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PUBLICADO EM 01.11.2015 - 0:56

Lobão, ecce homo

E então, de repente, não existe mais meio termo na espécie humana. Ou o sujeito é gênio ou é uma besta quadrada. Ou é bom, ou é mau. Ou é preto, ou é racista. Gay ou homofóbico. Parece que não há mais semitons na conversa. Comas? Melhor esquecer de vez.
O Lobão, por exemplo. Era tido como um grande cara, compositor de primeira linha da boa música brasileira, combativo, sempre mandando uma letra digna, ligado na real do país e do mundo etc. Aí, quando a gente se toca, dizem que se tornou um coxinha desavergonhado, porta-voz da direita mais safada, anticristo tagarela. Bobagem grossa. Lobão apenas exerce seu direito de falar o que bem entende – eis aí seu maior mérito. Você, por exemplo, fala o que pensa? Pensa no que fala? Eu, não, nem sempre.
Meti o Lobão na conversa por conta de seu novo livro, “Em busca do rigor e da misericórdia”. Me fez lembrar Nietzsche da linha “Ecce homo”: por que escrevo livros tão bons, por que sou foda etc e tal… Equivocado ou não, Lobão fala o que pensa. E bem claramente. Ele exerce também o direito de mudar de opinião – o que tem parecido ser um crime nojento, mas é apenas sinal de que o sujeito não está boiando na inércia mental.
A propósito, não há como discordar de tantas de suas queixas. Dói reconhecer, mas o Grande PT tornou-se mesmo indefensável. Já a música brasileira está mergulhada numa idiotice profunda – na verdade, acredito, acompanhando todo o descaso com a educação e a cultura. E por aí vai o Lobão fazendo a festa. Suas críticas são muitas. Só que ele mesmo perde o semitom quando esquece de dizer que nem tudo é culpa do PT.
O tal descaso com a educação e a cultura, por exemplo, não é exclusividade do PT. É uma política de desmantelamento iniciada em priscas eras, e deu no que deu. Somos um país de banguelas culturais, cheios de lacunas a esperar um salvador da pátria a nos socorrer. Sebastianistas, graças a deus. E nem queiram me convencer que Aécio ou Serra seriam os grandes representantes da moral e dos bons costumes do país. Ahahahá. Sendo estes os candidatos naturais da direita, não teremos para onde correr.
Mas desviei do assunto. A conversa do Lobão, na nova obra, é contar seu trabalho de criação de canções do novo CD e, mais que isso, a tarefa de gravá-lo sozinho, tocando todos os instrumentos e a devida parafernália tecnológica (eu bem gostaria de experimentar alguns de seus violões).
Entrementes, como não poderia deixar de ser, Lobão senta o cacete no governo PT e nas cabeças hoje reinantes. Há anos está bem à vontade nesse papel. Queixa-se de vez em quando, diz-se vítima de perseguição. Mas não desiste. Ama bater forte em ilustres como Caetano et caterva – sem deixar de fora do jogo a über Paula Lavigne, que gerenciaria a Máfia do Dendê, organização informal com fins lucrativos que decide o who is who do showbiz musical brasileiro.
Não concordo quando Lobão diz que os comunistas estão chegando, ocupando terreno na esteira do governo populista. Não deve ser nada disso. Mas assim acham Lobão e sua turma, com nomes respeitados que têm fomentado o discurso da direita-cabeça, a começar pelo Olavo de Carvalho. Às vezes, o que a gente acha tem a ver com a realidade. Outras vezes, não.
Enfim, eis aí mais um bom livro para discussão, cultura, informação e entretenimento. Este “Em busca…” deve se tornar mais um best-seller do Lobão. Como seus dois anteriores, aliás, reforçando sua importância como um dos porta-vozes da direita do país. Pena que, no Congresso, essa direita seja liderada por alguns dos mais podres deputados eleitos democraticamente no último milênio. Mas aí é outra história.

Dois remendos para a próxima tiragem: Trocar para “Manitas de Plata”, na pg 54, e para “R$ 10″ ou “dez reais”, na 131.

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