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PUBLICADO EM 13.04.2017 - 12:41

Dinheiro de sobra não sobra

Haveria muitos motivos para recomendar “Tancredo Neves, o príncipe civil”, do jornalista Plínio Fraga. Senhoras e senhores: é um baita livro, obrigatório, sobretudo quando vemos a sociedade flertar com fascistas, ditaduras e esquisitices afins. A história se repete, a gente sabe, e é por isso que vale a pena voltar ao passado, a ver se aprendemos alguma coisa. Esse livro é uma boa oportunidade. Mas vou falar aqui somente sobre o capítulo “Dinheiro de sobra não sobra”. Como diz o Plínio Fraga, “vem de longe a ideia de que as sobras de doação da campanha eleitoral pertencem ao concorrente que as arrebatou”.
Plínio faz um breve histórico de como as sobras de campanha foram reaproveitadas em benefício próprio dos candidatos. Cita o marechal Eurico Gaspar Dutra, eleito em 1945. A primeira-dama, Carmela Dutra, exigiu que o dinheiro fosse usado na construção de uma capela no Palácio Guanabara. Não fizeram por menos, esbanjando mármore belga, português e mineiro. Um presente do casal Dutra ao povo brasileiro, disse a santa Dona Santinha, que já tinha conseguido a proibição do jogo e a ilegalidade dos partidos comunistas. Quem manda, afinal? Lá em casa não é muito diferente.
Juscelino Kubitschek, claro, também foi acusado de ter sido ilegalmente financiado por construtoras e bancos, entre outras empresas de olho grande em Brasília. Jânio também passou por acusações do tipo. Sem falar na sobra de campanha do Collor, estimada em US$ 52 milhões pelo Paulo César Farias, num total de US$ 120 milhões em contribuições. Não foi diferente nas disputas estaduais.
Voltando um pouco no tempo, claro que Tancredo também viveu isso. Sua campanha à presidência foi “rica e pujante”, contando com especial atenção da construtora Camargo Corrêa e da Gerdau. O banqueiro Ronaldo Cezar Coelho levantou US$ 1 milhão em valores atuais. Não faltaram acusações, investigações e, claro, tudo virou história.
E as sobras da campanha? Calcula-se, em valores de hoje, algo em torno de US$ 10 milhões. Por orientação de Tancredo, a grana teria que ficar no PMDB, aos cuidados do Hélio Garcia – que foi governador de Minas, entre tantas funções. Era seu homem de confiança. Assim foi feito. E aí vieram a doença, a morte, o enterro do presidente que não chegou nem a tomar posse.
Depois que o pai foi enterrado, Tancredo Augusto procurou Hélio Garcia, a ver o que poderia ser feito com a grana. Hélio não quis prestar conta. Ficou por isso mesmo. Resumo da história, segundo Tancredo Augusto:
“Eu mandei ele a puta que pariu”.
Ótima história.
A propósito, o inventário dos bens de Tancredo chegaria a R$ 3,2 milhões, em valores de hoje, atualizados apenas inflação. Nesse bolo, entretanto, havia muitos imóveis, que valeriam hoje R$ 22,7 milhões, segundo o mercado.

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