Joia lusitana no Centro do Rio

Por: Bernardo Argento

Publicada em 01 de abril de 2015

Real Gabinete: uma das mais belas bibliotecas do mundo

Real Gabinete: eleito uma das mais belas bibliotecas do mundo

Em 2014, o Real Gabinete Português de Leitura foi eleito pela revista Time a quarta biblioteca mais bonita do mundo. E as celebrações do aniversário de 450 anos do Rio são uma boa oportunidade para (re)visitar a instituição. O belíssimo prédio da rua Luis Camões, no Centro, sedia uma exposição sobre periódicos do século XIX, com enfoque na cidade, até junho. Esta é a segunda mostra do projeto “Real em Revista”, que pesquisa jornais e revistas oitocentistas e vem sendo tocado desde janeiro de 2014.

“Privilegiamos uma temática identitária da cidade, com um painel sobre o Pão de Açúcar, um símbolo nacional, que nos une e faz parte da paisagem carioca. Focamos também nos transportes urbanos do século XIX, um problema ainda atual. Procuramos trazer problemas daquele século que ainda são questões atuais. E completamos com a parte das ruas, da praia, do banho de mar, os parques… enfim, o Rio de Janeiro do século XIX concentrado numa pequena mostra”, explica a professora Angela Maria Teles, umas das pesquisadoras do projeto.

A história do Real Gabinete – um pedaço de Portugal na região central do Rio – começou especificamente em 14 de maio de 1837, 15 anos após a Independência do Brasil. Quarenta e três emigrantes portugueses decidiram criar uma biblioteca para ampliar o conhecimento dos seus conterrâneos residentes na antiga capital do Império. A ampla maioria deles vivia do comércio. “Essa casa é única, uma biblioteca aberta a todos interessados. Possui até hoje o maior acervo de obras portuguesas fora de Portugal. E os criadores estavam preocupados em dar formação e educação. Sobretudo aos caixeiros, que eram jovens que trabalhavam no comércio, e não tinham muita oportunidade para leitura. O horário amplo de funcionamento ajudava a suprir essa ausência”, afirma Gilda Santos, vice-presidente do Real Gabinete.

Antes de se tornar uma das mais belas bibliotecas do mundo, o Real Gabinete funcionou em sobrados. Apenas quando das comemorações do tricentenário de Luís Camões, em 1880, a colônia portuguesa no Brasil decidiu tocar o projeto da construção de um lugar mais apropriado. Foi neste momento que entrou em ação o arquiteto português Rafael da Silva Castro. O profissional deu um toque neomanuelino (relembrando o estilo do século XVI), que está presente desde a inauguração, em 10 de setembro de 1887, até os dias de hoje. Em 1900, o local foi aberto ao público em geral, mas a presença mais vista era de integrantes da alta sociedade. “Os grandes intelectuais brasileiros perceberam no Real Gabinete um espaço de convívio e troca de ideias, com a possibilidade de recorrer ao acervo que não parava de crescer. Era um lugar ideal para a propagação de cultura”, analisa Gilda Santos.

Um dos frequentadores ilustres era Machado de Assis, que deve ao acervo da biblioteca parte de sua erudição. Depois de se tornar um grande escritor, manteve contato com a diretoria do Gabinete. Como presidente da Academia Brasileira de Letras, ministrou as primeiras cinco sessões solenes da instituição no ambiente que sempre serviu de ponte entre Brasil e Portugal. “Os governos português e brasileiro sempre reconheceram no Gabinete este espaço importante de diálogo luso-brasileiro. Muitos portugueses que vieram ao Brasil tiveram cerimônias solenes aqui, junto da comunidade lusitana do Rio de Janeiro. Os próprios presidentes brasileiros sempre prestigiaram a instituição, desde Getúlio. Isso atesta o prestígio do Gabinete e sua interação com a Cidade Maravilhosa”, destaca Gilda Santos.

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