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PUBLICADO EM 02.12.2015 - 22:59

Bateau Mouche: Tragédia brasileira

Eu era molecão quando passei um réveillon no Bateau Mouche IV. O mar batia muito, chovia, e muita gente passou mal. Essa experiência rolou justamente um ano antes de esse mesmo barco afundar, matando 55 pessoas, num episódio bárbaro e ainda hoje mal resolvido. Lembrei disso porque o Ivan Sant´Anna, verdadeiro jornalista diletante, acaba de lançar “Bateau Mouche – Uma tragédia brasileira” (Ed. Objetiva). É uma aula de reportagem, com muita memória e investigação sobre o acidente que horrorizou o país já nas primeiras horas de 1989.

Negligência e impunidade cercam a história toda. Na noite de 31 de dezembro de 1988, cerca de 150 pessoas embarcaram no Bateau IV em Botafogo. Tudo leva a crer que estava superlotado. Tanto que a Capitania dos Portos interrompeu a viagem quase no meio do caminho, começando então um caso nebuloso que envolve, segundo testemunhas, corrupção e desrespeito à vida humana. Depois de uma conversa entre os organizadores da festa de réveillon e os oficiais da Capitania, a embarcação foi autorizada a retomar o curto trajeto até a orla de Copacabana.

Foi então que o Bateau começou a sofrer com o mau tempo, o excesso de peso a bordo, falta de preparo, falta de boias salva-vidas etc. Não era um barco de primeira, mas um ex-pesqueiro mal adaptado para o turismo. Enfim, todo o drama está contado em detalhes no livro do Ivan Sant’Anna. Ele consultou jornais da época, entrevistou sobreviventes, testemunhas do acidente, advogados e técnicos. Um belo trabalho de apuração para construir um thriller mais do que real.

Ivan também mostra o que aconteceu com os responsáveis pelo acidente: nada, ou quase nada. Assim, fica dito que, mais uma vez, o clima de impunidade foi o que prevaleceu. Curioso é que o Ivan não é historiador ou repórter de formação. Sua praia mesmo era o mercado financeiro, onde fez grana durante 40 anos. Desde 1995, no entanto, embarcou na literatura (vendeu bem mais que seu irmão escritor, o mestre Sérgio Sant´Anna) e em seguida começou a publicar livros sobre acidentes que comoveram o Brasil. Descobriu, assim, um ótimo filão, que ele soube respeitar.

Aliás, como o Brasil é o país de inúmeras tragédias anunciadas, Ivan sempre terá muito material de trabalho.

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