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PUBLICADO EM 07.07.2017 - 16:46

Lima Barreto, sempre

Imagine um país cujo povo assiste apaticamente a todos os abusos de poder, aumentos de impostos, suspensões de direitos, roubalheiras oficiais, armações de todas as espécies e corrupção em todos os níveis. Por isso mesmo, seus políticos e autoridades vão se enchendo de dinheiro público, sem medo de punição, tratando de se perpetuar no poder e chutando para escanteio os ladrões que queiram fazer concorrência.
Bom… não precisa imaginar muito. Esse país já existe. Chama-se Bruzundanga e foi imaginado por Lima Barreto (1881-1922), o mais crítico de todos os escritores cariocas e um dos meus heróis. Por isso mesmo, não é pura coincidência qualquer semelhança de “Os bruzundangas” com este Brasil que a gente conhece. O que acontece hoje por aqui é apenas um sinal de que as moscas mudam, mas a matéria de que é feita a nossa sociedade continua a mesma há muito tempo. Os ratos fazem a festa, sejam eles federais, estaduais, municipais etc etc etc.
É por essas e por outras que recomendo veementemente o livro “Lima Barreto – Triste visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz (trabalho de fôlego, como todos os outros produzidos por ela). Lima é o tipo do sujeito que todos os cariocas precisam conhecer até mesmo para que se reconheçam como sujeitos, e não apenas como objetos inúteis de sua história. É isso que estamos sendo, afinal: bonequinhos de ventríloquos, massa de manobra, patinhos amarelos sem dignidade, incapazes de ensaiar qualquer reação à exploração cotidiana que nos é jogada na cabeça.
De onde quer que esteja, Lima Barreto está assistindo a tudo sem se surpreender e, pior, lamentando profundamente que não tenhamos aprendido nada, nada, nada com a sua Bruzundanga. Pelo contrário, até. Parece mesmo que só os bandidos aprenderam algo.
Tanto que a escritora paraibana Andrea Nunes imaginou uma história incrível, partindo da ideia de que o plano mais ousado do crime organizado seria tomar o poder central do país – e isso, claro, só pode ser exequível no mundo da ficção. Ou não? Em “A corte infiltrada”, ela conta como um jornalista descobre alguns podres no coração do Supremo Tribunal Federal, aquela caixa-preta que pode controlar a todos e que não é controlada por ninguém. Ou seja, é o local ideal para quem tem planos macabros, e é nesse cenário que a trama se desenvolve.
Aproveitando sua experiência como promotora de Justiça, Andrea Nunes costurou um thriller assustador porque quase tudo que ela imaginou pode estar, de fato, acontecendo. A esta altura da vida, eu não duvido de mais nada. O que é uma pena.

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