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PUBLICADO EM 06.06.2017 - 16:20

Aprendam a contar histórias

Ler as notícias de política é sempre um exercício de paciência pela má qualidade literária das mentiras que nos contam diariamente. Nas últimas semanas, por exemplo, líderes da direita e da esquerda (como se fizesse diferença) querem nos fazer engolir histórias a que falta um mínimo de verossimilhança. Por isso, com o mais nobre intuito pedagógico, esta humilde coluna indica três grandes contadores de histórias, a ver se nossos políticos aprendem algo.
Talvez porque nosso Congresso esteja precisando de uma profunda limpeza, a primeira dica é “Manual da faxineira”. É uma coletânea de contos da americana Lucia Berlin (1936-2004). Seu humor peculiar destroça qualquer mimimi que o leitor tenha em seu coração. São contos bem realistas, que retratam pessoas absolutamente comuns em situações inusitadas, em que a surpresa é inevitável – assim como um eventual desconforto. Mesmo pessimista, ou até por isso mesmo, a narrativa é certeira. E o recado é: aproveite a vida, porque sofrer não é a melhor opção. Lucia, a propósito, sabia bem sobre o que estava escrevendo. Teve uma vida bem difícil, entre subempregos e alcoolismo, entre paixões inglórias e preconceitos. Nada disso a fez perder a certeza de que estava construindo uma obra importante – e por isso não parou de escrever. Infelizmente, só fez sucesso depois que morreu, vítima de câncer. Se nossa cultura não fosse tão machista, ela certamente teria feito sucesso desde a publicação de seus primeiros contos. Só nos resta passar bons momentos ao seu lado.
A segunda dica é “Assim na terra como embaixo da terra”, de Ana Paula Maia. É uma força da natureza. Em pouco mais de cem páginas, Ana Paula cria uma colônia penal onde o Mal é o grande comandante. A brutalidade da história bem serve de metáfora para nossos tempos, em que o caçador, tirano por definição, não vê limites para seu trabalho sujo. Seu objetivo é anular nossa existência em qualquer esfera (política, social, econômica, pessoal…), trancafiando-nos num baú de onde só sairemos com muita sorte. Difícil não pensar, novamente, em ditadura, prepotência, repressão, violência, cerceamento de direitos. Difícil não pensar em Brasília. Enfim, anote aí: Ana Paula Maia sabe o que está fazendo.
“Dicionário de línguas imaginárias”, do Olavo Amaral, é uma baita experiência de linguagem, que me lembrou Borges, Cortázar, José Agripino de Paula e outros tantos experimentadores de primeira linha. Já não é literatura para iniciantes, mas uma grande aula de como podemos tornar verossímeis histórias que, aparentemente, nunca existiram. É bacana pensar que Olavo, na “vida real”, é neurocientista e bioquímico. Lidar com os meandros da raça humana, portanto, faz parte do seu dia a dia. Bela surpresa.

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