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PUBLICADO EM 26.10.2015 - 12:05

A poeira da glória

Está chegando às livrarias um catatau de 600 páginas que tem tudo para encher o saco dos literatos mais xiitas do país. “A poeira da glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira”, de Martim Vasques da Cunha, bate forte em alguns dos ícones das nossas letras. Basta dizer que, segundo ele, Machado de Assis é um dissimulado, com visão estreita do mundo, e sua enigmática criação apenas disfarça sua superficialidade. Os estudiosos Sérgio Buarque de Hollanda e Antonio Candido também apanham, assim como os modernistas e tantos outros. Entre os contemporâneos, ele não poupa Daniel Galera, responsável pelas “cinquenta páginas finais mais constrangedoras de nova literatura brasileira”. Bernardo Carvalho também entra no rolo e, por extensão, a própria produção recente do país.
Mas há flor que se cheire. Martim respeita Nelson Rodrigues, Otto Lara Resende e Cecília Meireles, por exemplo, lamenta as armadilhas em que caiu Lima Barreto etc etc. É em Otto Lara Resende que ele encontrou a expressão “poeira da glória”, referindo-se à fama não exatamente merecida de inúmeros autores a quem reverenciamos sem grandes questionamentos.
Como se vê, Martim não está aí para brincadeira. A obra merece respeito. Difícil será encontrar outros interlocutores que queiram rebater o livro. Dá para entender o argumento do Martim, que é jornalista e doutor em filosofia política. É um sujeito bem preparado, bem informado, cheio de argumentos e, pelo jeito, daqueles que procuram (e encontram) cabelo em ovo. E eis então seu grande mérito: provocar o debate numa época marcada pela pasmaceira intelectual. A literatura brasileira está precisando dessa chacoalhada.
A questão central do livro é debater menos a literatura do que a cultura do brasileiro. É um esforço para que começamos a entender, ler nas entrelinhas da nossa literatura, que tipo de sujeitos somos. Ressentidos, vaidosos, superficiais, corruptos, idiotas etc.
Aliás, ao ler a introdução do livro, minha primeira reação foi pensar que não devemos repercutir a voz dos imbecis e, por isso, nem valeria a pena comentá-lo aqui. Falo isso porque Martim, achando-se o dono da cocada preta, é agressivo e desdenhoso em relação a 99% da humanidade. Logo em seguida, no entanto, quando a conversa começa de fato, ele mostra que estava fazendo apenas o gênero malvadinho que a intelectualidade coxinha gosta de exibir para marcar presença. Mas o livro é dele, e ele escreve o que bem entender, certo?

Ao fim desta primeira leitura, totalmente em diagonal, quis voltar a alguns trechos que me chamaram a atenção, mas a falta de um índice onosmático me deixou na mão. Quis saber, por exemplo, quantas vezes Martim se refere ao Flusser. Muito em breve, quando encontrar tempo para aprender algo de novo, volto ao livro com marcador de texto e post-it.
“A poeira da glória” é rico, exige tempo e dedicação, bem diferente do que costumo sugerir neste blog. Por aqui, a ideia é a gente passear sorridente pela superfície das letrinhas, sem a preocupação com as profundezas da literatura, da alma humana, o escambau. Acredito que esse mergulho, entretanto, dependa dos talentos e das necessidades do autor e do leitor. Às vezes essa conexão profunda acontece, mas só às vezes – e cada vez menos, a julgar pelo que temos produzido nas últimas décadas.
Pelo que vi, Martim quer porque quer que os escritores cumpram a missão de cutucar fundo as feridas da Humanidade. Não quer a arte pela arte, mas arte com subtextos, desígnios, inúmeras intenções. Assim, parece ditar regras para a obra alheia, e eis aí sua luta inglória. Bem intencionada, mas inglória. E o mercado editorial também não parece exatamente preocupado com essas questões.
Enfim, fica a sugestão para uma leitura de fôlego e da pesada.

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