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PUBLICADO EM 19.03.2017 - 9:29

O drama de quem já viveu na pele a gordofobia

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Amanda Rodrigues, a jovem moradora de Campos dos Goytacazes que morreu aos 19 anos após realizar uma cirurgia bariátrica, foi mais uma vítima do bullying e da gordofobia. A menina que sempre foi gordinha e alegre começou a sofrer com o preconceito aos 7 anos de idade. E passou 12 anos se sentindo pressionada a emagrecer para entrar nos padrões de beleza ditos normais e ser aceita na sociedade. A história de Amanda é relatada por sua irmã, Mayara, nas redes sociais e faz um alerta a todos: até que ponto não estamos estimulando jovens e adultos a buscar alternativas arriscadas para a sua própria saúde em nome da chamada ‘ditadura da beleza’ e da boa forma?

Conheça a história de Amanda, no relato emocionado de sua irmã, postado dia 31 de janeiro no Facebook:

“Poucos sabem a história da Amanda, e hoje eu vou conta-la. Amanda sempre foi uma criança gordinha, gordinha e muito alegre. Boa de coração e cheia de alegria. Amanda começou a sofrer preconceito à partir dos 7 anos. As crianças da sala dela não aceitavam a minha irmã porque ela era gordinha. Amanda não podia sentar na mesma mesa das meninas na hora do lanche, não podia ser do mesmo grupo nas brincadeiras na hora do parquinho e da educação física, e muito menos conviver junto na sala de aula.

Amanda foi uma criança excluída pelas meninas. E os meninos? Ah os meninos batiam nela, por diversas vezes Amanda chegou em casa machucada, espancada, com as perninhas roxas. Em uma das vezes que ela nos contou de mais um dia terrível de aula, ela nos disse que desceu pro lanche e quando subiu suas coisas estavam rasgadas e no chão da sala. Rasgaram tudo, seu caderninho, seu estojo, sua mochilinha. Estava tudo rasgado no chão.

Os apelidos? Eram vários, de todos os tipos. Até alguns professores já apelidaram a minha irmã. Muitas vezes eu escutei dos meus parentes na frente dela “Olha Mayara, você está engordando, vai ficar igual a sua irmã.” Como isso a machucava. Já passou por várias escolas e nunca foi aceita como uma pessoa normal. No ano passado, ela não foi fazer a prova do Enem por vergonha de não caber na cadeira e todos rirem dela. Na escola, ela tinha que escolher algumas cadeiras que ela conseguia sentar, com bastante dificuldade e muita vergonha de todos. As pessoas sempre a discriminaram.

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As pessoas olhavam a minha irmã de uma forma diferente. Ela sentia vergonha de tudo, ela não ia ao shopping á noite por vergonha das pessoas. Ela não segurava sua bandejinha de lanche. Ela não ia ao mar, e fazia muito tempo que ela não sabia nem como era pisar na areia. Amanda nunca soube o que era entrar em uma loja e escolher a roupa que ela queria. Nessa virada de ano, ela passou com uma blusinha branca e um short, ela queria um vestido, mas não tinha o tamanho dela. Ela me perguntou se estava bonita e eu respondi que ela estava linda, logo em seguida eu escutei mais uma das frases doídas que sempre saíam dela.

“Irmã, eu não gostei dessa roupa, estou me sentindo muito feia. Mas era a única que cabia em mim.” Nós tentamos de tudo com a Amanda, médicos, dietas, remédios, atividades físicas. Nada foi capaz de conter o peso dela. O peso dela nunca estabilizou, ela engordava cada vez mais. Optamos pela cirurgia, depois de pensar muito, e chegamos a conclusão de que essa era a única saída. Ela estava tão feliz, tão feliz… “Eu vou ficar bonita, as pessoas vão gostar de mim” “Esse sofrimento vai acabar, irmã.” “Eu vou vestir 38.”

Ela me falava tantas coisas… Ela operou com o DR. GUSTAVO CUNHA. Ela ia fazer com o Dr. Carlos Gicovate, mas em uma das reuniões para pacientes bariátricos na clínica PLENUS ela se encantou com o Dr. GUSTAVO CUNHA, e resolveu fazer com ele. Disse que ele era muito simpático e que ela queria fazer com ele. No dia 17 de janeiro a minha irmã fez a cirurgia. Assim que ela voltou para o quarto reclamou de uma dor na perna. A minha mãe notificou aos enfermeiros dessa dor, e o Dr. Gustavo pediu que aplicasse uma dose do anticoagulante e no dia seguinte aplicasse mais uma dose.

A minha mãe conversou com ele e disse que ela tinha genética para trombose e perguntou se não seria necessário mais doses do anticoagulante e ele disse que não seria necessário. No dia 27 de janeiro a minha irmã sentiu uma dor muito forte na barriga e levamos ela às pressas para o (Hospital) Beda, chegando lá ele fez uma tomografia e disse que estava tudo bem.

A minha irmã estava com falta de ar, estava morrendo de dor, e ele pediu pra diminuir a dosagem do remédio para dor. Ele conversou com a minha mãe e disse que achava que a dor era psicológica. Ele internou ela e disse que se a dor persistisse ele iria fazer uma nova cirurgia no dia seguinte para investigar o que estava acontecendo. A minha irmã estava com dor e segurava as mãos da minha mãe dizendo que a dor não era psicológica, e os enfermeiros diziam que só podiam seguir o que o Dr. Gustavo disse para fazer.

03:00 do dia 28 a minha mãe acordou e a minha irmã não conseguia respirar, estava sufocada, não consegui falar. Só olhava para minha mãe desesperada. A minha mãe saiu gritando socorro pelo hospital. Levaram a minha irmã para a UTI. A minha irmã teve embolia pulmonar, dentro do hospital, no socorro, e ninguém descobriu. O médico sabendo do histórico da minha irmã nem desconfiou da trombose. A minha irmã não resistiu.

Ela entrou no hospital com a carteirinha e a identidade e saiu com um atestado de óbito. A minha irmã não ficou nem 24 horas no hospital. A minha irmã morreu com sede, com dor, arrependida da cirurgia. A minha irmã não vai mais sorrir, não vai dirigir, não vai se formar, não vai trabalhar, não vai namorar, não vai ser mãe, nem tia. O carro dela continua na garagem. Os seus perfumes continuam no armário. Sua cama ainda está aqui. Sua bolsa está pendurada no lugar de sempre. Seus sapatinhos estão onde você deixou. Sua gatinha está te procurando. Mas você irmã, você nunca mais vai voltar. Eu te amo, para sempre”.

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