É doce viver no mar

Por: Marcio Allemand

Publicada em 27 de fevereiro de 2015

Praia Vermelha (1)

Praia Vermelha: águas mais limpas voltaram a atrair cariocas. Foto: Wilton Júnior

Do Leme ao Pontal e da Garota de Ipanema ao Menino do Rio todo mundo conhece a beleza da Cidade Maravilhosa e o charme dos cariocas. A cidade é praticamente uma academia a céu aberto, um convite à convivência ao ar livre.

São 34 quilômetros de praias e cada trecho tem sua tribo. Tudo demarcado democraticamente. Da turma do frescobol, patrimônio imaterial do Rio, na praia da Bica, Ilha do Governador, aos adeptos do naturismo na praia de Abricó, na Zona Oeste, todos conquistaram seu lugar ao sol. Às vezes, a bem da verdade, rola um arrastão que parece confirmar a impressão de que nem o paraíso é perfeito.

Flamengo, Botafogo e Urca

Na cidade sobram mar e areia para todos os gostos. São famílias que chegam de ônibus carregando seus isopores forrados de bebidas e comidas e atravessam as pistas do aterro em direção à praia do Flamengo. Na praia de Botafogo, menos frequentada, é fácil encontrar uma turma de amigos jogando uma partida de futebol.

É só andar mais um pouco e dar de cara com a Urca e sua pequena faixa de areia em frente ao antigo Cassino, sempre lotada em dias de sol. A poucos metros, espremida entre as pedras do Morro da Urca e do Morro da Babilônia, a praia Vermelha, de dimensões pequenas, é a mais recente redescoberta dos cariocas. A prática de canoagem havaiana, numa embarcação feita em fibra de vidro, com 14 metros de comprimento, 50 cm de largura e capacidade para seis pessoas, anda bombando.

 

Do Leme ao Posto Seis

No Leme, do outro lado do morro da Babilônia, pescadores dividem espaço na mureta da pedra entre varas, anzóis, redes e iscas. Tem movimento praticamente 24 horas, especialmente à noite. Aquele canto do Leme é o preferido dos amantes da pesca, atraídos por anchovas, tainhas e sardinhas. Dependendo da maré e da sorte, tem pescador que sai de lá com a cesta cheia.

A faixa de areia no Leme vai da pedra que dá nome ao bairro até a avenida Princesa Isabel. Bem ao lado reina Copacabana, a praia mais famosa do mundo, eterna Princesinha do Mar, com orla de quase quatro quilômetros e o calçadão de pedras portuguesas em formato de ondas, um dos símbolos do Rio de Janeiro.

É em Copacabana, o bairro que não dorme, que encontramos ciclistas a qualquer hora do dia e gente de todas as idades se exercitando. Sem falar do stand-up paddle, que virou mania no Posto Seis, ao lado da colônia dos pescadores, disputando espaço com aposentados e suas redes de vôlei e mesas de carteado.

Em frente ao Copacabana Palace, um time de mulheres bonitas treina futebol. São alunas do professor Fabrício Santos da Silva, que há mais de 15 anos dá aulas de futebol de areia para moças. As aulas são gratuitas e fazem parte do projeto Centro Esportivo de Praia Geração. “Trabalhamos com cerca de 600 jovens, não apenas das comunidades vizinhas. As aulas, também de vôlei de praia, são diárias e ensinamos handebol de areia. Usamos uma bola importada da Europa que quica.”.

Christiane Brum e Tainara Monteiro, de 33 e 24 anos respectivamente, moram na Ladeira dos Ta­bajaras e fazem aulas de futebol de areia. Tainara começou a jogar bola com os irmãos e os primos. “Se eu não jogasse bola com eles não tinha com quem brincar”. Christiane exalta o contato com a natu­reza ao mesmo tempo em que pratica seu esporte preferido. “Não tem preço. Nunca paguei academia. Meu negócio é jogar bola na praia e dar um mergulho depois dos treinos”.
Do Diabo ao Leblon

Talita Berdu caminha todos os dias entre Ipanema e Leblon. Foto: Ernesto Carriço

Talita Berdu caminha todos os dias entre Ipanema e Leblon. Foto: Ernesto Carriço

No Arpoador, de águas cristalinas nesta época, os destaques são a garotada pulando das pedras e turistas aplaudindo o pôr do sol. Atrás, escondida entre as pedras do Arpoador e os fundos do Forte de Copacabana, brilha a Praia do Diabo, muito frequentada por surfistas desde a década de 1970.

Ipanema é a terra das mulheres lindas, onde se lança moda. Dependendo do humor dos pitboys homofóbicos, que andam em baixa, pelo menos por ali, os gays têm vez e podem manifestar publicamente seu afeto. Também é a praia do apitaço, movimento lançado nos anos 1990, quando usuários da canabis alertavam fumantes quando da aproximação de policiais. É a praia do altinho, que reúne meninos e meninas, adultos e crianças.

Talita Berdu, mora no Leblon, tem 27 anos, é fisioterapeuta e cuida muito bem do corpo. Todos os dias ela caminha do Arpoador ao Leblon, ida e volta. Ela chama de espetáculo os corpos de homens e mulheres cariocas. “Nas praias é um escândalo. No verão, então, é a vitrine”.

Do Vidigal ao Pepino

Subindo a avenida Niemeyer chega-se à praia do Vidigal. Parece particular porque fica em frente ao terreno do hotel Sheraton, mas não é. É point de turistas endinheirados e moradores do morro, que convivem harmoniosamente. Descendo a Niemeyer, outra praia, a de São Conrado. O bairro é de bacanas, mas a praia é frequentada por moradores da Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. Na extremidade fica a praia do Pepino, famosa por ser o local de pouso das asas-deltas e parapentes que colorem o céu da cidade.

Debaixo do túnel do Joá, uma praia para quem quer sossego: a Joatinga. O acesso é difícil e não tem ponto final de ônibus. Só não vive vazia porque moradores das redondezas e artistas em fuga dos papparazzi batem ponto lá. De manhã cedinho, alguns surfistas também se aventuram.

Do Pepê ao Recreio

São Conrado: território dos "voadores". Foto: Saulo Stéfano

São Conrado: território dos “voadores”. Foto: Saulo Stéfano

Perto dali, já na Barra da Tijuca, bem no início da faixa de areia, ao lado do Quebra-mar, ficam as praias do Pepê e a Laje do Postinho. Se nos anos 1970 e 1980 também foi ponto de encontro de uma geração de surfistas, como no Arpoador, hoje em dia as pranchas disputam o espaço com o wind surf, stand up paddle e kite surf.

Nos outros trechos da Barra, a maior praia do Rio, 18 quilômetros de areias brancas e finas, sobra espaço para todos os gostos. No posto 4 já são tradicionais as etapas de circui­tos mundiais e a presença de crianças e jovens com suas pranchas de bodyboard. Quem busca sossego vai à praia da Reserva. A Barra também atrai gente da cidade inteira em busca de águas limpas.

O Recreio é uma das preferidas dos surfistas, com seus dois quilômetros de orla. A praia começa no fim da Reserva Biológica da Barra e vai até o Pontal de Sernambetiba, conhecido como Pontal Tim Maia. É muito procurada por banhistas nos fins de semana. Ao lado, a Macumba, assim batizada pela presença do pessoal da umbanda e do candomblé, que elegeram o local para as oferendas.

 

Da Prainha a Grumari

Uma pérola na orla do Rio, com 200 metros de extensão, paraíso dos surfistas, a Prainha é um santuário preservado. Tem área de preservação, o Parque Natural Municipal da Prainha, criado em 2001, é coberto por diferentes formações vegetais da Mata Atlântica. Tem ainda um moderno sistema de produção de energia renovável, a luz solar.

O parque é uma vitória dos surfistas que enfrentaram a especulação imobiliária e impediram a construção de um condomínio de frente para o mar. “O verdadeiro surfista é aquele que tem preocupação com a preservação e aqui é o quintal da nossa casa”, conta Juca Garcia, 55 anos, empresário e surfista desde os 12, que frequenta a Prainha diariamente.

Para os que preferem aproveitar a natureza exuberante de maneira, digamos, mais à vontade, encravada entre a Prainha e Grumari fica a Praia de Abricó. Com 800 metros de extensão, é ponto de encontro dos naturistas, dos que curtem a natureza como vieram ao mundo. “Pelados, mas com respeito e muita ordem”, explica Pedro Ribeiro, 57 anos, professor de artes e presidente da Associação Naturista de Abricó.

Mais a oeste, ainda há as praias de Guaratiba, a da Marambaia e as de Sepetiba… E nem se falou de Ramos, Paquetá, Ilha do Governador… enfim, para todo mundo, o Rio guarda um pedaço de areia.

 

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