Leiteria Mineira, patrimônio culinário carioca

Por: Bernardo Argento

Publicada em 09 de janeiro de 2015

O sorvete na Mineira após o footing na Ouvidor: belle époque no Rio

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No começo do século XX, o Rio de Janeiro vivia um processo de remodelação inspirado no modelo parisiense, buscando a reconstrução de uma cidade mais arejada no lugar da velha cidadela colonial. Novas avenidas, como a Central (Rio Branco) eram construídas; bondes elétricos entravam em circulação e novos marcos da cidade, como o Theatro Municipal e o novo prédio da Biblioteca Nacional eram inaugurados. O futebol dava seu pontapé inicial com o primeiro Campeonato Carioca, vencido pelo Fluminense em 1906. No Centro, pulsava o coração da cidade. Lá, na Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco, a Leiteria Mineira começava suas atividades. Cento e cinco anos de bons serviços prestados depois, o estabelecimento acaba de ter sua importância reconhecida: foi oficialmente considerado um “bem imaterial” da cidade, por sua tradição e reputação de qualidade.

A localização privilegiada e o cardápio – com sorvetes, mingau, coalhada e arroz doce – sempre foram os principais ingredientes do sucesso duradouro. ”A leiteria causou uma revolução quando abriu e, mais tarde, foi pioneira, trazendo o milk shake para a cidade. E funcionava em uma ótima localização, a Galeria Cruzeiro, onde o Carnaval bombava (basta lembrar de Camisa amarela, de Ari Barroso, na qual o folião “exibiu um sorriso de ironia e desapareceu no turbilhão da Galeria”). O ponto alto era ali. Também era interessante porque o bonde passava por dentro da Galeria, o que melhorava ainda mais o movimento da leiteria”, diz o sócio administrador José Augusto Oliveira.

A Mineira – aberta em 1909 por mineiros da Fazenda do Socego (com “c” mesmo) para escoar a produção de lacticínios do local – continua presente no dia a dia do carioca, mas com outro endereço: Rua da Ajuda, 35, praticamente em frente do endereço histórico. Entre a década de 1950 e até 1982, o estabelecimento funcionou na Rua São José, 82. As mudanças, contudo, não interferiram no estilo do local, que segue servindo café da manhã, lanches e almoços com pratos tradicionais como dobrada à moda do Porto e língua com purê. Sem falar da indefectível canja.

“Eu frequento a Leiteria Mineira há 20 anos aproximadamente. Hoje, estou aposentado e, mesmo morando na Barra, continuou vindo aqui semanalmente porque o pessoal se tornou uma família para mim. O atendimento é maravilhoso. São pessoas fantásticas. Você cria um vínculo de amizade. Sem falar nas iguarias que só aqui a gente encontra: coalhada, mingau, torrada Petrópolis…”, destaca o engenheiro aposentado José Lúcio, de 61 anos. Atualmente, a Mineira é a única leiteria das muitas que existiam na cidade no século passado.

Como convém a um estabelecimento tão tradicional, o staff da Leiteria é qualificado e longevo. O garçon Gabriel Nogueira, de 76 anos, trabalha há 56 anos no local e passa a experiência de meio século para os mais jovens. “Os meninos aqui se espelham muito em mim. Eu destaco que precisamos prestar um bom serviço para crescer”, diz.

A Leiteria Mineira segue desafiando o tempo, adequando-se às mudanças sem deixar a tradição de lado para tentar se diferenciar e sobreviver em meio aos restaurantes a quilo e fast-foods. O reconhecimento veio com a eternização de seu nome na história do Rio de Janeiro. José Augusto Oliveira se mostra pronto para manter a tradição. Ao ser perguntado sobre o futuro de seu negócio, ele responde: “Que venham mais cem anos!”.

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