Arquivo do autor:Alexandre Medeiros

8 de setembro de 2017

Com Aldir na Rua do Ouvidor

Alguma coisa acontece no meu coração quando cruzo a esquina de Primeiro de Março com Ouvidor. Não é um estranhamento como o de Caetano quando cruzou a Ipiranga com a Avenida São João. Não é um sobressalto. É uma sensação de alegria, um encantamento com aroma das pedras do cais. Tudo por ali é familiar, mesmo que não seja. Como se as minhas vidas acumuladas em tantas encarnações desaguassem todas ali naquele estuário de cicatrizes.

Sábado agora fui levado pela maré até a Rua do Ouvidor por conta do lançamento da coleção Aldir 70, da Mórula Editorial, convite irrecusável da querida editora Marianna Araujo, ainda por cima com uma roda de samba com a simpática turma do Bip Bip, o melhor botequim do mundo. Você imagine uma roda de samba só com música do Aldir e de seus parceiros. Pois foi isso, e vire-se com um barulho desses. A multidão – pois tinha muita gente – cantando O Bêbado e o Equilibrista foi de arrepiar o quarteirão.

OUVIroda

Para completar a tarde, uma passagem obrigatória pela Folha Seca, livraria que parece saída de um conto de Machado de Assis na Rua do Ouvidor de outros carnavais, onde as mocinhas passavam apressadas com suas modas francesas. “Da Primeiro de Março falta um passo pra Ouvidor”, lembro o verso do samba do Salgueiro de 1991. Mais um passo e a rua se abre para o mar, no largo onde desponta o prédio horroroso em que funcionou a Bolsa de Valores. Bem ali, no número 12, ficava o saudoso restaurante A Cabaça Grande. O sobrado ainda resiste.

A multidão já se apropriou de todos os espaços em volta da roda de samba comandada pelo grande Gabriel Cavalcante, que conheci como Gabrielzinho da Muda, sem jamais entender o diminutivo diante da altura e do vozeirão do rapaz. O Samba da Ouvidor, que ele comanda, é hoje uma das maiores manifestações de rua da cidade, a galera ocupa o espaço público com atitude, harmonia e alegria. Quase como uma tentativa de homicídio a um sujeito com o coração combalido por tantas fortes emoções, o Gabriel puxa em sequência quatro sambas com a assinatura da Portela. E se eu for falar da Portela, hoje eu não vou terminar…

Abraço um sujeito que nunca vi mais gordo, que canta com o mesmo entusiasmo que eu os versos de Candeia, Monarco, Manacéia e outros bambas, como se ele fosse meu melhor amigo. E, naquele momento eterno, é mesmo. Há momentos em que o samba enleva de tal forma que a gente olha pra cima pra agradecer, enquanto um verso vai levando nossa voz para além dos sinos da catedral. Uma nesga de céu de inverno se abre acima dos sobrados com suas sacadas de tempos imemoriais. O peso do tempo se esvai na noite que abraça a Rua do Ouvidor.

Torre

Postado por Alexandre Medeiros às 2:41 pm
18 de julho de 2017

A crise, a desfaçatez e o caldo de mocotó

Raimundo é um piauiense porreta que vive há décadas no Rio de Janeiro, mas não se esquece da terrinha. Todos os dias ele levanta às quatro e meia da manhã para abrir seu boteco em Laranjeiras, e vai percorrer a cidade em busca das melhores ofertas para os produtos que usa no preparo do almoço que sacia a fome de porteiros, manicures, comerciários, pintores de parede, pedreiros e outros trabalhadores da região que não têm vale-refeição e pagam barato por comida honesta e farta: carne assada, costela, baião-de-dois, filé de peixe, calabresa, frango caipira.

Com sua moto guerreira, Raimundo vai a mercados e feiras em Benfica, Irajá, Centro, Maré, São Cristóvão. Roda a cidade e volta com uma caixa de papelão na garupa com os ingredientes que o cozinheiro Paulinho trata com carinho na minúscula cozinha do boteco. Alho é sempre sem pena, que tempero não tem preço. O baião-de-dois do Paulinho é famoso na área. Só não é mais famoso que o caldo de mocotó: a tigela grande a R$ 9 levanta até quem já foi. Na caixa de som, a briosa Rádio Imperial FM, da não menos briosa cidade de Pedro II, traz as notícias do Piauí. Às seis da tarde, sem erro, toca a Ave-Maria. Amém.

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Às vezes o Raimundo se distancia do mundo ouvindo as notícias de Pedro II, considerada a “Suíça piauiense”, cravada lá para os 600 metros no alto da Serra dos Matões, onde consta que a temperatura raramente passa dos 30 graus. Isso para o Piauí equivale a uma Bariloche. Há o noticiário dos que se foram, os finados, em hora de se fazer o sinal da cruz de Cristo e ficar contrito, os informes de velório em casa e sepultamento, com as condolências da emissora. Talvez nessa lonjura de Rio de Janeiro, onde 30 graus são uma bênção se comparados ao purgatório de Teresina, Raimundo fique ali atento a reconhecer algum nome familiar nas horas da despedida.

A saudade se perpetua nas alegrias e nas tristezas.

Na hora do almoço as cinco mesas do estabelecimento ficam cheias. Ou melhor, ficavam. A clientela do Raimundo tem rareado nos últimos tempos. Não que os fregueses tenham achado lugar mais barato para comer: a questão é que nem todos podem se dar ao luxo de ter uma refeição completa no almoço todos os dias, ali pela casa dos R$ 15,00. Um salgado e um refresco enganam a fome nas barraquinhas das esquinas, e vida que segue. A grana está curta. Não dá mais para almoçar, tomar a cervejinha e o quente no fim do dia, pagar a passagem e ainda sobrar algum para a feira. O sujeito tem que estabelecer prioridades, e como cantou o Chico Buarque numa canção de outrora, sem a cachaça ninguém segura esse rojão.

Raimundo vem contradizendo com seu dia a dia uma pérola que o “presidente” Michel Temer (as aspas são minhas) cunhou dia desses numa reunião com os grandões da economia lá na Alemanha: “Não existe crise econômica no Brasil”. Só não existe para ele, envolto em cifras milionárias e em tramas de garagens e subsolos. Para o Raimundo, que tem dificuldades para entender o que é desfaçatez porque cresceu aprendendo a ter vergonha na cara, que lida com a raia miúda e com o miserê nas carteiras surradas, existe sim. Não faz muito tempo, ele gastava 15 quilos de arroz por dia para preparar a boia da rapaziada. Agora, não gasta nem dez. Não é que nem expectativa de inflação pelos institutos oficiais. É a real.

Como não tem dinheiro para comprar fregueses como tem o Planalto para conquistar a simpatia dos ilustres deputados, o Raimundo vai levando a vida na corda bamba, com sua moto em ziguezague atrás de uma costela mais em conta que o Paulinho vai transformar em iguaria dos deuses.

Dos deuses, não. Dos homens. Que nos botecos da vida os deuses não se criam, e ainda teriam de pedir a bênção ao São Jorge que a todos guarda, um dragão por dia para matar, e entrar na fila do mictório com cheiro de Pinho Sol vencido – isso com sorte.

Mas enquanto houver o caldo de mocotó do Paulinho, a vida continua. Aqui e no Piauí.

Postado por Alexandre Medeiros às 12:00 am
1 de maio de 2017

Desculpe o transtorno: Você conhece o Miguel?

Eu não conhecia o Miguel. Li no jornal que ele foi assassinado a tiros a duas quadras aqui de casa, na movimentada esquina de Rua das Laranjeiras com Pinheiro Machado, a uns 200 metros do Palácio Guanabara, onde sempre fica estacionada uma patrulha da Polícia Militar do Rio de Janeiro, supostamente para zelar pela segurança do governador e negligenciar pela segurança dos demais. Miguel foi morto em uma tentativa de assalto na madrugada de sexta-feira, 14 de abril de 2017. Dois bandidos de moto o abordaram quando ele estava em sua moto com a namorada na garupa. Era a primeira volta que ele dava com a moto. Os bandidos nem levaram a moto. Só levaram a vida do Miguel.

Era filho e neto de comerciantes libaneses que se estabeleceram com loja de roupas no Catete pelos idos dos anos 1960, quando o Catete se intitulava “o melhor bairro do mundo”. E era mesmo, Miguel Ayoub Zakhour tinha 19 anos e amava motos desde criança. Devia ser gente boa, pena que não o conheci. Pelas conversas aqui pelas redondezas, a turma o descreve como bom filho, bom aluno, cheio de amigos, daqueles meninos que dá bom dia pra gente no elevador. Muitos desses amigos que ele fez ao longo de sua curta existência fizeram uma homenagem há alguns dias na Rua das Laranjeiras, num fim de tarde. Foram eles que pintaram um mural bacana para lembrar o amigo na esquina em ele foi atacado pelos bandidos. Há vasos de flores novos ali toda semana.

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Eu não conhecia o Miguel, mas conheço o Luca. Tem 19 anos também, é neto e filho de italianos, tem um sorriso fácil, estuda Relações Internacionais e sonha em ser diplomata. Quando tem jogo da seleção italiana, o Luca grita da janela do prédio onde mora quando a Azurra faz um gol, que nem eu faço em jogo do Botafogo, com a ressalva, no caso dele, de os vizinhos não acharem que se trata de um incêndio.

O Luca é um dos melhores amigos da Paloma, que também tem 19 anos. Ela estuda Psicologia na PUC e está fazendo estágio em uma casa de recuperação em Botafogo para pessoas com problemas que vão desde a depressão ao alcoolismo. A Paloma deve estar aprendendo à vera como tem gente com problemas nesse mundo. Ele tem um sorriso lindo de covinhas, adora crianças e, de uns tempos para cá, virou vegetariana. Outro dia pedi para fazerem um quibe de forno de legumes porque soube que ela ia jantar lá em casa. A Paloma parece uma menina que eu só conheço de vista, e que mora no prédio onde eu morei na Rua Pereira da Silva, e que todo dia passa de uniforme do Colégio Pedro II naquela mesma esquina onde o Miguel foi visto pela última vez. A Paloma e a menina do Pedro II andam como se pudessem voar.

A Paloma é namorada do Bernardo, que é meu filho mais velho. Ele vai fazer 20 anos daqui a alguns dias, está cursando Administração na UFRJ. Vai de ônibus para a faculdade onde eu sonhei estudar um dia, só porque fica na Praia Vermelha, que é um dos lugares mais bonitos do mundo. Eu só fico tranquilo quando ele ao menos me passa uma mensagem de celular para dizer onde está, se vai jantar em casa ou se quer que deixe a comida na boca do fogão, essas notícias que acalmam a gente que é pai numa cidade violenta como o Rio de Janeiro. Ou como Recife, Salvador, São Paulo ou Duque de Caxias. Quando eu posso abraçar o Bernardo, eu vejo como sou incapaz de imaginar a dor do pai do Miguel. Dá uma tristeza tão grande que eu fujo desse sentimento para não sucumbir.

No dia da passeata que os amigos fizeram para o Miguel em Laranjeiras, eles distribuíram um folheto com o título desta crônica. No texto, eles pediam desculpas por atrapalhar o trânsito na hora do rush e falavam sobre o amigo: “Miguel era simplesmente uma pessoa maravilhosa, não tinha um inimigo. Todos sentem sua falta. No Brasil, todo dia tem um Miguel diferente fazendo falta por aí. E nós te perguntamos: até quando? Nós queremos uma atitude dos governantes que realmente seja eficaz sobre quem comete crimes de tamanha crueldade. Nós precisamos de uma resposta”.

Eu não acredito nas respostas dos governantes. Um dia depois da morte do Miguel, uma patrulha da PM estacionou ali debaixo do viaduto onde o menino foi assassinado, como se isso pudesse redimir o passado e preservar o futuro. Nem uma coisa, nem outra. Eu acredito mesmo é nos amigos do Miguel, no Luca, na Paloma e no Bernardo.

Eu acredito no Miguel. Pensando bem, eu conhecia o Miguel. Ele foi um mais um menino que poderia mudar o mundo.

Desculpem o transtorno.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:53 pm
10 de abril de 2017

A Maria Eduarda que eu conheci

Quando eu era professor de uma oficina de Reportagem no Morro de Mangueira, lá pelos idos de 2001/2002, Maria Eduarda chegava sempre atrasada na aula, trazendo no colo a Joyciane, sua filha de seis meses, vestida como uma boneca da Estrela. Ela dizia que boneca foi brinquedo que não ganhou quando era menina, então a filha ela vestia como a boneca que nunca teve. A bebê era um doce, dormia solenemente mesmo com a algazarra da sala, as outras alunas brigavam para ver quem segurava a menina no colo. Maria Eduarda se chamava Joyce, tinha 13 anos, vivia com a mãe e a bebê num barraco na parte do morro chamada Três Tombos, e nunca mais soube do pai da criança, que teve de sumir da área. Não tive mais notícias da Joyce, mas não esqueço seu olhar de menina olhando sua boneca da Estrela de carne e osso.

Quem sempre chegava primeiro na aula, já estava lá quando eu dobrava a curva da Rua Visconde de Niterói, era a Maria Eduarda. Ela morava no sobrado ao lado da oficina com uma tia, tinha o caderno com a letra mais caprichada da turma, e uma vontade de aprender que chegava a emocionar o professor. Ficava depois da aula tirando dúvida, buscando exemplos, mostrando as tarefas. Teve uma vez que desenhou um mapa do morro tão perfeito que incluí o desenho no livro que os alunos escreveram no fim do ano sobre a comunidade. Telégrafo, Olaria, Candelária, Largo do Careca, Três Tombos, Barreira da Poló, Joaquina, Chalé, Buraco Quente, Santo Antônio, Grotão, Faria, Saloba, Elvis. Quantas andanças. Maria Eduarda se chamava Pâmela, tinha 12 anos, e na noite do lançamento do livro levou a tia, que era como se fosse uma mãe para ela. Nunca mais tive notícias da Pâmela, mas seu sorriso de orgulho no dia do lançamento eu não vou esquecer.

Maria Eduarda não levava desaforo pra casa. Algumas vezes tive de intervir no meio da aula para que ela parasse de bater boca com algum desafeto. Tinha aparência de invocada, mas bastava conversar com ela alguns minutos depois da aula para entender que a sisudez era uma defesa, que na verdade ela queria era sorrir. Maria Eduarda era uma das líderes da equipe de Educação da oficina, e gostava de circular pelo morro procurando pessoas que nunca tinham estudado, sobretudo as mais velhas, porque ficava intrigada com quem havia chegado tão longe sem saber letra. Nessas incursões, ela descobriu que tinha muita coisa a aprender com quem não sabia letra, mas que aprendeu muitas lições na sala de aula da vida. Maria Eduarda se chamava Maybe Andreza, tinha 13 anos, porte de jogadora de basquete e sonhava em ser professora.

Todos os irmãos de Maria Eduarda morreram nas trincheiras do tráfico de drogas. Nenhum deles passou dos 18 anos. Maria Eduarda era uma sobrevivente tímida, opaca. Começou a frequentar as aulas obrigada pela avó, que não queria vê-la à toa pelo morro antes e depois das aulas no Ciep Nação Mangueirense. Maria Eduarda ficava no fundo da sala, não falava com ninguém e nem quis fazer parte de equipe nenhuma. Mas aos poucos foi gostando das crônicas que eu levava para mostrar na sala, dos recortes de jornal, até me pediu um volume de contos que pudesse ler em casa. No livro que a turma escreveu no fim do ano, ela se comprometeu a escrever crônicas livres, e falou sobre tráfico de drogas, discriminação racial, sobre as pessoas que não têm plano de saúde. Maria Eduarda se chamava Marcos Paulo, tinha 16 anos, e gostava muito de sua avó.

Maria Eduarda tinha 13 anos e foi assassinada com quatro tiros de fuzil, ao que tudo indica disparados por policiais militares, quando fazia uma aula de Educação Física no pátio da Escola Municipal Jornalista Daniel Piza, em Acari, na Zona Norte do Rio, no último dia 30 de março. Podia ser uma mãe adolescente, como a Joyce, e vestir sua filha como uma boneca. Podia ser uma aluna que perguntava tudo, como a Pâmela, ou ter aparência de invocada, como a Maybe Andreza. Podia ser uma sobrevivente, como o Marcos Paulo. Não teve tempo. E de todas as Marias Eduardas dessa história, ela é a única que eu não conheci, e a única que eu sei onde está. Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, está enterrada no Cemitério Jardim da Saudade, em Edson Passos, Mesquita, na Baixada Fluminense. Mas ela devia estar aqui.

Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, assassinada.

Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos, assassinada.

Postado por Alexandre Medeiros às 9:56 pm
24 de fevereiro de 2017

Com que roupa?

O mais legal do Carnaval é a fantasia, aí entendida em seu sentido mais amplo. É a celebração subversiva do status quo nos quatro dias de liberdade que só terminam na ressaca da Quarta-Feira de Cinzas. A realidade sucumbe ao sonho, a ordem vira anarquia. Eu já saí no Carnaval de médico, jaleco branco impoluto, estetoscópio de Saara no pescoço, seringa cheia de água. Nas costas, uma placa: “SUS, Seu Último Suspiro”. Um respeitável médico perdido no meio do bloco. Um senhorzinho me parou para tirar foto: “Lembra de mim, doutor? Foi o senhor que me tratou. Eu fiquei esse traste aqui”. Rimos muito. Isso é Carnaval.

Fantasia pode ser um adereço no cabelo, e pode ser um manto de faraó. Mas é, antes de tudo, uma conduta, uma postura (ou uma descompostura). O que importa é que seja uma motivação para a alegria. É um sufoco, reconheçamos, sambar no Bola Preta dentro de uma fantasia de gorila. Mas o sujeito lá dentro está feliz? É o que vale. Teve um ano em que me acabei no Boitatá vestido de sheik árabe. Tal era o calor que, talvez influenciado pelo traje, vislumbrei no Chafariz de Mestre Valentim um oásis no deserto do Saara. Descobri também que fantasia de sheik não é apropriada para banheiro químico. É muita roupa e muito adereço para pouco compartimento. Mas quando a banda tocou Allah-La Ô, teve até súdito fazendo reverência ao sheik na saída do banheiro. Isso é Carnaval.

Saara, sempre

Saara, sempre

A dúvida eternizada por Noel Rosa se abate sobre os foliões às vésperas de mais uma folia: com que roupa que eu vou? Como o calor anda mesmo de deserto do Saara, uma boa opção é sair de arrumadeira. Roupa leve, o espanador pode servir de leque, aquele frasco de detergente pode ser um bom borrifador de água no meio do sufoco. Fica a sugestão.

Outra boa: índio aculturado. Nesses tempos terríveis de patrulha ideológica, de bloco vetando marchinha pra ser politicamente correto (e Carnaval pode ser tudo, menos politicamente correto), uma boa postura de resistência (e ainda serve para ocultar as gordurinhas a mais) é vestir uma camiseta e uma bermuda, colocar um cocar, um colar e sair por aí com um apito: sim, senhores, índio quer apito e se não der pau vai comer. Para os que estão em boa forma física, a camiseta e a bermuda são prescindíveis. Mas aí não é mais índio aculturado.

Tem uma fantasia que nunca esteve mais em voga. A de presidiário. Blusa e calça de cetim, pano leve e listrado, aquele código de 171 no peito. Acho que vou nessa, em homenagem a homens da envergadura de um Sérgio Cabral Filho, de um Eike Batista. Eles merecem. É isso, lacrou. Este ano vou incorporar o personagem daquele samba do genial Assis Valente. Vestir uma camisa listrada e sair por aí. Bom Carnaval!

A fantasia invade a realidade. Sempre

A fantasia invade a realidade. Sempre

Postado por Alexandre Medeiros às 1:14 pm
12 de janeiro de 2017

Vale o impresso!

Aprendi a jogar no bicho com meu primeiro chefe, o Charles Boyer, o francês mais carioca que conheci. Ele usava óculos de fundo de garrafa, a camisa social sempre dobrada nas mangas, o andar rápido em meio ao mundaréu de gente no Centro da cidade. Ele tinha uma malandragem intrínseca, devia ser de Marselha, nem lembro se perguntei isso a ele. Era um personagem de Jean Genet. Pois foi ali nas cercanias da Praça Pio X, a Candelária como testemunha, que o Boyer me ensinou a cercar a milhar pelos dez, a fazer um duque de dezena combinado, a apostar na milhar do talão por desencargo. Certa feita fiz um jogo sozinho, ganhei uma merreca, e mostrei ao Boyer, crente que estava abafando. Ele olhou e sentenciou: “Burro, só jogou no grupo? Podia ter ficado rico”.

Fico imaginando como o Boyer reagiria ao ver que a era digital chegou ao jogo do bicho. Eu mesmo me senti um tanto desconfortável ao ver que o apontador, no lugar do bloco e da caneta, empunhava um celular. “Pois não?”. Nada daquela letra caprichada desenhando os números da milhar dos sonhos, nada daquele carbono azul para fazer a cópia, nada de apostar no talão. Não tem mais talão! Não vale mais o escrito! Feita fezinha, o apontador (melhor agora ser chamado de digitador) transmite a aposta de celular para uma maquininha impressora e te entrega um comprovante que nem esses de cartão de crédito depois de compra em loja. Simples assim.

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Pergunto ao apontador, velho de guerra, se ele gosta mais do método atual ou do antigo. “A gente não teve escolha. Era isso ou isso”. Com essa crise, nem apontador tem mais emprego garantido, e o jeito foi aprender a usar o programa de apostas pelo celular. Tem até surpresinha, que nem loteria da Caixa. Coisa fina.

Ah, sim. Também não precisa mais o “deu no poste”. Isso é coisa do passado. Agora o resultado sai pela internet. Não arrumei nada com meu duque de dezena de leão com jacaré. Deu macaco na cabeça. Por dentro, deu camelo, coelho, touro e carneiro. Já sei, Boyer, já sei. Se você estivesse lá comigo, eu podia estar rico.

Postado por Alexandre Medeiros às 3:06 pm
30 de dezembro de 2016

De tristezas e alegrias

Chega fim de ano e lá vem vidente fazer previsão, comentarista chutar prognóstico, jornal publicar retrospectiva e cronista arriscar palpite para o ano que vai chegar. No balanço dos 365 dias que se encerram, todos desejam que janeiro traga novas esperanças, que de angústia o mundo está cheio. Esse 2016 que vai embora, com fama de traiçoeiro, credo em cruz, além dos dramas pessoais e das contas a pagar, trouxe catarses coletivas, como Lava Jato, impeachment de presidente eleita, ascensão de vice sem voto, milhões de desempregados, estados falidos, peixe graúdo na cadeia. Trouxe a tragédia do voo da Chapecoense, e a inesquecível homenagem do Atlético Nacional e dos colombianos no Estádio Atanásio Girardot.

Perdi parentes e amigos queridos em 2016 – um deles, o Paulo Júlio Clement, estava no voo da Chapecoense. Foi embora tanta gente boa. O Cauby, o Naná, a Elke, o comandante Fidel, o Cruyff, o Capita. O Jorge Tiroteio, lá do Posto Seis. Tia Edith, da Portela, agorinha no fim de dezembro, e quem não lembra aquele macarrão com carne assada na Feira das Yabás? Muita gente na Rua da Amargura, fazendo biscate para sobreviver, as dívidas lá nas alturas. E bota a fé no avestruz, na borboleta, a milhar cercada pelos dez, a mega da virada.

Eu prefiro sempre lembrar as alegrias, por mais que as tristezas pareçam soterrar os sorrisos. Das pequenas alegrias embutidas num gesto, num carinho, numa palavra. No abraço de um amigo, no olhar. Desse 2016 que geral quer escorraçar, eu levo algumas dessas alegrias para acreditar que elas se renovarão em 2017. São esses momentos que nos movem para frente quando tudo parece ruir.

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Olha esse. O embrulho miúdo prenunciava, mas ele fez questão de dizer ao dar o presente: “É só uma lembrancinha”. Um chaveiro com a inscrição “pai só tem um, e como o meu, nenhum”, um abraço apertado e um beijo. Fico tão feliz nesses momentos do Natal que me atordoo, e nem percebi que dentro do embrulho tinha um papel dobrado. Preparei o lenço, pois imaginei que se tratava de um bilhete de Natal desses de fazer pai chorar na frente da família inteira. Mas não. Era o boletim do Francisco. A menor nota era 8. O olhar dele e o riso sem graça quando mostrei o boletim a todo mundo eu vou guardar para sempre.

 

A Cecília sem graça quando eu assobiei bem alto na sua formatura do colégio. O churrasco dos primos lá em São João de Meriti. As caras de pedinte da Helena implorando pra ir às festas. O Bernardo de camisa social indo pra Pavuna, tipo vice-presidente da empresa júnior da faculdade. As gargalhadas da Nara quando faço palhaçada, a nossa feijoada repleta de amigos e a parentada toda. As manhãs de caminhada no Aterro, dar de cara com o Pão de Açúcar sendo despertado pelos primeiros raios de sol sobre a Baía da Guanabara. O Celso falando mal do Temer no Facebook. Por falar nisso, fora Temer. Escrever um capítulo do livro que um dia vai sair. Almoçar com o compadre na Saara. Andar com a Cecília pela Saara e comprar mais uma vez um carregador de celular na loja do chinês, pão árabe e uma toalhinha da Portela para enxugar o suor nos blocos de carnaval.

Pensando bem, as pequenas alegrias é que soterram as tristezas. Feliz 2017 para todos nós.

Como diz a letra de Juízo Final, o sol há de brilhar mais uma vez

Como diz a letra de Juízo Final, o sol há de brilhar mais uma vez

Postado por Alexandre Medeiros às 12:16 pm
18 de novembro de 2016

Se a praça tem dono, o dono é o povo

A praça é, em sua essência, um espaço de convivência. E poucas praças no Rio de Janeiro expressam tão bem esse espírito como a Praça São Salvador, em Laranjeiras, sobretudo aos domingos de manhã, quando se torna palco de uma roda de choro que está prestes a completar dez anos. Foi ali, num coreto abandonado até então, que músicos capitaneados pela flautista Ana Caetano começaram a se reunir em 2007 para ensaiar. Nota a nota, a turma foi encantando uma legião de amantes da boa música e da convivência respeitosa. Jacob do Bandolim, liberdade, quermesse, amizade, Pixinguinha, Botafogo, Vasco, Fluminense e Flamengo, esquerda e direita, democracia, tudo cabe na praça se vier em paz. São domingos de enlevar a alma.

Não diria que sou suspeito para falar bem da roda. Sou culpado mesmo. Adoro choro, tenho um primo e alguns amigos que tocam sob a batuta da Ana, sou freguês da barraca do Luizinho e do barzinho da Marlene, acho um momento épico carioca o bater de pratos que encerra o hino Santa Morena. Foi na roda de choro da Praça São Salvador, no Dia das Mães de 2014, que ouvi a mais bela interpretação do Carinhoso – me desculpe, Cauby –, com um coro de dezenas de vozes em dissonante harmonia. E usei este mesmo espaço de Cenas Cariocas para contar como foi na crônica A Felicidade cabe em uma praça.

Ana e sua turma não ganham nada com o show. Tocam por prazer, de graça, com alegria e camaradagem. Nem chapéu para o troco da cerveja eu vejo passar. Só um livro levado como relíquia por um dos fãs da roda, que eu já devo ter assinado mais de dez vezes. Do sucesso da roda se revitalizou a praça, o coreto ficou até ajeitado, veio a feira de artesanato na esteira. Conheci uma penca de artesãos de mão cheia por ali. Fora os chefs de primeira linha, como o Pedro Motta. A gente pode ouvir um choro do Jacob e comer um prato de arroz de pato. Quer mais o quê?

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Ocorre que, de uns tempos para cá, essa harmonia anda ameaçada. Rolaram até propostas de cercar a praça e transferir a roda de choro para o Aterro do Flamengo. Nada disso vingou, por enquanto. Mas, em meados de abril, indignada com as propostas, a Ana postou um comentário em tom de desabafo na página do Arruma o Coreto – este o nome da roda – no Facebook. Um senhor que se diz “organizador” da feira de artesanato se sentiu ofendido pela postagem e está processando criminalmente a flautista, pedindo indenização.

Não conheço o xerife, nem faço questão de conhecer, mas não me parece razoável que um espaço público possa ser delegado a um ente privado, que negocia os espaços dos expositores e “vende” segurança – essa uma prerrogativa, até provem em contrário, da PM e da Guarda Municipal. Mostra, por outro lado, uma ausência do poder público municipal.

Ninguém quer briga na praça. A roda, os artesãos, os frequentadores merecem ter seu domingo sagrado em paz.

Postado por Alexandre Medeiros às 7:42 pm
16 de agosto de 2016

Olimpíadas, frango com quiabo e food truck

Como diz meu amigo Celso de Castro Barbosa, de tédio é que eu não morro. Ainda mais vivendo no Rio de Janeiro, cidade que me surpreende a cada esquina. Na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos, andei ali pela Avenida Marechal Floriano, que já foi Rua Larga, e que parecia a Atlântica tal a quantidade de gringos por quarteirão. A memória foi lá no século passado e buscou a cena do moleque de 18 anos, no final dos anos 1970, entrando na Impecável Maré Mansa para comprar seu primeiro terno para trabalhar, em prestações a perder de vista. Se ainda sobrevivessem as pensões nos sobrados onde tantas vezes pendurei o paletó cinza no gancho para encarar o arroz e feijão, juro que almoçaria numa delas.

Mas os restaurantes a quilo engoliram as pensões, onde as panelas ficavam no centro das mesas imensas. Não há de ser nada, o Centro ainda resiste. Embiquei na Rua da Conceição e cheguei ao Botequim do Joia, que já foi Café e Bar Rio Paiva, fundado em 1909, com seu pé direito alto, seu cardápio em quadro de giz, suas paredes cobertas com homenagens ao glorioso Botafogo de Futebol e Regatas e a deusas seminuas dignas de oficina mecânica, e o tempero caseiro de Dona Alaíde. Fica na esquina com a Rua Júlia Lopes de Almeida, que já foi Travessa Oliveira, tão pequena na extensão quanto gigante na homenagem a uma jornalista e escritora pioneira na defesa do feminismo. O frango com quiabo veio na medida certa para saciar a fome e enlevar a alma. Uma pessoa que cozinha como Dona Alaíde que Deus guarde e conserve.

Fogão

Joia A

 

Dois dias depois, andei ali pela Praça 15. E confesso que fiquei mais boquiaberto que turista japonês com a beleza do Boulevard Olímpico. Entre as praças 15 e Mauá, o contraste entre as antigas construções e os prédios modernosos como o RB 1 e a Bolsa do Rio produz um efeito de encantamento. Impressiona ver a Candelária soberba de frente para o mar, sem que a gente precise pedir licença a um viaduto para fazer o sinal da cruz. Foi ali na Praça Pio X, a Candelária por testemunha, que gastei meu terno cinza da Impecável debaixo de sol e chuva, nas agruras do cartão de ponto e da máquina de calcular de manivela, aprendendo a jogar no bicho, milhar cercada pelos dez e duque de dezena combinado, e a comer de pé em quinze minutos no balcão, prato feito e dinheiro contado. A vida dá voltas e estaciona onde pousa o coração.

Boulevard

Bem ali debaixo da torre da Candelária está a Pira Olímpica e seu fogo que não se apaga. É como se esse pedaço do Rio tivesse reaparecido depois de escavações arqueológicas como as que garimpam a memória reavivada por tantas evocações. Se o Chafariz de Valentim agora reina na revigorada Praça 15, ele que tantas décadas padeceu como abrigo de mendigos e mostruário de insensatez histórica, o que dizer do Tribunal Marítimo, com sua simplicidade de beira-mar? Logo a seguir o povo passa diante do Distrito Naval, onde os marinheiros de plantão ainda se desacostumam com a passagem de tanta gente pelos decks de madeira, como se fossem a qualquer instante levar bronca do oficial-de-dia.

Chafar

E a gente passeia pelo passado e pelo presente. Logo adiante da entrada exclusiva dos almirantes está um caminhãozinho que parece saído de cinema, com balcão de vaso de flor e tabuleta de cardápio com hambúrgueres e cervejas artesanais.  A gente aprende a chamar de food truck, mas é tipo a barraca do angu do Gomes que tantas vezes me salvou nas madrugadas sombrias da Praça 15, a barca da Cantareira despejando de volta no cais o moleque universitário de terno cinza na hora-extra da vida. E aí vem aquele sanduíche de carne de costela com molho de cerveja preta, e aquela gelada de trigo de fazer você sentar e ver a vida passar diante dos seus olhos, em várias línguas, molejos e alquimias. E onde senão nesse Rio de Janeiro reconciliado com sua história de maresias, brisas e pedras com limo? Onde mais?

A caminhada termina – termina? – no Morro da Conceição. Por trás do esqueleto abandonado do prédio d’A Noite, outra escaramuça que o tempo há de regenerar, as ladeiras de sonho parecem dar no céu. E dão mesmo, naquela imensidão de azul de inverno carioca, de bermuda e camiseta. Pena que é sábado e o Botequim do Joia está fechado. Se estivesse aberto, era até covardia um dia assim.

MC

Postado por Alexandre Medeiros às 10:51 am
23 de maio de 2016

Ai de nós, Copacabana

Princesinha do Mar, não sei se é chegada a véspera de teu dia, como escreveu o mestre Rubem Braga, de quem doravante roubarei palavras sábias sobre ti. Mas sei que esse fim de tarde no Posto Seis, o vento cobrindo as pedras das ruas com folhas amareladas de outono, parece um sintoma do apocalipse que está por vir. Se o mar virá tomar tudo de volta, como seria muito justo, tampouco sei, mas enquanto não vêm os meros que se entocarão em tuas galerias, e nem chega a chuva que se anuncia, vou descansar os cotovelos cansados no balcão engordurado de caldo de mocotó da Sorveteria Solar. Como tuas aparências enganam a Humanidade há décadas e décadas, e antes que me perguntem ou pensem mal de mim, convém avisar que é mais fácil achar um padre confessando os seus pecados na Galeria Alaska do que um mísero sorvete na Sorveteria Solar.

O bom paraibano Geraldo, com sua voz de tenor, vem abrir a cerveja e oferecer ao freguês que não via há mais de ano o jornal O Dia com suas páginas desfraldadas por tantas mãos desde o primeiro café da manhã. Leitor fiel do brioso matutino, Geraldo ajeita o jornal como se esse gesto educado pudesse acrescentar ainda mais elegância àquela que ele trouxe na bagagem quando resolveu deixar a seca para trás e tentar a vida no Rio de Janeiro, para mais de légua no tempo que se passou. “Tem chovido lá na terrinha, Geraldo? ”, pergunto, com medo da resposta. Mas ele desanuvia a tarde com uma de suas tiradas de malandro: “Mais que aqui”.

Geraldo, o jornal e o balcão.

Geraldo, o jornal e o balcão.

 

Ai de nós, Copacabana. Quem dera o alívio da água que se prenuncia e desaba sobre Pombal, no sertão da Paraíba, onde o Geraldo menino fez de poça um açude, redimisse por aqui as angústias que desabam sobre nós. Não sei se muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares, mas sei que no boteco do Geraldo e do Baixinho, ele que diz que mora em Japeri quando está na hora de fechar, mas que vive mesmo é logo aqui na subida do Pavão-Pavãozinho, o conhaque sempre foi honesto o suficiente. E nem ele estancaria a saudade ao se saber que cerrou as portas a Figueiredo Camisaria e Alfaiataria.

A casa tradicional ficava aqui ao lado da Sorveteria Solar, na mesma galeria da Rua Francisco Sá, entre a Raul Pompeia e a Nossa Senhora, e foi-se embora depois que o Carlinhos, filho do famoso Figueiredo, bateu as botas e deixou a loja ao Deus-dará. Foi-se a camisa por encomenda, de tirar medida e escolher o pano, e também a escultura do Pequeno Jornaleiro que ornava a vitrine forrada de feltro, história e poeira. A camisaria fina virou uma pastelaria chinesa, por sinal da mesma dona daquela que funciona na esquina de Nossa Senhora com Sá Ferreira. Os chineses ainda hão de dominar o mundo, a começar por Copacabana.

Geraldo volta da cozinha com torresmos passados na hora, de cortesia. E vem com cheiro de gordura passada a má notícia. “Tivemos três desfalques no nosso time nesse breve tempo de sua ausência. Além do Carlinhos, foram embora o Jorge Tiroteio e o Gilberto marceneiro”. Gilberto era Botafogo como eu, feliz com suas conquistas parcas, mas épicas, e passou mal do coração fazendo um serviço ali na esquina, nem chegou a ser socorrido. Deus o tenha.

O Jorge foi internado também dos males da morada das paixões. Saiu, voltou, tombou, teve a família ao seu redor na derradeira despedida. A Sorveteria Solar ficou triste sem o gesto de pistola que ele fazia com o indicador da mão direita em riste a fuzilar algo que lhe desagradasse. Cabra bom de Orobó, no sertão de Pernambuco, nunca mais ele pisou no Riacho da Inveja de sua terra natal desde que veio para o Rio. O parceiro Geraldo acusou o golpe, e emudeceu quando viu minha reação, repetindo o gesto da pistola com a mão. Jorge nem tinha coragem de matar mosca, com sua voz enrolada de contar histórias sem início, meio e fim, e aquela doçura emboçada em doses de cachaça e copos de cerveja morna e sem colarinho. O gesto caricato virou marca de quem se foi sem ter merecido. A gente fuzilou um vazio naquela tarde imensa.

Ai de nós, Copacabana. Não se vê mais por aqui o Pedro Melo, de espírito tão dócil quanto irascível, a depender da quantidade ingerida de batidas de maracujá. O perfume da fruta já se confundia com ele. Pegou pneumonia, passou a não dizer coisa com coisa, a não reconhecer seus pares de balcão, e a família o levou para um exílio em Juiz de Fora, nas Minas Gerais. Ficamos sem suas observações ora pertinentes, ora inoportunas, mas sempre defendidas como um grito às margens do Ipiranga. Ele tinha uma pinta de imperador, ninguém há de negar.

Assim como o bom Pedro Melo, foi-se também a Kriskon, loja de discos na Rainha Elizabeth da Bélgica, que muitos pensam erroneamente ser a do Palácio de Buckingham. O velho Raimundo Nonato, com sua cara de árabe e sua paciência chinesa, não resistiu às crises em sequência. Conhecia bem o repertório de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Aracy de Almeida, coisa que por aqui só mesmo o Geraldo rivaliza em arcabouço. Nonato chegou a ter seis funcionários, mas ultimamente atendia sozinho aos fregueses esporádicos em busca de raridades em vinil ou em CD. E nem a cem metros dali fechou também o Bar e Lanchonete Silva Cruz, onde Mário Lago tomava café em xícara escaldada. Tinha até foto dele na parede. É muita coisa indo embora em pouco mais de um ano. Fechou até a Le Boy, pioneira da noite gay carioca. Dizem no Posto Seis que vai virar uma igreja evangélica. Ao que o Geraldo, com sua sabedoria ímpar, profetiza: “Esse negócio de igreja é o ramo que mais prospera nesses nossos tempos”.

Ai de nós, Copacabana. Na Alaska já há mais pastores que os restos de pipas voadas nas amendoeiras do Aterro, de Maria da Graça ou da Ilha do Governador, o que nos leva a crer que a profecia do Geraldo tem base na realidade. E a gente vendo essa inversão insana de valores até suplica, Copacabana: pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas. E canta a tua última canção pecaminosa que eu te acompanho, eu canto junto a plenos pulmões, que assim eu te reconheço e fico mais confortado. Melhor do que viver nessa estranheza de saudades e incompreensões. Prefiro os rebanhos aos pastores.

Ai de nós, Copacabana. Que a tua fama de promíscua perde fácil para as falcatruas de Brasília. Que chega a ser imerecido o juízo de valor que fazem às tuas meretrizes, que ganham ares de moças pudicas e trabalhadoras diante de nossos políticos investigados. A praga do cronista é um sonho meu recorrente. Há, sim, de chegar o dia em que o mar tomará tudo de volta. E se foste iníqua perante o oceano, Copacabana, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas, também a multidão um dia reavirá um amanhecer depois dessa noite feroz.

Ai de nós, Copacabana. Por que de ti, por mais duro que seja dizer, já não cabe pena, nem rancor. Como disse o poeta, em verdade é tarde para a prece. E vem chuva por aí.

Postado por Alexandre Medeiros às 10:21 pm