Quando chega o fim a gente fica conjecturando os motivos. Mas é o fim. Foi assim com o Petisco da Vila, com o Al-Farabi, com o restaurante Couve-Flor do Horto, com o Bar Semente, só para citar alguns casos recentes.

Ainda bem que o Rio resiste. Mesmo com essas mágoas das descontinuidades afloradas. Enquanto houver praça, enquanto houver rua, enquanto houver gente disposta a se encontrar e repartir alegrias, a cidade vai resistir.

Ou alguém vai acabar com a primavera?

Postado por Alexandre Medeiros às 8:56 pm