Arquivo do autor:Alexandre Medeiros

23 de maio de 2016

Ai de nós, Copacabana

Princesinha do Mar, não sei se é chegada a véspera de teu dia, como escreveu o mestre Rubem Braga, de quem doravante roubarei palavras sábias sobre ti. Mas sei que esse fim de tarde no Posto Seis, o vento cobrindo as pedras das ruas com folhas amareladas de outono, parece um sintoma do apocalipse que está por vir. Se o mar virá tomar tudo de volta, como seria muito justo, tampouco sei, mas enquanto não vêm os meros que se entocarão em tuas galerias, e nem chega a chuva que se anuncia, vou descansar os cotovelos cansados no balcão engordurado de caldo de mocotó da Sorveteria Solar. Como tuas aparências enganam a Humanidade há décadas e décadas, e antes que me perguntem ou pensem mal de mim, convém avisar que é mais fácil achar um padre confessando os seus pecados na Galeria Alaska do que um mísero sorvete na Sorveteria Solar.

O bom paraibano Geraldo, com sua voz de tenor, vem abrir a cerveja e oferecer ao freguês que não via há mais de ano o jornal O Dia com suas páginas desfraldadas por tantas mãos desde o primeiro café da manhã. Leitor fiel do brioso matutino, Geraldo ajeita o jornal como se esse gesto educado pudesse acrescentar ainda mais elegância àquela que ele trouxe na bagagem quando resolveu deixar a seca para trás e tentar a vida no Rio de Janeiro, para mais de légua no tempo que se passou. “Tem chovido lá na terrinha, Geraldo? ”, pergunto, com medo da resposta. Mas ele desanuvia a tarde com uma de suas tiradas de malandro: “Mais que aqui”.

Geraldo, o jornal e o balcão.

Geraldo, o jornal e o balcão.

 

Ai de nós, Copacabana. Quem dera o alívio da água que se prenuncia e desaba sobre Pombal, no sertão da Paraíba, onde o Geraldo menino fez de poça um açude, redimisse por aqui as angústias que desabam sobre nós. Não sei se muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares, mas sei que no boteco do Geraldo e do Baixinho, ele que diz que mora em Japeri quando está na hora de fechar, mas que vive mesmo é logo aqui na subida do Pavão-Pavãozinho, o conhaque sempre foi honesto o suficiente. E nem ele estancaria a saudade ao se saber que cerrou as portas a Figueiredo Camisaria e Alfaiataria.

A casa tradicional ficava aqui ao lado da Sorveteria Solar, na mesma galeria da Rua Francisco Sá, entre a Raul Pompeia e a Nossa Senhora, e foi-se embora depois que o Carlinhos, filho do famoso Figueiredo, bateu as botas e deixou a loja ao Deus-dará. Foi-se a camisa por encomenda, de tirar medida e escolher o pano, e também a escultura do Pequeno Jornaleiro que ornava a vitrine forrada de feltro, história e poeira. A camisaria fina virou uma pastelaria chinesa, por sinal da mesma dona daquela que funciona na esquina de Nossa Senhora com Sá Ferreira. Os chineses ainda hão de dominar o mundo, a começar por Copacabana.

Geraldo volta da cozinha com torresmos passados na hora, de cortesia. E vem com cheiro de gordura passada a má notícia. “Tivemos três desfalques no nosso time nesse breve tempo de sua ausência. Além do Carlinhos, foram embora o Jorge Tiroteio e o Gilberto marceneiro”. Gilberto era Botafogo como eu, feliz com suas conquistas parcas, mas épicas, e passou mal do coração fazendo um serviço ali na esquina, nem chegou a ser socorrido. Deus o tenha.

O Jorge foi internado também dos males da morada das paixões. Saiu, voltou, tombou, teve a família ao seu redor na derradeira despedida. A Sorveteria Solar ficou triste sem o gesto de pistola que ele fazia com o indicador da mão direita em riste a fuzilar algo que lhe desagradasse. Cabra bom de Orobó, no sertão de Pernambuco, nunca mais ele pisou no Riacho da Inveja de sua terra natal desde que veio para o Rio. O parceiro Geraldo acusou o golpe, e emudeceu quando viu minha reação, repetindo o gesto da pistola com a mão. Jorge nem tinha coragem de matar mosca, com sua voz enrolada de contar histórias sem início, meio e fim, e aquela doçura emboçada em doses de cachaça e copos de cerveja morna e sem colarinho. O gesto caricato virou marca de quem se foi sem ter merecido. A gente fuzilou um vazio naquela tarde imensa.

Ai de nós, Copacabana. Não se vê mais por aqui o Pedro Melo, de espírito tão dócil quanto irascível, a depender da quantidade ingerida de batidas de maracujá. O perfume da fruta já se confundia com ele. Pegou pneumonia, passou a não dizer coisa com coisa, a não reconhecer seus pares de balcão, e a família o levou para um exílio em Juiz de Fora, nas Minas Gerais. Ficamos sem suas observações ora pertinentes, ora inoportunas, mas sempre defendidas como um grito às margens do Ipiranga. Ele tinha uma pinta de imperador, ninguém há de negar.

Assim como o bom Pedro Melo, foi-se também a Kriskon, loja de discos na Rainha Elizabeth da Bélgica, que muitos pensam erroneamente ser a do Palácio de Buckingham. O velho Raimundo Nonato, com sua cara de árabe e sua paciência chinesa, não resistiu às crises em sequência. Conhecia bem o repertório de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Aracy de Almeida, coisa que por aqui só mesmo o Geraldo rivaliza em arcabouço. Nonato chegou a ter seis funcionários, mas ultimamente atendia sozinho aos fregueses esporádicos em busca de raridades em vinil ou em CD. E nem a cem metros dali fechou também o Bar e Lanchonete Silva Cruz, onde Mário Lago tomava café em xícara escaldada. Tinha até foto dele na parede. É muita coisa indo embora em pouco mais de um ano. Fechou até a Le Boy, pioneira da noite gay carioca. Dizem no Posto Seis que vai virar uma igreja evangélica. Ao que o Geraldo, com sua sabedoria ímpar, profetiza: “Esse negócio de igreja é o ramo que mais prospera nesses nossos tempos”.

Ai de nós, Copacabana. Na Alaska já há mais pastores que os restos de pipas voadas nas amendoeiras do Aterro, de Maria da Graça ou da Ilha do Governador, o que nos leva a crer que a profecia do Geraldo tem base na realidade. E a gente vendo essa inversão insana de valores até suplica, Copacabana: pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas joias, e aviva o verniz de tuas unhas. E canta a tua última canção pecaminosa que eu te acompanho, eu canto junto a plenos pulmões, que assim eu te reconheço e fico mais confortado. Melhor do que viver nessa estranheza de saudades e incompreensões. Prefiro os rebanhos aos pastores.

Ai de nós, Copacabana. Que a tua fama de promíscua perde fácil para as falcatruas de Brasília. Que chega a ser imerecido o juízo de valor que fazem às tuas meretrizes, que ganham ares de moças pudicas e trabalhadoras diante de nossos políticos investigados. A praga do cronista é um sonho meu recorrente. Há, sim, de chegar o dia em que o mar tomará tudo de volta. E se foste iníqua perante o oceano, Copacabana, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas, também a multidão um dia reavirá um amanhecer depois dessa noite feroz.

Ai de nós, Copacabana. Por que de ti, por mais duro que seja dizer, já não cabe pena, nem rancor. Como disse o poeta, em verdade é tarde para a prece. E vem chuva por aí.

Postado por Alexandre Medeiros às 10:21 pm
22 de março de 2016

Pra não dizer que não falei de flores no meio dessa crise

Não tenho quase nada em comum com o prefeito Eduardo Paes, muito antes pelo contrário. Afora o fato de sermos ambos cariocas e portelenses, meus gostos, ideias e convicções passam longe do alcaide, e vice-versa. Não tenho nada contra Maricá, por exemplo, nem contra Araruama ou Saquarema. São cidades simpáticas e acolhedoras. Vai ver tenho alma de pobre, que nem o Paes falou do Lula, porque passei boas férias com meus pais em Itacuruçá e em Iguaba Grande, e gostei muito. E nem pedalinho tinha. Em Itacuruçá, a onda naquela época era colocar as crianças para andar de burrico. Tenho até foto em cima de um burro triste, eu soberbo como se fora John Wayne galopando um corcel apache naqueles filmes do John Ford.

Também acampei muito em Conceição do Jacareí, que, assim como Itacuruçá, é distrito de Mangaratiba, naquela sucessão de refúgios ao longo da Rodovia Rio-Santos onde milhares de pessoas com alma de pobre gastam sua felicidade a preços mais em conta do que na vizinha de alma rica Angra dos Reis. Se o prefeito não tem todo esse apreço por Maricá, imagino em que patente deva estar Mangaratiba em sua hierarquia de preconceitos.

Não obstante minhas boas lembranças e minha alma de pobre, esta não é uma crônica de desagravo às cidades desancadas pelo Eduardo Paes, embora elas tenham toda a minha solidariedade. Tampouco é um arrazoado sobre as diferenças filosóficas, políticas e existenciais que me separam do prefeito – gosto mais da Tijuca que da Barra, e não defendo homem que bate em mulher, entre outros exemplos. Não, não é isso.

Imagine só, nesse grave momento da vida nacional, em que a crise econômica e política nos deixa com alma de hooligans prontos a encaçapar o primeiro que ousar divergir de nós, em que bloqueamos amigos no Facebook quando somos chamados de corruptos, ou de golpistas, ou ambos, não necessariamente nesta ordem, eu venho aqui para falar bem, elogiar, enaltecer uma obra do Eduardo Paes: a nova Praça Mauá.

Domingo na praça

Domingo na praça

Ou seja, nesses tempos de intolerância, esta é uma crônica repleta de altruísmo.

Vá lá num domingo qualquer, de preferência num domingo de outono, que é a estação em que o Rio mais resplandece, e veja como sua alma pode sair mais leve no meio desse vendaval. A praça imensa se abre para o mar, corre a brisa que vem da Baía de Guanabara. Famílias passeiam por ali, as crianças correm soltas. Domingo passado havia lá uma feira, a Carioquíssima, com gastronomia de qualidade, cervejas artesanais, artistas mostrando suas artes, boa música. No Museu de Arte do Rio vale muito a pena ver a exposição do Rio dos anos 1700 – e lembrar que, de tantos desmontes passados, chegamos aos desmontes do presente. O que se vê hoje na Praça Mauá é reconstrução, é um reencontro do carioca com parte do seu passado, com as ladeiras do Morro da Conceição a nos emoldurar.

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Até os trilhos estão de volta à Avenida Rio Branco. Não os do bonde de outrora, mas os do VLT. Passei por lá há alguns meses, quando tudo parecia uma escavação para mais uma estação do metrô, e domingo agora constatei que os trilhos já estão fincados, que as obras avançam. Não é possível que depois de caminhar pela praça, dar uma esticada na Ladeira do João Homem, e tomar uma cerveja no Bar Imaculada, você ainda tenha estado de espírito para praguejar contra o homem. Faço votos para que o esqueleto do prédio de A Noite um dia ressurja das cinzas e seja mais um ícone da nova – e boa e velha – Praça Mauá. De velhos e novos marinheiros.

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Postado por Alexandre Medeiros às 3:38 pm
4 de fevereiro de 2016

No meio do caminho tinha um chapéu Panamá

Como escreveu o poeta de Itabira, nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Sei que andam “esquecendo” livros em praças, aviões, bancos de trem e metrô, movimento propagado pelas redes sociais. Gesto, aliás, salutar, para que os livros lidos troquem de mãos e encantem outras mentes. Mas o que dizer de um chapéu Panamá novinho em folha esquecido no banco do jardim, e no período de Carnaval? Pois o fato deu-se comigo há alguns dias.

Voltava do almoço, com aquela pressa insensata de chegar ao serviço, e ele estava lá, sozinho no banco, a me encarar. Olhei para um lado, para o outro, nada. Diminuí o passo, me afastei, passei pelo banco devagar, fiz que ia e voltei, que nem atacante a driblar o zagueiro. Sentei ao lado dele, como quem fosse puxar conversa, achando que o dono, lógico, ia aparecer em instantes. Com esse sol de rachar na cabeça, como é que alguém se esquece de um chapéu, e logo um Panamá, branquinho, novo em folha?

Sou cismado com essas dádivas fortuitas. Podia ser oferenda, simpatia, promessa, que eu tinha que me meter? A brisa quente de verão soprando mansa, aquela modorra de início de tarde. E o chapéu ali, balançando devagar.

A selfie do chapéu Panamá

A selfie do chapéu Panamá

Longos séculos se passaram, nesse tempo imensurável das agonias, e o chapéu passou a ser meu, à revelia. Um grupo cruzou a alameda e ficou me olhando, olha lá o malandro, de calça de tergal e tudo, com aquele chapéu de sambista, deve ser compositor, a camisa social azul, vai ver é da Portela. O boato foi se criando, na encruzilhada das horas. Eu já não sabia se deixava o Panamá ali, abandonado, ou se incorporava o personagem já então de fama alastrada no jardim – o de malandro tirando a sesta do almoço, rumo a uma roda de samba, Madureira, Oswaldo Cruz, quem sabe o Estácio, metrô aqui pertinho.

Mas como eu mesmo atentara momentos antes, o chapéu já era meu, à revelia. Dúvidas não mais cabiam. Tivesse antes outro dono o Panamá, que merecimento o sujeito teria se o deixara ali, largado à própria sorte? Se fosse promessa ou simpatia, já teria cumprido seu destino. Se fosse oferenda, devia ser para o Zé Pelintra, e o mandingueiro é do riscado, ia aprovar o Panamá no figurino de um amante do samba, da Lapa, do Rio de Janeiro. E onde mais nesse mundo de Deus alguém dá de cara com um chapéu Panamá assim, na Casa de Momo e às vésperas da festa pagã?

É com esse que eu vou. Bom Carnaval!

Postado por Alexandre Medeiros às 4:56 pm
30 de dezembro de 2015

Que sejamos generosos como o Seu Ferreira

Sou adepto das coisas simples, da alegria que brota da batalha cotidiana. Neste ano que se encerra sob vaias e pragas por ter sido, para muitos, abjeto e renegado, daqueles que se faz questão de esquecer, chego ao limiar de 2016 com boas lembranças e uma boa dose de esperança, que sem isso não vivo. E com a convicção de que essa alegria que construímos no dia a dia, como diria Oswald de Andrade, é a prova dos nove.

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Em 2015 consegui bater perna no Cadeg, suar bicas nas estreitezas da Saara, ir ao Bip Bip ouvir bons sambas e papear com Alfredinho. Dei-me ao luxo de comprar uma vitrolinha azul portátil, e com ela resgatar LPs guardados há tempos, tipo a trilha do espetáculo Rosa de Ouro, com Aracy Cortes e Clementina de Jesus. Vi o Fogão ser campeão, fiz trilha na Floresta da Tijuca, tomei banho na Cachoeira das Almas e andei de caiaque na Praia Vermelha. Teve piquenique no Aterro, comi baião de dois na Feira de São Cristóvão, e jiló frito em Oswaldo Cruz. Meu filho mais velho passou para a faculdade, minha filha mais velha fez 15 anos, todos estão com saúde, amém.

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Alfredinho e a roda do Bip: privilégio

Sob o prisma da simplicidade, 2015 não foi tão mal assim. Perdi amigos queridos, é verdade. Mas reencontrei outros, e me reaproximei de alguns de quem me afastara. Perdas e ganhos, assim é a vida. Por isso acho 2015 um ano como qualquer outro, com coisas a lamentar e a saudar. Experimente, por exemplo, dar uma olhada no álbum de fotos do seu celular, ou encostar-se ao balcão do seu boteco preferido e lembrar com algum amigo de fé o que se passou neste ano que se despede. Vai achar coisa boa.

Tenho uma tendência a valorizar as boas lembranças. Não que as más sejam apagadas. Mas essa tática de levar a vida deixa meu coração mais leve, sem mágoas a acumular – como me ensinou Tia Eunice da Portela, Deus a tenha.

 

 

Guardo na memória uma cena que vivi no armazém do Seu Ferreira, ali pelos meus sete ou oito anos. O balcão onde o gato dormia era mais alto do que eu, e tinha de levantar a cabeça para admirar o baleiro imenso, com olhos ávidos. Entre engradados de madeira, cascos de cerveja, sacos de batata e de cebola, o baleiro girava que nem carrossel de parque de diversões. Sempre que podia, meu pai comprava uma bala. Mas nem sempre o dinheiro dava. E foi numa dessas vezes da penúria que Seu Ferreira, com aquela camiseta regata branca e seus tamancos de madeira, enxotou o gato, me colocou sentado no balcão, rodou o baleiro e deixou que eu escolhesse a bala Juquinha, abrindo aquela tampa de metal.

Saí dali flanando nas nuvens da Rua do Russel, na divisa de Glória com Flamengo. O gesto simples e generoso de Seu Ferreira inundou a Baía de Guanabara, o Rio inteiro, e não saiu mais da minha vida. Aquela alegria com sabor de bala Juquinha carrega com ela a generosidade, a camaradagem, a leveza d’alma. Desejo essa alegria a todos nós em 2016.

Postado por Alexandre Medeiros às 2:10 pm
24 de dezembro de 2015

Com ou sem crise, a simplicidade é o princípio do Natal

Este ano não teve festa de Natal lá na firma. Com a crise, não pegava bem gastar dinheiro com festa. Descobri com alguns amigos que várias empresas suspenderam as tradicionais festas de fim de ano, aquelas em que sempre algum colega paga mico, canta a mulher do chefe, cai bêbado no salão ou deixa o presente de amigo oculto com o garçom. Economizamos dinheiro, risadas e gozações com a crise. Mas ele nos deu um conselho de presente: é sempre bom lembrar que Natal não rima com ostentação, mas com simplicidade.

Certa vez, ao ser perguntado sobre opções de presente nessas famigeradas listas de amigo oculto, declinei com elegância. Sempre odiei essas listas. Além de cercearem a liberdade de escolha de quem vai dar o presente, elas tornam previsível o que, em essência, tem de ser surpresa. Ou seja, não prestam para nada.

Aqui em casa, há alguns anos, instado por meus filhos a apontar indícios mínimos de mimos de Natal, preparei uma lista. Como se trata de uma lista, digamos, permanente, ela atravessa períodos de bonança (raros), nos quais não me incomodaria em passar uma semana na Toscana, e de crise (fartos). Reproduzo-a aqui, a título de contribuição, e talvez ela reforce a ideia central deste e de todos os natais: a felicidade está nas coisas mais simples. Feliz Natal!

A lista:

  • Qualquer coisa que tenha a ver com o glorioso Botafogo de Futebol e Regatas, de um chaveiro ou uma caneca a uma camisa oficial;
  • Um botão de jogar, de preferência os antigos de madrepérola, galalite, vidrilha de relógio ou casca de coco;
  • Lenços brancos;
  • Uma bermuda com bolsos do lado;
  • Um CD de samba, desde que seja de samba de raiz, algo como Candeia, Monarco ou Luiz Carlos da Vila;
  • Um fusca 1972, em bom estado;
  • Uma semana na Toscana com todas as despesas pagas;
  • Duas semanas em São Miguel dos Milagres (AL), idem;
  • Três semanas num chalé na Serra da Mantiqueira, idem;
  • Um tamborim, um atabaque ou um pandeiro;
  • Um chapéu panamá;
  • Um bom livro;
  • Fotos antigas do Rio de Janeiro;
  • Uma caixa de guardar coisas;
  • Uma frigideira grande;
  • Temperos do mundo inteiro, com predileção por pimentas;
  • Um barco a remo;
  • Uma foto de lambe-lambe;
  • Mudas de orquídeas;
  • Um bom vinho tinto;
  • Um tênis de corrida;
  • Um soldadinho de chumbo;
  • Uma cachaça mineira;
  • Enfeites de árvore de Natal, em especial os feitos a mão;
  • Um santo de madeira do seu Dito Santeiro, de Nazareno (MG);
  • Um puro malte escocês;
  • Um cata-vento;
  • Bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha;
  • Brinquedos de madeira do Círio de Nazaré;
  • Uma camiseta bacana;
  • Fotos de família emolduradas onde eu apareça com cara bem engraçada ou bem feliz.
  • Um atlas;
  • Qualquer coisa dos meus filhos, um desenho, uma carta, um poema, um beijo (se eu pudesse escolher um só item dessa lista, seria esse).

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Postado por Alexandre Medeiros às 11:37 am
27 de novembro de 2015

Notícias de um mundo esquecido

Tem a tragédia de Mariana. Tem a lama da Lava Jato. E tem a seca no sertão. Aquele pedaço esquecido de mundo continua a sofrer calado com o flagelo recorrente dos açudes rachados, sem água para plantar, o gado definhando, as vidas indo embora. Estive lá há alguns anos com o fotógrafo e parceiro Severino Silva para registrar o drama dos sertanejos. A série de matérias “A seca tem rosto, nome e sobrenome”, publicada pelo jornal O Dia, retratava também a angústia dos nordestinos que migraram para o Rio de Janeiro e que ainda tinham parentes sofrendo lá no sertão.
Esta semana, as imagens fortes da seca nordestina voltaram a habitar meus pensamentos. Recebi um relato desalentador do padre Djacy Brasileiro, de Pedra Branca (PB), um incansável batalhador. O relato veio recheado de impressões de sertanejos colhidas pelo padre em suas andanças pelo semiárido. “O cenário é macabro, desolador. O querido torrão parece brasa. Tudo é sombrio, como se fosse um vale de lágrimas”, diz Djacy.

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Açude seco no Ceará. Foto: Severino Silva

Os relatos dos sertanejos ao padre de Pedra Branca dão a dimensão do flagelo “invisível” da seca. Longe dos holofotes da Lava Jato, e sem a repercussão da onda criminosa de lama em Mariana, o sofrimentos dos sertanejos, por eles mesmos:
“Sei não, estou com 84 anos, nunca vi coisa igual. Antigamente havia seca, mas como agora, nunca vi.”
“Como fazer a janta, se não tem um pingo d’água? Hoje a janta vai ser refrigerante com pão.”
“Quando falta água do carro-pipa, o jeito é a gente tomar água salobra. Depois que a gente bebe, a gente come rapadura para tirar o gosto do sal.”
“Meu gado está morrendo de fome. Não tenho dinheiro para comprar ração. Não sei o que faço. Tenho vontade de chorar quando vejo meu gado com fome e sede.”
“O leite acabou. O gado com fome e sede não dá leite. Acabou mesmo.”
“Na minha rua, algumas pessoas trocaram murros por conta de água. Cada um quer pegar sua água, só que não tem para todos, e aí começa a confusão. Menino chora, mulheres discutem e alguns homens vão logo para a tapa.”
“Onde eu moro, três horas da madrugada já tem fila grande de gente para pegar água. É um Deus-nos-acuda.”
“Quem pode comprar uma carroça d’água ainda vai, e quem não pode? Um carro-pipa particular mais de cem reais.”

Postado por Alexandre Medeiros às 5:18 pm
3 de novembro de 2015

55, ou quase, a caminho de casa

Eu não nasci de véspera. Mas guardo em mim uma ansiedade ancestral. Talvez isso atraia, como um imã, as conotações do porvir. Hoje vim caminhando na volta do trabalho, na antessala das minhas 55 primaveras, e fui colecionando migalhas de alegria. Na esquina de Conde de Baependi, dei de cara com a Nádia, feliz da vida, porque tinha conseguido finalmente liberar o empréstimo no banco para comprar, a duras penas, aquele apartamento na serrinha com que tanto sonhou. Caminhando até o ponto de ônibus do Largo do Machado, falamos da Claudia Lima e de sua recente viagem de autoconhecimento ao Caminho de Compostela, e da Nara, que acabou de conseguir um trabalho nessa batalha, que não está fácil para ninguém. Amém.

Veio o 184 e Nádia embarcou. Pela Rua das Laranjeiras agitada pensei que, depois do almoço, conversara por telefone com a Beta, e sua voz de menina, sobre os assuntos de família que a todos ora nos afligem, ora nos alegram. E que ouvira de Annamaria, nas distâncias de São Paulo, que o programa do fim de semana fora levar o cachorro ao veterinário e caminhar com uma amiga de museu em museu para enfrentar em vão as filas das exposições.

Em vão? Nem bem andei dois quarteirões para rever o Nelson Perez, parceiro de tantas jornadas atrás da notícia, numa mesa de bar, a espantar os rancores do dia. E com ele tomar duas cervejas a recordar das agruras de perseguir candidato a presidente na serra gaúcha, com jornal dentro das meias para conter inutilmente o frio, e a escapar de jagunços no sul do Pará, no encalço de uma boa história para contar. Se a gente não morreu daquela vez, pode esperar mais um pouco?

Do Nelson minha mente voou para o velho JB, onde tantos me ensinaram tanto. E aí lembro do Celso, que fez um crepe para reunir os amigos um dia desses, e que diz não ter medo da morte, e que vai levando a vida sem medo de ninguém. Do Kiko, arqueiro federado, que já foi alvo e flecha. E que hoje é arco. E do parceiro Marceu, que achou agora de cantar como se tivessem aberto a porta da gaiola da andorinha molhada. E ele virou sabiá.

Chego em casa e me enrosco nos cachos de Helena, esse perfume que perdura desde o berço. E logo chega a Cecília e sua voz grave a me chamar de pai e mandar botar a janta. E hoje mesmo o Francisco criou um grupo de WhatsApp só comigo e com irmãos, chamado de os “Medeirinhos”, em que uns zoam os outros, entre tarefas de escola, desenhos de TV e coisas que não entendo de jeito nenhum, mas que me divertem.

O celular apita e é o Bernardo dizendo que vai chegar tarde para jantar, está na autoescola. Encontro em cima da cama dele uns cadernos com as matérias da faculdade que começou esta semana. Com etiqueta e tudo.

Eu disse migalhas, meu Deus? Então não preciso mais que isso.

Postado por Alexandre Medeiros às 11:18 pm
6 de outubro de 2015

O Rio que ainda se quer negar

Em tempos de arrastões, justiceiros urbanos e execuções sumárias de jovens negros e pobres pela polícia (sob a égide dos famigerados autos de resistência) é recomendável uma visita aos jardins do Palácio do Catete. No ambiente bucólico, entre azaleias floridas de primavera, estão imensas fotos em P&B feitas pelo antropólogo norte-americano Anthony Leeds nas favelas cariocas durante a década de 1960. A exposição foi montada a partir do acervo doado pela viúva de Leeds, a cientista política Elizabeth Leeds, à Casa de Oswaldo Cruz. O ambiente hostil e as rudes condições de sobrevivência em que parte significativa da população da cidade fincou raízes podem ajudar a entender a dicotomia e o extremismo dos tempos atuais.

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As mulheres com latas d’água na cabeça atravessando a Rua Humaitá, a caminho da já extinta Favela Macedo Sobrinho, eram tão comuns na paisagem urbana como os jovens que hoje lotam os ônibus nos domingos de sol a caminho de Copacabana ou Ipanema. Já naquela época, os moradores das favelas em geral não tinham dinheiro no bolso, nem educação de qualidade, nem planos de saúde. Cidadania que seus herdeiros de mazelas de hoje em dia também não conhecem.

Nos idos dos anos 1960 havia um código em que irremediavelmente os habitantes das favelas caíam quando a polícia cismava: a vadiagem. Se não trabalhava, estava no ócio. Cana. Hoje a polícia cisma de outro jeito e considera crime não ter dinheiro no bolso quando se vai à praia – desde que você seja negro e ande de ônibus. É uma reedição da vadiagem, com requintes de crueldade. Como nos tempos em que Leeds fez seu mergulho antropológico nesse universo das favelas cariocas, este é um Rio que ainda hoje se quer negar.

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“O Rio que se queria negar: as favelas do Rio de Janeiro no acervo de Anthony Leeds” fica em exposição nos jardins do Palácio até 17 de janeiro de 2016.

Postado por Alexandre Medeiros às 6:22 pm
29 de setembro de 2015

De coisas esquisitas – ou não

Vamos combinar: há coisas bem esquisitas na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Algumas, de tão antigas aos nossos olhos, caem no costume. Mas não é por isso que deixam de ser esquisitas. Lembro-me de um vizinho lá na Praia do Flamengo que costumava sair para caminhar no Aterro de sapato e meia social. Vi o sujeito fazendo isso anos e anos, já não me surpreendia, e ele devia achar um conforto só aquela composição, com short apertado e camiseta regata. Mas achei esquisito até a última vez que meus olhos cruzaram com aquela esquisitice.

Em tempos de crise como este em que vivemos, uma loja de colchões é algo bem esquisito. Fico até com dó de ver aqueles vendedores com jalecos brancos, como se fossem médicos ou professores, a distribuir os panfletos de promoção a quem passa na correria. Se o sujeito mal tem para a compra da semana no mercado, como vai se decidir, assim, num átimo: “Ah, sim, tenho que trocar o colchão lá de casa!”.

É duro, mas é a realidade: trocar o colchão, infelizmente, será um sonho adiado nessa tormenta. Vai ver é por isso que as lojas de colchão usam de uma tática bem mais esquisita que o fato de estarem com as portas abertas. Colocam músicas em alto e bom som com caixas possantes viradas para a rua. Chego a imaginar que andam a pensar em vender CDs, vinis ou coisas do gênero. Mas é só uma forma de chamar a atenção de quem passa, tipo festa de vizinho na vila.

O pior é que essa esquisitice se propaga. Arguto observador do cotidiano, o querido professor Nelson Moreira, morador de Vila Isabel e conhecedor dos meandros da cidade, registra que a tática de colocar música alta é também usada por supermercados, farmácias e lojas de departamentos – comércios que, perto de uma loja de colchões, são como bancos no meio da crise. Quer dizer, quase como bancos. Só que não. Já viu banco reclamar dessa crise? Entra num banco e vê se eles botam funk na caixa?

Se a gente reparar bem, tem coisa esquisita que passa diante de nossos olhos todos os dias. E cada esquisitice encontra eco no âmago de cada cidadão. Tem gente que não acha, mas eu acho esquisito ver tanta loja chinesa na Saara. Eu que aprendi a negociar preço ali com os sírios e os libaneses, fico meio deslocado com aqueles chineses que mal olham na sua cara. Pensei nisso esses dias, com tanta notícia sobre os refugiados sírios na Europa. Os que vieram para cá em outros tempos, e se estabeleceram na região que depois viria a ser conhecida como Saara, criaram ali um modo de vida que se mesclou ao nosso, em harmonia, criaram suas famílias e fincaram outras raízes. Com a “invasão” chinesa, é até difícil achar um “primo” por ali.

Tem coisa que parece esquisita de longe, mas de perto não é. Vinha eu esses dias calmamente pela Rua do Catete quando avistei ao longe um grupo de mulheres carregando latas d’água na cabeça. Sim, isso mesmo, que nem naquele samba memorável na voz da Marlene. Seria outro reflexo da crise? Era só o que faltava. Chegando mais perto, vi que se tratava de uma instalação para promover uma mostra de fotos antigas sobre favelas do Rio no Palácio do Catete. Uma bela sacada. Mas, pode apostar, deve ter gente que achou esquisito. Porque o que não falta nessa cidade, além de coisa, é gente esquisita.

Lata d'água na cabeça

Lata d’água na cabeça

Postado por Alexandre Medeiros às 10:16 pm
28 de agosto de 2015

O “balneário” do Recreio

Ainda hoje a distância dá preguiça só de pensar, mesmo com as largas avenidas de acesso, BRT, BRS e outras siglas de transporte público. Imaginem em priscas eras, quando o jeito era pegar lotação? Falo do Recreio dos Bandeirantes – com esse nome pomposo que eu achava, e ainda acho, tão apropriado. Ir lá ainda soa como uma aventura, uma saga tipo “entradas e bandeiras” que a gente aprendia no colégio. Outro dia contei aqui neste cantinho que muitas vezes eu e meu primo Sérgio pegamos ônibus com prancha para encarar as ondas no Pontal do Recreio, onde parecia que o mundo findava. Depois dali era difícil imaginar traços de civilização – o que despontava para lá do morrão de pedra era o paraíso selvagem de Prainha e Grumari.

Lembrei dessas proezas juvenis esses dias, quando um amigo postou no Facebook uma foto antiga do Pontal (abaixo), onde brilhava com todo o seu esplendor o Restaurante Âncora. Para nós, à época surfistas de prancha ou peito, com o dinheiro contado da passagem, o Âncora era uma espécie de porto seguro, onde a gente bebia água ou se socorria de qualquer sufoco. Os garçons eram camaradas. Éramos nós e aquelas famílias que iam lá almoçar como programa de fim de semana, para comer o carneiro à caçadora (de criação própria, como o restaurante fazia questão de alardear) e uma paella que deixava a rapaziada com água na boca só de sentir o cheiro lá na areia.

Tudo em volta do Âncora, aliás, era um grande areal. Cada fusquinha que passava, cada Gordini, cada kombi de lotada, a poeira subia. Não tem mais Vemaguet (adorava esse carro, meu tio Dirceu, pai do Sérgio, tinha um), não tem mais Aero Willys, e o Âncora sumiu na poeira do tempo com seus carneiros e sua camaradagem. No “balneário” do Recreio saiu o charme de uma aventura de fim de semana para ficar aquele jeito concreto e vidro fumê de prolongamento da Barra. Filosoficamente falando, pelo menos para mim, o Pontal do Recreio ficou ainda mais distante. Dá preguiça só de pensar.

Âncora

Postado por Alexandre Medeiros às 5:28 pm