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PUBLICADO EM 22.02.2016 - 12:40

Ter amantes é um velho hábito. Pode até ser saudável

Muita gente ficou surpresa com a descoberta de que Fernando Henrique Cardoso teve uma amante durante anos, o que resultou em filho fora do casamento etc e tal. A história é antiga, porque a “Caros Amigos” publicou a respeito em 2000. Até Dona Ruth Cardoso sabia (e ela, dizem por aí, também fazia das suas). Certo é que manter relacionamentos paralelos ao casamento é um velho hábito da humanidade. Velho e eventualmente sadio, chegando a ser estimulado por diferentes culturas do planeta. Ao menos foi o que aprendi com um ótimo livro que está chegando às prateleiras: “Amantes”, da canadense Elizabeth Abbott. Trabalho de fôlego e de leitura fluida, sem chatices.
Me pegou de jeito, porque é o tipo do assunto que desperta curiosidade, embora muita gente não assuma isso. Basta ver o quanto já não lemos a respeito, por exemplo, de casos como Marilyn Monroe & John Kennedy, ou Ted Kennedy & Jacqueline & Onassis & Maria Callas, ou Príncipe Charles & Camilla Parker-Bowles, ou Princesa Diana & vários amantes, Bill Clinton & A Estagiária etc. Sem falar nas versões nacionais, tipo Dom Pedro I & Marquesa de Santos etc etc e põe etc nisso.
Elizabeth Abbott levantou uma extensa lista de amantes desde Agar, escrava de Sara e de Abraão – aquele da Bíblia, que teria vivido entre 2000 e 1900 aC. A pesquisadora passa pela Antiguidade, pelos países orientais, pela época áurea dos reis e rainhas europeus, mafiosos, políticos, artistas, o diabo a quatro – além desses estrangeiros já citados aí acima.
Elizabeth dá a volta ao mundo sempre relacionando os amantes ao seu contexto histórico, político e cultural. E lembra que casamentos de conveniência, impostos pelas famílias ou por vários motivos, nem sempre resultam em amor e paixão, esses conceitos que estão longe de ser universais e eternos. Amantes, nesse cenário, são quase inevitáveis, até mesmo para manter a saúde do relacionamento “oficial”. Ao menos é o que dizem, e nem tenho nada a comentar. A conversa vai muito além da pura fofoca.
No livro há casos delicados como o de Santo Agostinho, que viveu 15 anos com a mãe de seu único filho, uma concubina cujo nome foi apagado da história oficial. Foram perdidamente apaixonados e, pelo que se sabe, o fim do relacionamento fez o jovem e brilhante pensador abraçar o celibato e o sacerdócio. E há também relatos bem mais apimentados, envolvendo dinheiro, poder ou pura sem-vergonhice mesmo – mas na boa. São 600 páginas de muitas historinhas interessantes sobre anônimos ou famosos.
Enfim, temos aqui um ótimo retrato do comportamento humano, mostrando que a moral e os bons costumes são muito variáveis, cambiantes de tempos em tempos – e que ninguém, no fim das contas, tem autoridade legítima para repreender as ações alheias.

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