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PUBLICADO EM 21.06.2017 - 16:32

Sejamos honestos

As notícias sobre Sérgio Cabral & famiglia me lembram “Onde está a honestidade?”, do eterno Noel Rosa. Diz assim: “Você tem palacete reluzente/ Tem joias e criados à vontade/ Sem ter nenhuma herança nem parente (…) E o povo já pergunta com maldade:/ Onde está a honestidade? (…) O seu dinheiro nasce de repente/ E embora não se saiba se é verdade/ Você acha nas ruas diariamente/ Anéis, dinheiro e até felicidade”. Grande Noel.
Pensei nisso ao fim de um dos livros mais honestos que já passaram por aqui. Chama-se “Meu menino vadio”, de Luiz Fernando Vianna. Ele conta sua experiência com o Henrique, seu filho autista. É um drama familiar inimaginável para quem está fora desse contexto. Mas em nenhum momento isso é motivo para baixo astral no relato do Luiz Fernando. Pelo contrário. O bom humor com que ele trata a situação chega a ser desconcertante.
A questão se agravou porque, inesperadamente, a mãe do Henrique levou-o para morar na Austrália quando ele tinha 5 anos. No entanto, quando a barra ficou pesada, a criança, hoje adolescente, veio morar com o pai. Já seria, por si, uma questão complicada mesmo sem o autismo, que demanda tanta dedicação por parte dos pais.
É nesse ponto que Luiz Fernando começa a contar a história. Reconhece que sempre foi meio desajustado e que, dadas as circunstâncias, o próprio casamento não teria como dar certo. A coisa desanda de vez quando Henrique dá sinais da doença. A partir daí, temos a batalha para recuperar o garoto e a difícil convivência com uma sociedade doente como a nossa. Para o bem ou para o mal, leitores cariocas vão se reconhecer em alguns trechos da história.
Fica a dica. Luiz Fernando consegue a mágica de tratar de um assunto complicado, sem rodeios, sem mimimi nem blábláblá. Informa e, para surpresa geral, faz o leitor sorrir, sem deixar de provocar reflexões a respeito de uma sociedade tão estúpida, hipócrita, desonesta.
Aliás, considerando que o assunto merece ser discutido amplamente, vale ler também o “Vida animada”, do americano Ron Suskind. Aos 3 anos de idade, quando deixou de ser uma criança “normal” e foi diagnosticado com autismo, seu filho Owen passou a se refugiar nos desenhos animados. Assim, os filmes e personagens da Disney, em especial, serviram como o canal de comunicação entre o garoto e o mundo. Hoje, Owen é um homem adulto, capaz de viver longe do pais. É uma experiência intrigante, mostrando como o tratamento adequado (e honesto…) é fundamental para todos que estejam convivendo com o autismo.

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